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O último jogo de todos os tempos

Gustavo Andrada Bandeira

Quiseram os deuses do futebol que o último jogo de todos os tempos, em 12 de março de 2020, fosse um Grenal pela desejada Libertadores da América! Mesmo que a competição já tivesse sido suspensa em função do COVID-19 durante aquela tarde, 53.388 torcedores e eu estivemos na Arena para testemunhar o jogo histórico, ainda não por ser o último, mas por ser o primeiro clássico gaúcho na competição sul-americana. A excitação era bastante grande. Imprensa e torcedores só falavam nisso. Aqui no Rio Grande do Sul, o COVID-19 era personagem coadjuvante, quase um figurante. As duas equipes vinham de vitória na rodada de abertura da competição sul-americana.

O zero a zero frustrante foi diferente de outros empates covardes que aconteceram em vários enfrentamentos. Tivemos bom futebol. As duas equipes alternaram situações. O Internacional parecia mais ajustado em campo enquanto as individualidades gremistas pareciam mais qualificadas. Aos 40 minutos do segundo tempo, o atacante gremista Pepê tomou um tostãozinho de joelho nas costas, dado pelo lateral colorado Moisés. Em um primeiro momento, ele fez exatamente o que eu espero de um jogador profissional e foi reclamar da agressão com o árbitro assistente. Moisés não gostou da atitude do atacante e foi tirar-lhe satisfações.

Grenal da Libertadores 2020. Foto: Ricardo Duarte/Internacional.

Neste momento o gremista pareceu obrigado a encarar o adversário colorado. Contrariando todas as iniciais recomendações das autoridades de saúde, o colorado Edenílson e o gremista Luciano não optaram pelo distanciamento e trocaram afetos um com o pescoço do outro. Deste momento em diante uma briga generalizada tomou conta da ponta-direita de ataque do Grêmio. Socos, empurrões, invasão de campo, correria, reservas misturados aos titulares e muita, muita vibração da torcida.

A briga pareceu terminar duas vezes, mas só para enganar suas testemunhas. Uma das cenas mais curiosas foi o momento em que o zagueiro reserva do Grêmio Paulo Miranda “parou” como um verdadeiro homem com aguante (ALABARCES; GARRIGA ZUCAL; MOREIRA, 2008) diante de sete jogadores do Internacional gerando memes bastante curiosos. No retorno em um jogo de oito contra oito, o Grêmio ainda teve duas chances de gol com Geromel e Lucas Silva, mas mesmo que essas bolas tivessem entrado, o clássico já tinha o seu principal elemento.

Nas linhas que se seguem buscarei apontar as manifestações dos diferentes atores do espetáculo esportivo tal qual o classifica Arlei Damo (2006): dirigentes, profissionais, torcedores e mediadores especializados. Dos dirigentes nada foi muito chamativo, apenas o presidente do Internacional, naquele momento já infectado pelo Covid-19, que naturalizou a briga lembrando um clássico festivo que terminou com vinte expulsões.

Os mediadores especializados fizeram um justo coro contrário aos episódios violentos. Apesar de concordar, e muito, que esses episódios devam ser combatidos, me chamou atenção como os mediadores não se entendiam participantes desse evento. Os jogadores envolvidos no enfrentamento físico foram tratados do mesmo modo que os torcedores organizados como selvagens desajustados (GARRIGA ZUCAL, 2005). Parece que a rivalidade[1] sempre incentivada, a dramatização de um jogo de vida ou morte e o imperativo da vitória em nada dialogam com situações como a que ocorreu no clássico. Nosso jornalismo esportivo desfila preconceitos das mais diversas ordens e em alguns “debates” os atores se chamam para as “vias-de-fato” sem que isso seja tratado como algo além de um vídeo engraçado para compartilhar no Whatsapp como o último enfrentamento entre Kenny Braga e Haroldo de Souza[2].

Além disso, em artigo publicado com minha colega Sabrina Franzoni (BANDEIRA, FRANZONI, 2018) vimos que nas dramatizações sobre o futebol no Rio Grande do Sul, a partir das equipes campeãs da Libertadores, mesmo ao apresentarem bom futebol, a coragem, a valentia e a masculinidade acabam sendo protagonistas nessas representações. O Internacional campeão da América em 2006 precisou ser valente e raçudo, além de ser macho a gaúcha no confronto contra o brasileiro São Paulo. O Grêmio campeão em 1983 foi forjado com mais garra, sangue e suor do que com a técnica e o jogo bonito.

