29.4

O trauma do pênalti

Luciane de Castro

Prometi há pouco tempo não abordar o futebol feminino do ponto de vista estrutural ou outros temas extra campo. Decidi, justamente por não ter mais paciência de bater na mesma tecla e não contar com o apoio de muitas jogadoras, as mais interessadas no assunto. Portanto, abordo só as questões pertinentes às quatro linhas.

Na decisão pelo ouro no Pan de Guadalajara, nossas meninas perderam nos penais para o Canadá. Sim, o mesmo Canadá que eu já julgava o adversário mais complicado nesta competição e o mesmo Canadá que decepcionou no Mundial da Alemanha, saindo na primeira fase.

No início do primeiro tempo, o Brasil numa postura incrivelmente ofensiva, abriu o placar com um belíssimo gol de Debinha. Marcando a saída de bola canadense, o Brasil foi fulminante aos 4 minutos de jogo. De fora da área, a endiabrada Debinha chutou forte, pegou na veia e acertou a meta canadense sem chance de defesa. Golaço! E muita vibração da caçulinha da seleção.

Chute de Débora que resultou no primeiro gol do Brasil. Foto: Jefferson Bernardes/VIPCOMM.

Mas para desespero geral da nação, tão logo o placar foi aberto, a postura de nossas jogadoras mudou. Não sei se por orientação técnica ou se por hábito, mas o time recuou e recuou legal! Com o recuo, Debinha ficou mais isolada, Thaís se manteve distante, o meio de campo existia única e exclusivamente na pessoa de Formiga e zaga, laterais e demais componentes, começaram a bater cabeça na defesa.

Comum ver Maurine avançar no máximo dois metros após o meio de campo para tentar emendar com o ataque, onde estava Debinha totalmente isolada e marcada sempre por no mínimo, três canadenses. Dominar uma bola alçada em meio a uma zaga mais preparada fisicamente, num gramado sintético, com chuteiras de travas e com estatura que não favorece o cabeceio, era tarefa inglória. Mas ninguém dentro de campo observou isso e não sei se fora dele também, pois seguiam as bolas rifadas e as tentativas frustradas de elo da intermediária de defesa para a grande área canadense.

Maurine disputa bola contra o Canadá. Foto: Jefferson Bernardes/VIPCOMM.

Enquanto isso, Formiga se matava rodando o campo inteiro e a zaga fazia o que podia para impedir as investidas canadenses. Bárbara falhou no gol de empate de Sinclair, já ao final do segundo tempo, mas na avaliação geral, foi muito bem fazendo importantes defesas.

Outra postura da equipe que não me agradou e que acredito ser um pouco de falta de malícia da maioria das atletas: antecipação nos lances. Em cobrança de lateral para o Canadá era comum ver a jogadora que recepcionaria o passe, livre de marcação. Uma jogadora brasileira mantinha a distância e deixava a canadense livre para receber. Quando ao contrário, havia marcação cerrada e, portanto, dificuldade em manter a posse de bola.

Fazer um-dois? Quase nunca, ou nunca, porque não tenho a lembrança de todos os lances da peleja. Faltou bola no chão, toque, que é o que mais sabemos fazer. Bola rifada o tempo todo, tentativa de ligação da defesa com o ataque, desespero para fazer um gol que terminava em chutes imprecisos e falta de visão de companheira melhor colocada. Tudo isso e um certo nervoso levaram ao empate do Canadá, o que nos rendeu mais trinta minutos de prorrogação com Formiga jogando no seu limite e finalmente os pênaltis.

Neste momento, revi Alemanha em julho. E não deu outra. Se gols foram perdidos no tempo regulamentar, perder pênalti, diante de tais circunstâncias, não seria algo extraordinário, pelo menos no meu entendimento. E assim foi. Debinha, a endiabrada, a menina que ganhou a titularidade por sua agilidade, fome de bola e habilidade ímpar, cobrou de forma muito displicente e o ouro ficou com o Canadá. Visível era o nervosismo das nossas meninas e a tranquilidade das canadenses. Reflexo de uma eliminação por pênaltis na Alemanha?

A mesma Debinha saiu inconsolável de campo não aceitando sua própria falha e contou com o apoio de toda a equipe. Natural para uma garota que sabe muito bem de suas qualidades e que se cobra por falhas como essa.

Débora lamenta o pênalti perdido. Foto: Jefferson Bernardes/VIPCOMM.

A prata valeu? Claro que valeu, é uma medalha que dá o devido valor ao futebol feminino nacional. Foram nossas meninas que fizeram a transmissão do futebol no Pan, chegar onde chegou, já que os meninos não passaram da primeira fase. Mas aceitar o vice sempre da mesma maneira e apontar sempre a falta de estrutura e apoio como os únicos vilões da história toda, já não é o argumento que aceito.

A postura dentro de campo, a disposição tática e os erros que comumente nos acomete, não tem a ver com CBF, Federações e afins. Passou da hora de levantarmos a cabeça, batermos no peito e dizer: NÓS VAMOS GANHAR! SOMOS AS MELHORES! E buscar isso com inteligência emocional.

Aceitar sempre o segundo lugar, nos coloca sempre em segundo plano e diante dessas declarações, quem é que vai nos olhar como potenciais geradoras de investimento e claro, retorno? Que tal pensarmos nisso e pararmos de chorar e mendigar? Londres está logo ali e com mais equipes (muito mais competitivas e estruturadas) faremos a tal frente para sermos vices de novo? Busco ser vencedora e não uma mera coadjuvante e gostaria de ver esta vontade impregnada em nossas meninas.

Seleção brasileira no pódio. Foto: Jefferson Bernardes/VIPCOMM.

Se serve de inspiração, basta ver no mesmo evento, quantos atletas brasileiros com muito menos apoio e visibilidade, conquistaram o ouro. Então, vamos mudar o discurso? Vamos a Londres com outro espírito e postura? Inteligência emocional, foco e autoconfiança, é o que desejo a todas as jogadoras. Cobrar penais em partidas decisivas, deve estar bem assimilado, trabalhado e treinado. O emocional não pode interferir neste momento.

Em tempo: A alteração no horário do jogo das 20hs para as 20h45, foi uma solicitação da TV Record para que não houvesse, como no jogo contra a Costa Rica, interrupção da transmissão para exibição de propaganda política. Decisão acertadíssima da emissora!