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O último dos moicanos: ele é Zlatan

Marco Antunes de Lima

Nascido em 3 de Outubro de 1981, na cidade de Malmo, na Suécia, Zlatan Ibrahimović pode ser considerado um dos mais prestigiados atacantes do futebol mundial ainda em atividade. Desde 1999, ou seja, há 20 anos, como profissional da bola, Ibrahimović possui mais de 500 gols por clubes e seleções e ainda mantém grande média de gols por partida.

Ibrahimović, atualmente, defende as cores do Los Angeles Galaxy, da MLS (principal liga de futebol dos Estados Unidos da América), e, em seus 20 anos de carreira defendeu, além do Malmo FC (clube de sua cidade natal), somente clubes da lista dos grandes europeus, como: Ajax, Juventus, Internazionale de Milão, Milan, Barcelona, Paris Saint Germain e Manchester United.

Zlatan Ibrahimović comemora gol pelo Los Angeles Galaxy. Foto: Reprodução/Twitter.

Mas não pretendo continuar chamando o craque sueco pelo seu sobrenome, de origem iugoslava, mas vou passar a chamá-lo pelo seu prenome, da mesma maneira que o jogador mesmo gosta de se chamar: Zlatan! Chamarei Zlatan de Zlatan, pois este texto visa chamar a atenção para o fato que eu, como apaixonado por futebol, sinto falta da existência de mais jogadores como Zlatan.

Este texto, como já se deve ter notado, não tem pretensão acadêmica alguma, também não é um simples elogio a Zlatan Ibrahimović, até porque não o considero o maior jogador da história e nem mesmo em atividade, ao contrário do próprio Zlatan, mas sim um elogio à relação de Zlatan com o mundo do futebol e do mundo do futebol com Zlatan. Talvez seja um sentimento nostálgico, mas não se trata de dizer aquele famoso clichê de que “hoje o futebol está chato”, pois não acho que esteja, mas, sim, que as relações no mundo da bola hoje estão muito diferentes, e algumas coisas do passado se perderam, sendo que não precisavam ter se perdido.

Zlatan Ibrahimović, se nos atermos apenas aos números, possui, sem dúvida alguma, uma grande trajetória futebolística nos últimos vinte anos. São treze títulos de campeonatos nacionais; dezessete títulos das mais variadas copas nacionais; um título de campeão mundial de clubes, em 2009 com o Barcelona, uma supercopa da UEFA e uma Europa League, em 2017, com o Manchester United. Individualmente, venceu o Puskas Award de gol mais bonito do ano, em 2013, além de prêmios de artilheiro e melhor jogador nas mais variadas ligas por onde passou. Zlatan tem sido, por toda a sua carreira, a figura do verdadeiro centroavante: decisivo e marcador. E Zlatan foi muito bem recompensado financeiramente por esses números, como todo grande jogador neste século XXI. Salários milionários por onde passou, sendo atualmente o jogador mais bem pago na Major League Soccer, com vencimentos de 7,2 milhões de dólares em 2019, sem contar os ganhos com publicidade.

Zlatan Ibrahimović celebra gol acrobático na Eurocopa de 2012, na partida entre Suécia e França. Foto: Wikipedia.

O que me faz respeitar Zlatan não são os seus salários nem mesmo os seus títulos – na maioria das vezes jogou em clubes com os quais nunca tive empatia –, mas sim o fato de o jogador ser daqueles que se pode usar o termo inglês “talk the talk, walk the walk”, ou seja, em tradução livre, aquele que “faz o que fala” ou que tem capacidade para se garantir em suas palavras. Zlatan sempre foi assim, desde seus primeiros anos no futebol profissional. É uma característica pessoal do jogador, que, obviamente, o mesmo foi aperfeiçoando com o passar dos anos, trazendo cada vez mais atenção para si.

Zlatan, ao longo de sua carreira, é autor de frases sensacionais sempre se colocando como se fosse o maior atleta futebolístico de todos os tempos. Para iniciar alguns exemplos, queria começar com a frase informacional de sua página na rede social Instagram, onde possui mais de 38 milhões de seguidores: “Lions don’t compare themselves to humans”, ou seja “Leões não se comparam com humanos”. O atacante sueco se apresenta para o mundo como diferente dos demais mortais e, logo, incomparável. Logo no início de sua carreira, em 2000, quando questionado porque não teria ido jogar no poderoso Arsenal, treinado por Arsene Wenger, Zlatan respondeu que “Zlatan não realiza testes”. Ibrahimović era um iniciante no mundo da bola.

Zlatan Ibrahimović comemora gol pelo PSG contra o Shakhtar Donetsk, em partida da Liga dos Campeões da Europa, em 2015. Foto: Wikipedia.