Se a hipótese dos mediadores de que a briga tenha sido causada por sujeitos desajustados estivesse correta, a vibração da torcida não teria atingido os níveis que atingiu. O esforçado e, muitas vezes lesionado, zagueiro Paulo Miranda foi alçado à condição de ídolo gremista. Os torcedores sabem, porque aprenderam, que um jogo possui muitos elementos em disputa. O número de gols de cada equipe é apenas um deles e em algumas ocasiões de pouca importância. Qual torcedor de estádio que, infelizmente, nunca escutou alguma dessas frases: “ganhamos no jogo e no pau (briga em gaúcho)” ou “perdemos no jogo, mas ganhamos na briga”?

Por fim, mais uma entrevista de Renato Portaluppi! Talvez ele ocupe com maestria esse lugar do homem que teve sua trajetória atravessada pelo currículo de masculinidade dos estádios de futebol (BANDEIRA, 2010). Renato foi interpelado por esse currículo de masculinidade, o corporifica e, ao mesmo tempo, dá razão aos argumentos que venho trazendo há quase uma década e meia de estudos sobre masculinidades nos estádios de futebol.

Renato, que dias depois propôs greve para que os jogadores não corressem o risco de serem infectados pelo COVID-19 e foi à praia, pediu desculpas antecipadamente, mas afirmou que seus jogadores não iniciariam nenhuma briga, mas que tampouco fugiriam delas porque seu time é um time de homens. Talvez seja justamente porque Renato tenha razão que o espaço para a militância sobre pluralidade de performatividade de gênero nos estádios de futebol seja tão importante. Nos diálogos com os torcedores a violência física quase sempre possui uma ou outra justificativa. A violência verbal é de tal forma naturalizada que ela recebe o nome de brincadeira. Violência ou brincadeira ela ensina, junto com o time de homens de Renato Portaluppi o que é adequado ou não na construção generificada masculina nesse espaço de tamanho protagonismo nas representações brasileira e sul-americana.

Jogadores do Grêmio fazem protesto e entram em campo usando máscaras. Foto: Lucas Uebel/Grêmio FBPA.

Espero que meu título seja um grande equívoco e que logo possamos voltar aos estádios (futebol com estádio vazio não conta). Como os jogos não são exclusivos aos jogadores seguiremos fazendo das arquibancadas e cadeiras esse lugar de disputas sobre éticas e estéticas, no meu caso procurando um estádio mais plural e democrático como uma pequena parte da luta cotidiana para vivermos em um mundo mais plural e democrático em que homens possam fazer o que quiserem, mesmo dizer não para enfrentamentos violentos. Que depois desse último jogo de todos os tempos possamos continuar jogando.

Referências

ALABARCES, Pablo; GARRIGA ZUCAL, José; MOREIRA, María Verónica. El “aguante” y las hinchadas argentinas: una relación violenta. In: Horizontes antropológicos. Porto Alegre, v. 14, n. 30, 2008, p. 113-136.

BANDEIRA, Gustavo Andrada. Um currículo de masculinidades nos estádios de futebolRevista Brasileira de Educação. Rio de Janeiro, v.15, n.44, p.342-351, 2010.

BANDEIRA, Gustavo Andrada; FRANZONI, Sabrina. Macho, Corajoso e Bravo: a construção de sentidos sobre o futebol campeão da América, pelo jornalismo esportivo no Rio Grande do SulÂncora – Revista Latino-americana de Jornalismo. João Pessoa, v. 29, n. 1, p. 132-146, 2017.

BECK, Matheus Passos. Schadenfreude: o enquadramento da rivalidade no agendamento da dor do outro. 2018. 163 f. Dissertação (Mestrado em Comunicação) – Faculdade de Comunicação Social, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2018.

DAMO, Arlei Sander. O ethos capitalista e o espírito das copas. In: GASTALDO, Édison Luis; GUEDES, Simoni Lahud. (Orgs.). Nações em campo: Copa do Mundo e identidade nacional. Niterói: Intertexto, 2006, p.39-72.

GARRIGA ZUCAL, José. Soy macho porque me la agüento: etnografia de las prácticas violentas y la conformación de identidades de género masculino. In: ALABARCES, Pablo (Org.). Hinchadas. Buenos Aires: Prometeo Libros, 2005, p. 39-58.


[1] Para uma discussão sobre a rivalidade no jornalismo esportivo, ver BECK, 2018.

[2] Disponível em: Youtube. Acesso em 8 de abril de 2020.

Como citar

BANDEIRA, Gustavo Andrada. O último jogo de todos os tempos. Ludopédio, São Paulo, v. 130, n. 21, 2020.