132.50

O orgulho de Obama e Eto’o

Diego Barcala

O pintor Kehinde Wiley viu a sua popularidade disparar quando foi eleito pelo presidente dos EUA para fazer o seu retrato oficial, mas o futebol africano já o conhecia uma década antes.

 

Quando Kehinde Wiley começou, há 20 anos, a buscar modelos negros para as ruas de Los Angeles para pintar quadros clássicos não sabia que esse homenagem aos negros, aos desaparecidos pela sociedade, já fazia de certo modo o futebol. “Os negros eram muito pequenos neste mundo”, explicava o reconhecido pintor americano sobre o seu trabalho.

Wiley pintava os negros montados em cavalos de Napoleão e os vestiam de reis e princesas clássicos. Seu estilo o fez ganhar fama mundial para além de Los Angeles, até ser comparado com Andy Warhol. A crítica elogiosa o fez ser requisitado de maneira exponencial. Assim foi como as marcas começaram a fazer encomendas até chegar a Copa do Mundo de 2010 na África do Sul. A Puma viu em suas telas o local ideal para suas estrelas africanas parecerem heróis.

Wiley, um gay de Los Angeles com mestrado em Yale, era completamente alheio ao significado do futebol. Mas conhecia com perfeição o orgulho africano devido as suas origens quenianas. “Desconhecia este fenômeno global quando me chamaram em 2008”, reconheceu em uma entrevista para a marca alemã.

O pedido era simples, pintar as estrelas de Senegal, Nigéria e Camarões como estrelas do pan-africanismo, com apenas uma indumentária da Puma que reunia os valores e cores dos três países. Um continente com 53 estados e 1.000 idiomas como linguagem em comum, o futebol.

Assim foi como Wiley conheceu Samuel Eto’o. E descreveu com três adjetivos: “Interessante, curioso e humilde”. Mas em seu retrato o que prevalece é o seu orgulho. Em uma tela de 1,80m x 1,50m o camaronês tem um olhar desafiante, com o queixo para cima e um olhar de cima para baixo.

Impossível esquecer a explosiva coletiva de imprensa do ex-jogador cobrando treinadores, torcedores e jornalistas. Quatro anos antes de posar para Wiley, Eto’o tinha pronunciado a sua frase más célebre, em sua apresentação como jogador do FC Barcelona: “Prometo correr como um negro, para viver como um branco”.

Samuel Eto’o – Óleo sobre tema assinado em 2010 com o nome do próprio retratado. Arte: Kehinde Wiley.

 

Com essa curiosa lucidez intelectual de algumas superestrelas do esporte, Eto’o foi um autêntico líder para os negros. Lutou contra o racismo em cada um dos campos onde foi insultado. Foi um dos primeiros a pedir o cancelamento de uma partida por racismo e explicou sem descanso as ofensas sofridas. Eto’o nasceu para ser um dos negros rebeldes de Wiley. Condenado a serem conhecidos.

Uma década depois de retratar o seu orgulho de futebolista, Wiley recebeu pedido de sua vida. Esta chegou da Casa Branca. Barack Obama o designou como o seu retratista e se tornou o primeiro pintor negro a ser retratista de um presidente americano. Obama aparece sem gravata, sentado em uma cadeira elegante rodeado de uma frondosa flora, absolutamente características de Wiley, com braços cruzados e um olhar determinado na altura do espectador. Não como o Eto’o, e nem como os seus avós de duas década

Obama por Kehinde Wiley.

 

Tradução: Victor de Leonardo Figols