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O treinador entre nós

Leandro Marçal

Não era o dia do treinador. Não era a semana, o mês ou o trabalho memorável do treinador. Já havia uma contagem regressiva para a demissão. Sabia disso. Nem se importava. A rescisão era gorda, ganhava mais que os parentes, tinha bons investimentos. Dava para descansar um pouco, pensava.

Sua preocupação era outra mudança. Fazer as malas, dobrar as roupas, ouvir broncas da mulher, reclamar das perdas entre um estado e outro. Encaixotar, procurar imóveis, aturar trabalhadores em sua casa admirando medalhas e fotografias com personalidades da bola. Isso o chateava.

Sem falar nas entrevistas, nos comentários de quem não conhece nada de futebol, na cobrança dos torcedores fanáticos, na cornetagem de cartolas interessados no poder. Ninguém entendia como é a vida de um treinador. O treinador entendia tudo, claro.

Antes do último jogo, evitava falar em último jogo, mas sabia que era o último jogo. Quis fazer bonito, mesmo com um time feio, cheio de jogadores sem capacidade para jogar na sua época, aquela época era boa. Mesmo que o treinador mal conste nas enciclopédias virtuais como um ex-atleta de valor histórico. As enciclopédias virtuais não entendem nada, o treinador entende tudo, claro.

Colocou a melhor roupa, ficou à beira do campo com um aspecto sadio. Gritava e fazia gestos para o lateral esquerdo, do outro lado do campo. O repórter, a poucos metros do treinador, chamou atenção na transmissão esportiva. Narrador e comentarista entenderam o que o treinador indicava. Narrador e comentarista não sabiam que o treinador e o lateral esquerdo não se falavam desde uma briga feia no vestiário.

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Treinador. Foto: Jannik Skorna.

O treinador fez cara de decepção no primeiro e segundo gols sofridos. Ninguém sabia que a decepção era menor que a de não chegar logo em casa e dormir no chamego da esposa. Só o treinador sabia o que o treinador sentia. Afinal, o treinador entende tudo, claro.

Na entrevista coletiva, jogou a responsabilidade sobre a diretoria quanto a uma possível demissão. Estava fazendo o máximo, dizia. Tinha limitações, lamentava. O futebol brasileiro precisa evoluir, analisava. A confiança era plena em mais tempo para continuar aquele trabalho que já vinha dando frutos, os resultados eram só um detalhe diante da evolução visível, continuava.

Resolveu falar pouco ao notar o cansaço no rosto dos que o perguntavam. Ninguém é de ferro. No vestiário, era dada como certa a saída do treinador. Os jogadores comemoraram, disse um jornalista, essa raça. O treinador fez cara feia, repetia não acreditar nesse tipo de coisa. Todo mundo é profissional sério, ninguém é capaz de uma atitude dessas.

Dois meses depois, o treinador foi contratado por um time capenga às vésperas do rebaixamento anunciado. Ninguém entendeu a contratação depois de um fracasso havia tão pouco tempo. O treinador entendeu tudo, claro.