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O universo do futebol na região do Ruhr, em um conto de Max von der Grün

Elcio Loureiro Cornelsen

A região do Ruhr, na Alemanha, tornou-se famosa por suas minas de carvão e pela produção de aço. Embora o seu auge tenha passado, essa região representou por muito tempo um ambiente eminentemente proletário. E não é à toa que, no Ruhr, concentram se várias equipes de futebol de renome, entre elas, o FC Schalke 04 de Gelsenkirchen, além do arquirrival BV Borussia 1909, da cidade de Dortmund. Até hoje, o futebol é parte integrante e indissociável da cultura da região, tornando-se uma espécie de elo entre a modernização atual por que tem passado a região nas últimas décadas, e o seu passado, enquanto região de indústrias e de mineração.

Um dos principais textos da Literatura Alemã sobre esse universo do Ruhrpott (“Caldeirão do Ruhr”) associado ao universo do futebol é o conto “Der Betriebstrat” (1966; em português: Conselho de Empresa), do escritor Max von der Grün. O Conselho de Empresa é um órgão legal estabelecido enquanto um colegiado eleito pelos funcionários, e que representa os interesses dos empregados de uma empresa ou companhia frente aos interesses dos empregadores. Além disso, tal termo é empregado também para designar o representante eleito do Conselho de Empresa.[i]

Personagem central desse conto é, justamente, Brinkhoff, um representante do Conselho de Empresa que administra uma mina de carvão na região do Ruhr. Depois de ocorrido um acidente fatal com três trabalhadores no turno da noite, Brinkhoff recebe a difícil missão de notificar oficialmente a família de um dos mortos. Em princípio, o protagonista se embate com um aparente dilema: por um lado, ele tem de levar a triste notícia à família e, por outro, ele não quer perder tempo, pois é dia de jogo da Seleção Alemã, e ele não quer perder a partida por nada. Sua apreensão, como se fosse um monólogo interior, se repete ao longo do conto feito um bordão: “Será que o Uwe joga hoje?”[ii]

O leitor menos familiarizado com a história do futebol alemão logo se perguntaria: Mas quem é esse tal de Uwe? Todavia, para muitos leitores alemães e de outras partes do mundo, a associação com o nome de um craque seria automática: Uwe Seeler (1936*). Dos anos 1950 ao início dos anos 1970, esse jogador figurou entre os melhores atacantes da Alemanha. Participou dos mundiais de 1958, 1962, 1966 e 1970 e atuou em 72 partidas oficiais vestindo a camisa da Seleção Alemã, assinalando 43 gols. Sua trajetória se confunde com a história gloriosa de seu clube, o Hamburg Sport-Verein (HSV), da cidade de Hamburgo. Foi campeão alemão em 1960, e também da Copa da Alemanha em 1963, tornando-se o artilheiro daquela temporada com 30 gols em 30 jogos. Em 237 partidas atuando pelo HSV, marcou 137 gols.

Cópia de Foto Cornelsen - AOL Arena Hamburg

A AOL Arena – antigo Volksparkstadion em Hamburgo. Foto: Elcio Cornelsen.

Uwe Seeler era temido por seus adversários ao executar um lance em especial, dentro da área: a bicicleta, quase sempre fatal para o arqueiro. Mas Uwe Seeler não ficou conhecido apenas pela qualidade técnica muito superior à média dos outros jogadores, mas também por sua lisura e fairplay no modo de jogar, o que lhe tornou um ídolo do futebol. Além disso, foi presidente do HSV entre os anos de 1995 e 1998.[iii] E tal reconhecimento é patente quando os visitantes da AOL Arena – o Volksparkstadion – em Hamburgo se deparam, na frente do estádio, com um círculo no chão em que constam placas de bronze com o relevo de mãos de goleiros e de pés de jogadores ilustres do clube, e ao centro com uma grande escultura em bronze do pé de Uwe Seeler.

Cópia de Foto Cornelsen - Escultura do pe de Uwe Seeler

Escultura do pé de Uwe Seeler diante da AOL Arena em Hamburgo. Foto: Elcio Cornelsen.