A carreira de Zlatan é cheia de frases em que o próprio se qualifica como um Deus do futebol. Podemos supor que o sueco seria uma pessoa extremamente narcisista e egocêntrica, correto? Sim, sem dúvida, mas trago aqui um questionamento: que mal essa característica de Zlatan Ibrahimović trouxe ao futebol nos últimos 20 anos? Sinceramente, não consigo enxergar nada de mal, muito pelo contrário, essa postura realmente narcisista do jogador somente trouxe mais atenção para os campeonatos onde jogava, só trazendo benefícios para os clubes, em termos de audiência de torcedores. E vamos ser sinceros, torcedor de futebol adora uma polêmica envolvendo jogadores e clubes. E Zlatan sempre soube disso.

Sempre provocativo com os adversários, e até mesmos com colegas de equipe, Zlatan cumpriu o seu papel: o de fazer gols, e muitas vezes belos gols, e ajudar as equipes a ganhar campeonatos e a atenção dos torcedores. Já provocou o técnico Guardiola, que, considerado pela grande parte da imprensa o maior técnico da atualidade, foi colocado em cheque por Zlatan, por não concordar com sua filosofia.

Atualmente, e com muita esperteza, Zlatan Ibrahimović provoca o atacante mexicano Carlos Vela, artilheiro da atual MLS e que defende as cores do Los Angeles FC, rival direto do Galaxy, de Zlatan. Quando questionado pela ESPN quem é o melhor jogador da MLS, Zlatan diz que “por muito” seria ele e para justificar sua posição não usa estatísticas – Vela tem mais gols e mais assistências no campeonato –, mas responde que Vela tem 29 anos “e está em seu máximo (prime)” e pergunta “quantos anos ele tem?”. O repórter responde 29 anos, e então Ibrahimović sugere: “Ele tem 29 anos, está jogando na MLS e está em seu máximo. Onde eu estava com 29 anos?”. Novamente o repórter responde “Na Europa”. Zlatan então responde: “Grande diferença, exatamente”. Ibrahimović, apesar de parecer arrogante e narcisista sabe exatamente o local de sua fala, é o jogador que fala e dá garantias. Ele sabe que atualmente não joga em uma liga forte, mas sabe que ali ele é o mais bem pago, pois é o que garante o sucesso da imagem da liga e do clube.

Zlatan Ibrahimović nos traz a memória grandes jogadores do passado que tinham a capacidade de chamar a atenção para si e que eram daqueles que também falavam e faziam. A começar pelo Brasil, me lembro de Romário, o maior centroavante dentro da área que vi jogar. Romário era daquele que todo tempo dizia ser “o cara”, e sempre foi, visto que com mais de 40 anos ainda era artilheiro de campeonato. Outros jogadores que “falavam e faziam” e me recordo foram Eric Cantona, Maradona e Dadá Maravilha. Pelé, apesar de mais “humilde” sempre se referiu a si mesmo em terceira pessoa, como Pelé, e tinha plena consciência de sua superioridade como jogador.

A nova “era” do futebol mundial, globalizado, mas principalmente transformado em um grande produto de marketing, iniciado no final dos anos 90, diminuiu em grande quantidade o número de jogadores com as características de Zlatan: aqueles que falam e fazem. Desde Ronaldo “Fenômeno” Nazário, primeiro grande craque do futebol mundial surgido nessa era do marketing, vemos muito poucos grandes jogadores que realmente falam o que pensam – com razão ou sem razão –, que tem a capacidade de falarem com a autoestima alta e chamarem para si as responsabilidades de suas falas. Desde então, jogadores, craques ou não, mas principalmente as grandes estrelas, estão cercados de dezenas de assessores de imprensa (pessoais ou dos clubes), que limitam as falas e que também instruem o que deve ou não ser falado. Acredito que esse tom provocativo, narcisista e, de certa forma, individualista, que existe ainda em Zlatan, por mais irritante ao torcedor adversário que possa parecer, ainda é algo que mantém o futebol interessante e necessário ao jogo. As falas de Zlatan são provocativas, mas não podemos dizer que são violentas ou incentivem qualquer tipo de violência. É preciso mais jogadores como Zlatan de volta o futebol.

No título deste artigo usei o nome do famoso romance de James Fenimore Cooper, “O último dos moicanos”, onde membros da tribos dos moicanos ajudam os britânicos durante a Guerra Franco-Indígena na América Colonial. O termo é muito utilizado para tratar o último membro de algum grupo. Ibrahimović, em minha opinião, é isso. Com 38 anos de idade e próximo de uma aposentadoria (bem que eu gostaria que ele pudesse jogar no ataque do meu clube de coração), Zlatan Ibrahimović é esse “último dos moicanos”: uma grande estrela, que ainda marca gols e garante vitórias para o clube, mas que se comunica com autoestima alta e traz um pouco de polêmica (não violenta, nem preconceituosa) ao futebol.