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O VAR é burro

Gabriel Said

O árbitro de vídeo, ou VAR (Video Assistant Referee) teve um começo meteórico de existência, apareceu ao mundo em um jogo profissional de divisão de topo pela primeira vez no dia 7 de abril de 2017, em uma partida válida pela A-League entre Melbourne City e Adelaide United. O jogo, porém, não usou o VAR. O primeiro uso do árbitro de vídeo foi no dia seguinte na Nova Zelândia quando o Wellington Phoenix (clube neozelandês que participa como convidado da A-League) recebia o Sydney FC e os australianos tiveram um pênalti marcado depois que as imagens detectaram um toque de mão dentro da área do Phoenix.

O VAR teve um crescimento espantoso até chegar à Copa do Mundo na Rússia em 2018, foi adotado na Austrália, Estados Unidos, Alemanha, competições menores da FIFA, etc. O argumento era dos melhores; iria acabar com erros de arbitragem e trazer justiça para o futebol. Mas até melhor das intenções para mudar o mundo está fadada ao fracasso sem uma interpretação apropriada dele. Agora em 2019 a lua de mel do VAR com os fãs de futebol parece ter chegado ao fim e as críticas e reclamações começam a se acumular, o discurso de que os erros acabariam já estão reconhecendo que eles continuarão acontecendo e os mais idealistas culpam as pessoas pelo mau uso do VAR.

Talvez se tenha esquecido que o futebol é feito por pessoas. Aí vale resgatar brevemente nas Teses Sobre Feuerbach, de Karl Marx quando este critica o materialismo por esquecer que as circunstâncias são transformadas pelos seres humanos, e critica o idealismo por esquecer que o próprio educador tem também que ser ele próprio educado. Teoria e prática devem estar interligadas, isso é a práxis. Se as pessoas fazem parte da natureza do futebol elas não são o problema do funcionamento de uma ideia, o problema está justamente na concepção dessa ideia. Se os árbitros não estavam preparados para essas mudanças grandes de regras por quê a pressa para implantar o VAR?

Os problemas do árbitro de vídeo, porém, não param aqui. Retomarei o discurso moralista que valida o seu uso com o argumento de que traz justiça para o futebol. Antes de tudo deveriam ser feitos questionamentos a partir de tal afirmação. Que justiça é essa? A custo de quê? Vale a pena? Poderíamos ir até mais adiante e perguntar se o futebol deve mesmo ser justo, ou se ele já não tem sua própria justiça sendo feita dentro do seu próprio universo dentro de campo.

Se perguntar para qualquer pessoa o que pensa sobre erros de arbitragem a resposta seria contrária aos erros. É como perguntar se alguém é a favor ou contra a corrupção. É problemático aceitar fazer qualquer coisa em nome da justiça. O VAR vestiu a capa da moralidade no futebol como algo que não pode ser questionado pois os lances revistos pelas imagens geradas costumam mesmo indicar alguma coisa não vista pelo árbitro em campo, mas eu lembro de uma frase de Nelson Rodrigues: “O videoteipe é burro”.

“O espetáculo apresenta-se como algo grandioso, positivo, indiscutível e inacessível. Sua única mensagem é ‘o que aparece é bom, o que é bom aparece’. A atitude que ele exige por princípio é aquela aceitação passiva que, na verdade, ele já obteve na medida em que aparece sem réplica, pelo seu monopólio da aparência.” – Guy Debord, em Sociedade do Espetáculo

O futebol hoje é um espetáculo, não mais apenas um jogo. Esse dualismo aumenta suas contradições conforme a espetacularização cresce. Enquanto um jogo pode ser entendido pelas palavras de Johan Huizinga como algo significante (o sentido se encerra em si mesmo), incapaz de ser compreendido pela antítese do verdadeiro e falso, do bem e do mal pois mesmo sendo uma atividade não material, “não desempenha uma função moral, sendo impossível aplicar-lhe as noções de vício e virtude”. O espetáculo é a própria relação social mediatizada por imagens, é resultado e fim do modo de produção da sociedade. Mais do que um recurso ou ferramenta, Debord diz que é a “afirmação onipresente da escolha já feita na produção, e no seu corolário – o consumo”.

