29.2

O último combate do Gladiador? – O caso de Kleber versus Felipão – parte 2

Max Filipe Nigro Rocha

O último grande ato do discurso do poder é a ameaça de quebra do vínculo empregatício caso a greve por parte dos jogadores fosse declarada, e nesse caso cremos que faz todo o sentido a afirmação de Scolari que não distingue comissão técnica e diretoria. Esses últimos, aos olhos da comissão técnica e da diretoria, assumem a condição de trabalhadores em sua perspectiva negativa, ou seja, apenas no momento da ameaça da aplicação de uma medida coerciva como a demissão sumária:

“Jogador não é burro. Não vir aqui hoje seriam seis pontos (por W.O.). E outra coisa que eu acho que vocês não sabem… (risos) Isso é justa-causa. Pois é, isso nós sabemos.”1 (grifo nosso)

Luiz Felipe Scolari quando era técnico de Portugal encontra-se com o ex-presidente Lula. Foto: Antônio Cruz/Agência Brasil.

A estrutura argumentativa que perpassa o discurso de Felipão ao defender a hierarquia e a obediência e, em último caso, ao lembrar a condição de empregado dos jogadores, projeta no horizonte o ranço mercadológico que não autoriza a suspensão de uma partida de futebol devido a um “motivo menor”. Uma vez implícito no discurso do técnico, tal posicionamento aparece de forma explícita nas declarações dos membros da diretoria. Em entrevista ao Globo Esporte, Roberto Tirone, vice-presidente do Palmeiras, expõe a situação:

“Gostaria de pedir desculpas ao João Vitor, à família dele, e a todo palmeirense que quer o bem do seu clube. Repito que estou muito triste, mas que não vamos deixar de trabalhar por causa disso.2 (grifo nosso)

Tal posição é reforçada pela declaração do advogado do clube, André Sica:

O Palmeiras vai segurar um pouco a versão oficial (a respeito da agressão ao João Victor) porque temos um jogo muito importante e estamos focados nele. Após o jogo todo o procedimento vai ser feito, exame de corpo delito, entre outras coisas.”3 (grifo nosso)

Já a condição coletiva da equipe é acionada na medida em que pode ser utilizada em favor da lógica do futebol-mercadoria, mas é refutada quando flerta com a possibilidade de organização dos profissionais da bola, conforme afirma Tirone:

Grupo quanto se liga em torno de alguma coisa comum, isso acaba resultando até em uma performance esportiva, entendeu? O grupo trabalhou com a mesma solidariedade em campo. […] João Vitor, a questão é com a polícia. vamos aguardar o inquérito para apurar as responsabilidades.”4 (grifo nosso)

Roberto Frizzo, diretor de futebol do Palmeiras, complementa a interpretação da diretoria ao afirmar em que medida os jogadores participam das decisões que competem diretamente a eles:

Não sei se os jogadores concordaram ou não com a situação, o que sei é que conversamos internamente e houve união. A reação foi vista em campo. Tivemos uma exibição superlativa contra o Flamengo.”5

Nesse ponto, é interessante destacar a constante preocupação da comissão técnica e diretoria em afirmar, de forma categórica, que o caso de agressão ao volante João Vitor não é motivo para a paralisação das atividades profissionais. Além de sugerir complacência em relação aos atos de agressão por parte de alguns torcedores e priorizar o cumprimento inquestionável do calendário esportivo em nome da lógica do futebol-mercadoria, é possível se perguntar contra quais as ameaças de resistência o discurso do poder da diretoria se posiciona. Pelo que foi possível resgatarmos nos registros realizados pela imprensa, tal repressão não faz jus à mobilização ocorrida entre os jogadores, dos quais poucos se manifestaram a respeito do caso de agressão, do posicionamento de Kléber ou da ameaça de suspensão das atividades profissionais no clube.

Kleber beija o disitintivo do Palmeiras. Foto: Trombonando (disponível na Wikipédia).

Pressionados pela comissão técnica e diretoria, alvos preferenciais em caso de agressão por parte de uma parcela da torcida, desamparados pelo aparato legal da justiça esportiva por meio da ameaça de derrota por W.O. em caso de paralisação e, por fim, foco de uma imprensa esportiva que busca o evento espetacular ao invés de se propor a uma cobertura crítica, o posicionamento e as declarações dos jogadores sobre o ocorrido são pífias e apáticas, resumindo-se a comentar o assunto superficialmente, quando não decidem apoiar as determinações do técnico ou defender a posição do clube, como é o caso do goleiro Marcos:

“Eu defendi que os jogadores não desistissem de viajar ao Rio. O time não pode deixar de jogar e ser prejudicado depois. Alguns poucos torcedores não representam a nossa torcida que tem 15 milhões de pessoas. […] O Palmeiras não vai colocar segurança 24 horas por dia para todos os atletas. Isso é impossível”6

Luan, vítima recente de agressão, também opta por defender o restabelecimento da hierarquia e a busca do resultado:

“Eu não sei informar na real o que aconteceu. Mas o Kleber, todo mundo queria ter ele. Mas o que a diretoria achar, o que o Felipao achar, a gente tem que acatar e a gente tem que estar com ele. (…) A gente tá com o Palmeiras, o que for bom para o Palmeiras, a gente tem que seguir em frente, trabalhando, para que mostre algo mais dentro do campeonato.”7 (grifo nosso)

O zagueiro Henrique, o lateral Cicinho e o atacante Maikon Leite também seguem a mesma linha:

“Nosso grupo está mais fortalecido com as coisas que estão acontecendo. Estamos unidos e colocando isso em campo”

“Entramos em campo para dar o nosso melhor. Temos de colocar na cabeça que o mais importante é o futebol, sem se preocupar com esses problemas fora de campo.”8

“Prefiro aguardar e não falar nada [sobre a situação de Kéber] . É a melhor coisa. Mas se ele não jogar, é lógico que vai fazer falta. Quem não quer um jogador como o Kléber no elenco?”9

Contudo, seria interessante inverter a perspectiva pois se considerarmos que a repressão realizada pela diretoria e comissão técnica, apoiada por grande parte da imprensa, foi proporcional à iniciativa de rebelião e greve que aconteceu nos vestiários do Parque Antártica. Dessa forma, os diversos telefonemas que Kléber recebeu dos demais colegas logo após a discussão com Felipão apontam mais do que uma solidariedade passiva, mas um borbulhar perigoso de insatisfações por parte dos jogadores. Com isso, a declaração de Scolari adquire sentido completamente diferente:

“Vocês (jornalistas) não sabem nada. Quem passa as notícias, passa de acordo com os interesses. Esqueçam. Tem coisas que nunca vão ser passadas e nem precisam. É assunto interno, resolvido, acabado, e ponto final.”10

A dificuldade do pesquisador, diante desse contexto, está em romper as barreiras impostas por esses personagens – dirigentes, comissão técnica, imprensa e jogadores – de forma que seja possível analisar as relações sociais e econômicas que permeiam o universo da bola.

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[1] http://www.band.com.br/esporte/futebol/brasileirao-serie-a/noticia/?id=100000461841 acessado em 18/10/2011.

[2] http://globoesporte.globo.com/futebol/times/palmeiras/noticia/2011/10/tirone-desabafa-apos-agressao-joao-vitor-nao-consigo-aceitar.html acessado em 18/10/2011.

[3] http://globoesporte.globo.com/futebol/times/palmeiras/noticia/2011/10/joao-vitor-presta-depoimento-mas-sera-preservado-pelo-palmeiras.html acessado em 18/10/2011.

[4] http://esportes.br.msn.com/video/default.aspx?cp-documentid=70144ec0-a4d0-440f-bbbe-798ae2500126 acessado em 18/10/2011.

[5] http://globoesporte.globo.com/futebol/times/palmeiras/noticia/2011/10/palmeiras-confirma-saida-de-kleber-nao-ha-mais-volta.html acessado em 18/10/2011.

[6] http://esportes.terra.com.br/futebol/brasileiro/2011/noticias/0,,OI5409177-EI17896,00-Marcos+conta+que+foi+contra+o+motim+na+Academia.html acessado em 18/10/2011.

[7] http://esportes.br.msn.com/video/default.aspx?cp-documentid=70144ec0-a4d0-440f-bbbe-798ae2500126 acessado em 18/10/2011.

[8] http://esportes.br.msn.com/futebol/elenco-do-palmeiras-exalta-supera%c3%a7%c3%a3o-do-time-na-crise acessado em 18/10/2011.

[9] http://globoesporte.globo.com/futebol/times/palmeiras/noticia/2011/10/maikon-leite-admite-desconforto-apos-caso-joao-vitor.html#equipe-palmeiras acessado em 18/10/2011.

[10] http://globoesporte.globo.com/futebol/times/palmeiras/noticia/2011/10/scolari-cria-duvidas-sobre-inocencia-de-joao-vitor-em-caso-de-agressao.html acessado em 18/10/2011.

Como citar

ROCHA, Max Filipe Nigro. O último combate do Gladiador? – O caso de Kleber versus Felipão – parte 2. Ludopédio, São Paulo, v. 29, n. 2, 2011.