118.27

O var e a malandragem

Arlei Sander Damo

Depois de três anos a dupla GRENAL enfrentou-se pelo título do Gauchão, em dois jogos que fizeram jus à lenda de que se trata de um dos mais disputados derbies do planeta e, provavelmente, um dos piores de se assistir quando não se está diretamente engajado pelo pertencimento a uma ou outra agremiação.

A quantidade e a diversidade de intrigas dentro e fora de campo são tamanhas que quase não sobra tempo para jogar bola, razão pela qual o placar zerado depois de dois jogos ao melhor estilo encrenqueiro foi a celebração narcísica da própria identidade. No jogo derradeiro, houve de tudo um pouco, mas gols só nos tiros livres e ainda assim a duras penas – apenas 50% dos chutes foram convertidos.

D’Alessandro teve seu faniquito habitual; o VAR achou um pênalti em lance discreto; André chutou para defesa de Lomba, o goleiro colorado; e já nos tiros livres, André se redimiu e deu o título ao Grêmio, mas isto não teria sido possível sem três defesas de Paulo Vítor, uma delas espetacular, razão pela qual este foi o eleito pela crônica como herói da conquista.

A meu juízo o destaque foi Cortez, o lateral esquerdo que o Grêmio resgatou do ostracismo depois de um início de carreira promissor. No jogo de ida, no Beira Rio, ele se notabilizou por erros primários em lances capitais de ataque, irritando o técnico e a torcida. No jogo derradeiro ele se redimiu, a exatos 24 minutos do segundo tempo. Depois de receber um lançamento pela esquerda, o lateral investiu em diagonal em direção à área, disputando o lance com Guilherme Parede. Assim que eles entram na área Cortez desabou e a bola saiu pelos fundos. O Inter se preparava para uma reposição rápida e até o árbitro se voltou em direção ao meio de campo, quando foi notificado pelo áudio de possível irregularidade. Quase dez minutos depois veio a sentença: Parede havia agarrado o calção de Cortez.

Em ao menos uma das imagens, quando rodada em câmara lenta, o gesto é nítido. E como Cortez estava dentro da área não restou ao árbitro senão a marcação de pênalti. D’Alessandro se desesperou, assim como o técnico e os demais jogadores do Inter. Como Parede agarra e solta o calção de Cortez, fica a dúvida se o gesto teria sido suficiente para desequilibrar o jogador gremista. André desperdiçou o pênalti e o lance que poderia ter decidido o título para o Grêmio acabou relegado a segundo plano, pois o Inter perdeu, mas nos tiros livres, onde não houve, aparentemente, nenhuma irregularidade. Sendo assim, Paulo Vítor assumiu o protagonismo da final, que de outra parte teria ficado com a arbitragem, talvez com Cortez.

Goleiro do Internacional, Marcelo Lomba se prepara para defender o pênalti cobrado por André, do Grêmio. Foto: Ricardo Duarte/S. C. Internacional.

À diferença de Neymar, que fez vários fiascos na Copa por não simular adequadamente as faltas e agressões – a ponto das agressões e faltas parecerem simulações – Cortez ludibriou os vares. Quem mesmo? VAR é a sigla para Video Assistant Referee – Árbitro Assistente de Vídeo e, portanto, AAV, se VAR já não houvesse se popularizado entre nós. Ainda assim, VAR soa estranho, porque não é um árbitro de vídeo, mas dois ou mais e eles tomam decisões em conjunto com o árbitro de campo e, claro, mediados pelos equipamentos de vídeo.

Em certos casos, como no de Cortez, pode-se dizer que é a própria imagem quem agencia a decisão. Por esta razão, melhor seria invocar o plural, pois de fato o VAR é um múltiplo, logo, o correto seria chamá-los de vares. O plural se justificaria porque as decisões são tomadas por um emaranhado de humanos e máquinas ao melhor estilo ciborgue. Considerando-se o poder das decisões dessa entidade recém-chegada ao mundo do futebol, poder-se-ia chamá-lo também de avatar, pois de fato é uma espécie de deidade – da verdade e da justiça, supostamente. Como há muitos avatares povoando nossa cena pós-moderna, melhor é não confundir o do futebol, razão pela qual vou de var, mas em minúscula. Sendo um híbrido, pode-se usar o singular para o conjunto que atua em um jogo. Mas não nos esqueçamos: o var é um ciborgue.

Houaiss deve estar se revirando no túmulo; Nelson Rodrigues também, embora por motivos diferentes. Azar o deles, sorte a de Cortez. A bem da verdade, nem Cortez teve sorte, porque André desperdiçou o pênalti que ele cavou e sua cena quase se liquefez. À propósito, alguém já se perguntou porque dizemos “cavar um pênalti” – ou um escanteio, uma falta? Dizemos isso quando um jogador, mediante certas artimanhas não previstas nas regras, consegue uma vantagem a seu favor, com o consentimento da arbitragem, como se houvesse encontrado um tesouro. Só pode ser porque nossa imaginação concebe os tesouros como estando enterrados que ludibriar o árbitro é o mesmo que cavar. Neymar simulou agressões, mas não ludibriou os árbitros. Logo, cavou em vão; irritou os adversários e virou meme. Cortez simulou e ludibriou o var. Ele cavou uma fortuna, ou quase, porque André entregou o tesouro à Lomba.