Pois é justamente Uwe Seeler, no âmbito ficcional, que povoará a mente de Brinkhoff todo o tempo. Aliás, o narrador em terceira pessoa do singular se apresenta como onisciente, pois tem acesso aos pensamentos do protagonista. Assim é relatado o acidente: “A montanha dragou oito homens, cinco puderam ser resgatados em três horas, feridos, mas passando bem. O trabalho de resgate dos outros três homens levou horas. Finalmente, por volta das 11 horas da manhã, eles foram encontrados – mortos”.[iv] De modo lacônico, Brinkhoff revela certa banalização da morte de trabalhadores das minas, como se fossem “vítimas de sua profissão” (“Opfer seines Berufes”), e não das condições precárias das minas: “Na região do Ruhr, a gente se acostuma com notícias desse tipo, pois elas pertencem ao cotidiano, assim como a poeira”.[v] Mas algo pressionava o representante do Conselho de Empresa: o fato de a família Haugk, que deveria ser notificada, já ter perdido outros dois filhos: “Num espaço de três anos, dois filhos daquela família ficaram lá embaixo, e o último, um mineiro de vinte e um anos, estava agora no necrotério, atrás do vestiário”.[vi] Mas o que lhe atormentava, de início, era perder o jogo da Seleção: “Tanto faz, eu me ofereci para isso, mas não devo perder por nada o jogo de futebol, hoje à tarde, na TV”.[vii]

Todavia, ao chegar à casa dos Haugk, Brinkhoff hesita em dar a notícia ao pai do jovem morto, igualmente mineiro de profissão, aposentado por invalidez. Como uma espécie de desvio de pensamento, o representante do Conselho de Empresa, se mostra, reiteradamente, preocupado com o jogo, o que poderia ser tomado como indícios da indiferença de Brinkhoff diante do trágico acontecimento: “Sim, disse Brinkhoff, enquanto pensava no jogo, que começaria em uma hora e seria televisionado. […] Será que o Uwe joga hoje? […] Se nós continuarmos a dizer esses disparates, eu ainda vou perder o jogo da Seleção. […] Será que o Uwe joga hoje? […] Brinkhoff olhou para seu relógio. Se continuar assim, pensava ele, eu ainda vou perder o jogo. […] Se eu continuar a dizer esses disparates, eu ainda perderei o jogo”.[viii] Tudo isso acontece em virtude de Brinkhoff hesitar em dar a notícia. A conversa com o pai do morto se estende, e Brinkhoff vai se tornando cada vez mais impaciente: “No jornal constava que a escalação de Uwe para a partida ainda é duvidosa, pois o jogador teria sentido uma velha contusão, pensava Brinkhoff. […] Será que ele [i.e., o pai do morto], afinal, captou? Agora o jogo também vai começar. Será que o Uwe joga?”[ix] Até que aparece a mãe do jovem morto, e ela já sabia o que significava aquela visita do representante do Conselho de Empresa: “Então ela gritou: Não! NãoooNãoooNãooo! Isto não é verdade!”[x]

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Uwe Seeler, do Hamburgo, na final da Copa da Europa contra o Milan em 1968. Foto: Nationaal Archief / Fotocollectie Anefo.

Por fim, Brikhoff parece refletir sobre a situação constrangedora de trazer a notícia da morte do filho aos pais, e também de certa indiferença frente à morte de um operário numa sociedade altamente produtiva e consumista. Todavia, o futebol ainda ocupa-lhe a mente: “Meu deus, que gente é essa que fica sentada na frente da tela da TV acompanhando a bola. Que gente é essa, que assistem e assistem, e então gritam até ficarem roucos. E eu…?”[xi] E o conto se encerra com a última frase lapidar: “Será que o Uwe foi escalado?”[xii]

Cabe ressaltar que o escritor Max von der Grün (1926-2005) conheceu bem esse universo trabalhador da região do Ruhr. Não se trata, pois, de um escritor “de gabinete”, que conhece o trabalhador apenas como uma “abstração teórica”, muito comum no meio literário. Ao contrário, no pós-guerra, ele fez um curso de capacitação para atuar em minas de carvão, trabalhando por anos na mina Königsborn, na região da cidade de Unna. Por duas vezes, foi soterrado após desabamentos na mina, mas conseguiu ser resgatado. Mas um terceiro acidente, ocorrido em 1955, impossibilitou que Max von der Grün continuasse a trabalhar na extração de minério, passando então por um novo curso de capacitação para condutor de vagonetas de mineração. Foi, justamente, por essa época que começou a escrever e a se confrontar com as péssimas condições de trabalho no ramo de mineração.[xiii]

De certo modo, o conto de Max von der Grün é, por um lado, uma crítica à banalização da morte, às péssimas condições de trabalho em minas de carvão, e à sociedade de consumo, na qual as vidas dos trabalhadores parecem não ter valor. Por outro, o conto transmite também uma imagem negativa do futebol enquanto “ópio do povo”, ou seja, como instrumento que contribui para desviar a atenção dos torcedores das principais questões dentro do universo dos trabalhadores e da sociedade em geral.