A partida de futebol transmitido pela televisão não é o mesmo que o assistido nas arquibancadas, apesar das diferenças estarem diminuindo com a invasão da TV no jogo e nas construções de estádios-estúdio. O jogo se transforma cada vez mais em imagens, em representações da realidade. Não há o interesse em transmitir um jogo de futebol, o esporte é um produto, um meio de gerar muito dinheiro e não precisa ser um jogo no seu entendimento mais puro, basta ser uma atrativa representação comercial desse jogo. A inserção da lógica mercadológica em todas esferas do futebol é no fim, a potência motriz do futebol profissional, hoje vivendo o que Richard Giulianotti chama de hipercomodificação.

Árbitro verifica lance na final da Copa do Brasil. Foto: CBF TV/Reprodução.

O árbitro de vídeo está aumentando o número de pênaltis e consequentemente os gols. Até a Copa da Rússia o antigo recorde de pênaltis em uma edição de Copa era de 18 pênaltis em 2002, mas foi superado com folga: 29, sendo 11 deles marcados após revisão do VAR. Se o gol é o orgasmo do futebol, parece ter encontrado um bom estimulante. A espetacularização que reduziu o tamanho dos campos para gerar imagens melhores na transmissão e em comerciais pode ter provocado uma diminuição do número de gols e o VAR aparece como uma forma bem agradável de subir os gols com o bônus da tensão de uma batida de pênalti.

O outro lado da moeda são os gols anulados, aqueles gols em que só com algumas repetições do videoteipe consegue perceber que algum jogador estava 2 centímetros à frente. Nesses lances, como houve recentemente em partida entre Manchester City e Tottenham pela Liga dos Campeões com um gol apoteótico de Sterling no final do jogo, mas que foi anulado após revisão e foi visto que Agüero estava com o ombro adiantado. Não tem como negar que aquele gol aconteceu, a torcida de Manchester e os jogadores celebravam a classificação enquanto os londrinos sabiam que era o fim e seus jogadores já estavam caídos no gramado lamentando a eliminação. Se o impedimento é marcado pelos árbitros de campo – movidos por interpretações feitas no momento – não haveria o rompimento com a realidade como acontece quando o gol é reanalisado após o gozo coletivo. O gol se torna um acontecimento traumático pois mesmo comemorado pode ser anulado a qualquer momento. A brincadeira de Luiz Antonio Simas sobre isso e o pessimismo dos botafoguenses se mostra coberta de razão:

O futebol como qualquer fenômeno social tem erros. Obviamente não será feita aqui uma apologia a erros e/ou manipulações de resultados, mas sim uma crítica à maneira como a tal da justiça está trabalhando na partida de futebol. Quando algo agrada a todos é porque é um fenômeno ideológico puro, o quê poupou o VAR de ser questionado desde o princípio. Seus métodos espetaculosos remetem às práticas das operações Mãos Limpas e Lava Jato na Itália e Brasil, respectivamente.  

Em junho de 2018 no programa Diálogos com Mario Sergio Conti o professor Marcos Alvito disse: “Um jogo verdadeiro de futebol é uma coisa que acontece no presente, em um determinado momento. Ele é quente, é uma coisa quente e como qualquer coisa quente, às vezes ela é errada, às vezes ela é tragicamente errada, mas ela é verdadeira. É viva”. Com esse entendimento sobre o jogo entendemos o porquê do videoteipe ser burro, pois enquanto o jogo é quente, o replay é frio. Sua tentativa de compreender o jogo está errada no nível mais profundo uma vez que ambos têm valores morais incompatíveis.

A dúvida se vale a pena perder a emoção em troca de mais justiça – por mais equivocada que possa ser uma vez que a própria justiça é passível de questionamentos – deve ser respondida pelos torcedores. Pelas autoridades ela já está respondida, e a resposta é “o que der mais lucro”. Quem não ganha nada com futebol mas dá ao jogo o que tem e o que é está em uma situação como a dialética do senhor e do escravo, de Hegel: O futebol não precisa de árbitro de vídeo assim como o escravo não precisa do senhor, mas vão nos convencer de que sim.