A queda de Cortez está para o futebol assim como o beijo técnico está para as novelas. Não dá para dizer, mesmo revendo o lance, que o puxão determinou a queda. E se Cortez não tivesse caído, o pênalti teria sido igualmente marcado? Provavelmente não. Ao invés de desconfiar da honestidade da arbitragem todos os créditos devem ser à encenação, à técnica perfeitamente executada, de cair sem parecer ter se jogado. Cortez não dobrou os joelhos, uma técnica há muito utilizada por simuladores, que perdeu sua eficácia pelo uso abusivo. Como no beijo técnico, é preciso parecer um beijo verdadeiro. Foi só uma puxadinha no calção, bradava um comentarista de VAR indignado; isso não pode ser assim, vão acabar conspurcando o sistema.

Eu nada tenho a ver com o sistema, razão pela qual posso me dar ao luxo de achar que o var é um preciosismo desnecessário, porque distancia o futebol da vida, tão repleta de erros e injustiças. O var – esse ser triônico constituído de homens + máquinas = deus – nada mais é do que a realização da quintessência da cultura da auditoria, disseminada por toda a parte, com a ajuda de aplicativos. Há uma literatura extensa a este respeito, que associa esta modalidade de cultura a uma forma de governo tipicamente neoliberal. Eu não tiro a razão de quem pensar nesta direção, porque, de fato, essas práticas que agora se tornaram rotina – este é um dos trunfos do uberistas em relação aos taxistas; os primeiros deixando-se avaliar, para o deleite dos usuários – tem uma inspiração nas grandes agências que auditam a contabilidade de empresas cotizadas no mercado financeiro e qualificam o risco – ou tentam domesticá-lo.

O ato de julgar não é o mesmo que promover a justiça, pela simples razão de que sempre pode haver riscos de maus julgamentos. Por conta disso é que o direito moderno tende a considerar o réu, em princípio, inocente e, na dúvida, inimputável. As várias possibilidades de apelação são, ao menos em parte, resultantes desta concepção, de se evitar uma imputação injusta. Mas a justiça esportiva é idiossincrática e parte dela, a mais delicada, tem de ser exercida ad hoc. Sob certo aspecto, os árbitros – que outrora se chamavam juízes – mais se parecem à carrascos. Eles perscrutam, inquerem, julgam e executam cada ação – ou cada lance – um atrás do outro.

Até o advento da televisão eles reinavam soberanos ou quase. Na várzea, onde os árbitros raramente têm proteção equivalente àquela garantida pelo sistema FIFA, à exceção de algum amuleto ou por vezes de um trabuco, cada qual devendo zelar pela própria sorte. No futebol de espetáculo, a televisão e mais tarde o uso de computadores, como o tira-teima, expuseram os árbitros. Eles passaram a ser auditados pela crônica, pelos dirigentes, pelos torcedores, por ex-árbitros, enfim, a vida deles virou um inferno, todos metendo o bedelho nas suas decisões, acusando-os de incompetentes e não mais de desonestos, como outrora. Contestados eles sempre foram, mas sem esses instrumentos que vieram a reboque das novas tecnologias, ficava-se naquele bate-boca interminável.

Os árbitros eram safados, muito antes de serem incompetentes, e isso poderia até ser uma acusação bem-vinda, afinal safadeza é no mínimo ambíguo. As tecnologias de imagem acabaram com a ambiguidade – ou imaginam fazê-lo – e desnudaram não só a incompetência senão que a própria humanidade da arbitragem. Afinal, bastava um pé de diferença para condenar a atuação de um árbitro ou auxiliar. O var veio em socorro aos árbitros, porque ele faz uma auditagem no ato, não só da atuação dos árbitros – realizada a qualquer tempo – mas da ação dos jogadores.  

Há quem imaginasse que a malandragem seria banida do futebol, quando ela está passando por uma fase de reciclagem, requerendo novas técnicas ou, para usar um termo tão ao gosto da crônica esportiva, ela está se modernizando. É este o caso do lance de Cortez. Dobrar os joelhos ao tentar cavar uma falta agora é coisa de amador; mais ou menos como um malandro andar de navalha quando os tempos sugerem arma de fogo, hacqueamento de dados e outras estratégias do gênero. Aquele rolamento de Neymar depois de uma falta, tendo ela existido ou não, virou coisa de trapalhão. O var repaginou a malandragem. Cortez, quem diria, é melhor que Neymar, um performer decadente, ao menos neste quesito.

Como citar

DAMO, Arlei Sander. O var e a malandragem. Ludopédio, São Paulo, v. 118, n. 27, 2019.