[i] Disponível em: http://www.wortbedeutung.info/Betriebsrat/; acesso em: 05 abr. 2013.

[ii] Grün, Max von der. Der Betriebsrat – Aus der Welt der Arbeit. Almanach der Gruppe 61 und ihrer Gaste. Recklinghausen: Paulus, 1966, p. 28-32. No original em alemão:

Ob Uwe heute mitspielt. (Todas as traduções são de nossa autoria)

[iii] Cf. Kaufmann, Göz; Hollensteiner, Stephan. Uwe Seeler. In: Cornelsen, Elcio; Curi, Martin; Hollensteiner, Stephan (org.). Pequeno dicionário do futebol alemão e brasileiro. Rio de Janeiro: DAAD, 2013, p. 87-88.

[iv] Grün, Der Betriebsrat, p. 28. No original em alemão:

Acht Männer hatte das Gebirge eingeschlossen, fünf konnten nach drei Stunden geborgen werden, verletzt, aber sonst wohlauf. Die Bergungsarbeit für die andren drei Männer währte Stunden. Endlich, gegen elf Uhr mittags, wurden auch sie gefunden – tot.

[v] Grün, Der Betriebsrat, p. 28. No original em alemão:

Im Ruhrgebiet gewöhnt man sich an solche Meldungen, sie gehören, wie der Staub, zum Alltag.

[vi] Grün, Der Betriebsrat, p. 28. No original em alemão:

Zwei Söhne jener Familie waren in drei Jahren in der Grube geblieben, und der letzte, ein Knappe von einundzwanzig Jahren, lag nun in der Leichenhalle hinter der Waschkaue.

[vii] Grün, Der Betriebsrat, p. 28. No original em alemão:

Egal, ich habe mich nun mal gemeldet, aber ich darf auf keinen Fall das Fussballspiel heute Nachmittag am Fernsehschirm versäumen.

[viii] Grün, Der Betriebsrat, p. 29-30. No original em alemão:

Jaja, sagte Brinkhoff, und dachte an das in einer Stunde beginnende Fußballspiel am Fersehschirm. […] Ob der Uwe heute mitspielt? […] Wenn wir so weiterquasseln, versäume ich noch das Länderspiel. […] Ob der Uwe heute mitspielt? […] Brinkhoff sah auf seine Uhr. Wenn es so weiter geht, dachte er, versäume ich noch das Fussballspiel. […] Wenn ich so weiterquassle, versäume ich noch das Fussballspiel.

[ix] Grün, Der Betriebsrat, p. 31. No original em alemão:

In der Zeitung stand, daß Uwes Aufstellung für das Spiel noch fraglich ist, hat eine alte Verletzung zu spüren bekommen, dachte Brinkhoff. […] Ob er nun begriffen hat? Jetzt wird auch das Spiel anfangen. Ob der Uwe mitspielt?

[x] Grün, Der Betriebsrat, p. 31. No original em alemão:

Dann schrie sie: Nein! Neineinneinnein! Das ist nicht wahr!

[xi] Grün, Der Betriebsrat, p. 32. No original em alemão:

Mein Gott, was sind das für Menschen, sitzen vor dem Fernsehschirm und glotzen dem Ball nach. Was sind das nur für Menschen, gucken und gucken und schreien sich heiser. Und ich…? Ob der Uwe aufgestellt worden ist?

[xii] Grün, Der Betriebsrat, p. 32. No original em alemão:

Ob der Uwe aufgestellt worden ist?

[xiii] Max von der Grün – Biografie. Disponível em: http://www.maxvondergruen.de/gruen/gruen_max.htm; acesso em: 05 fev. 2016.

Como citar

CORNELSEN, Elcio Loureiro. O universo do futebol na região do Ruhr, em um conto de Max von der Grün. Ludopédio, São Paulo, v. 80, n. 6, 2016.