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A ocupação corinthiana, 05 de dezembro de 1976

Plínio Labriola Negreiros

Tenho décadas de torcedor corinthiano, assim como torcedor de futebol em geral. Na minha experiência, vale destacar, são coisas bem diferentes. A minha memória guarda lances, gols, partidas, manifestações de torcida, conquistas improváveis, insucessos tristes. Desse arsenal, nunca tive qualquer dúvida sobre o evento que me fez mergulhar, em definitivo, na corinthianidade: vivenciar o processo que resultou na imensa ida de torcedores do Corinthians ao Rio de Janeiro com o intuito de apoiar o time em uma partida eliminatória.

O ano de 1975 adquiriu um status inédito como torcedor porque comecei a ir sozinho, ou com amigos, aos jogos do Corinthians. No ano seguinte, em um sábado de Carnaval, no distante (eu morava no Bom Retiro), frio e vazio Morumbi, vi um jogo, pela primeira vez, sozinho. Ganhamos de 3 a 0 do América de São José do Rio Preto, que na época tinha montava boas equipes. Nesse dia, já que era festa do Momo, levei serpentina para receber o time entrando em campo.

Essa lembrança merece uma rápida digressão: minhas idas aos estádios nos anos 1970 eram marcadas por um momento muito emocionante: a entrada do Corinthians em campo. A expectativa era muito grande, em meio à preparação dos fogos, das bandeiras e dos papeis picados. Era fundamental receber o time com muita festa. Tornava-se essencial superar a torcida adversária. Hoje, vejo com tristeza a ausência dessa festa. Nada mais desinteressante do que os árbitros e os adversários adentrando juntos ao gramado. Nada mais sem sentido do que clássico com torcida única.

Portanto, no momento em que era forjado, e me forjava, como torcedor do Corinthians, veio o rápido processo, que permitiu a grande ida de torcedores de São Paulo, mas não exclusivamente, ao Rio de Janeiro. Como, por uma série de questões, não fui à antiga capital brasileira, sempre senti vontade de compreender tal processo. Muitos anos depois, por meio dos periódicos, paulistas e cariocas, tentei ler esse processo e fiz algumas descobertas.

Uma multidão para ver o Corinthians

Em dezembro de 1976, com o intuito de presenciar a partida entre Corinthians e Fluminense, ocorreu o maior deslocamento de torcedores de futebol que se conhece na história do Brasil: por volta de 70 mil. A maior parte desses torcedores percorreu, das mais variadas formas, os 400 km que separam a cidade de São Paulo e a antiga capital do Brasil, Rio de Janeiro. Emerge dessa partida e da presença dos corinthianos no Rio de Janeiro os mais diversos aspectos de um país sob uma ditadura militar, assim como emerge uma cidade como São Paulo, palco de um fervor cívico-esportivo poucas vezes visto. E o Rio de Janeiro, uma “cidade invadida”. Ou seria uma “cidade ocupada”?

Entre os torcedores de futebol, parece regra, a memória de uma grande partida, com a lembrança das grandes epopeias. Tem valor especial quando o limite se impõe: conquista no último minuto, no último segundo, e, talvez, a um passo da linha de fundo. São as vitórias sendo comemoradas. São times vencedores. A alegria do torcedor depende, em regra, do que a sua equipe foi capaz de fazer. Uma derrota humilhante é capaz de levá-lo à depressão; a euforia pode ser o imediato efeito de uma vitória retumbante, não poucas vezes tratada como histórica. O prazer do torcedor não parece estar nele. O sucesso da sua equipe ou, assim como o fracasso dos adversários, tornaram-se os únicos referencias para júbilo.

Já os torcedores mais contemporâneos mostram-se percorrendo caminhos inéditos: sentem-se personagens tão importantes quanto os jogadores e outros setores ligados ao futebol. É como se fosse possível a existência autônoma das torcidas. É como se a torcida também tivesse uma história mais fascinante que a do próprio clube. De certa maneira, a torcida do Sport Club Corinthians Paulista, com algum destaque para as suas torcidas organizadas, permite isso.

É possível olhar, assim, para um importante evento da história do futebol brasileiro, senão mundial. Muito mais do que um evento que ligado ao jogo de futebol em si e aos seus torcedores, trata-se de um evento que tem forte ligação com um contexto histórico: uma multidão de torcedores, principalmente de São Paulo, faz do Rio de Janeiro uma cidade “ocupada”: é a Invasão Corinthiana ou Invasão do Maracanã. São torcedores quem não comemoravam um título importante há 22 anos, injetados numa cidade cada vez mais desumanizada, inserida em um contexto de regime autoritário, que apesar das promessas e ensaios de volta à democracia, continuava a aplicar o AI-5. Desse caldo, São Paulo, senão o Brasil, torce pela liberdade também por meio das cores alvinegras do Corinthians.

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Imagem do filme 1976 – O ano da invasão Corinthiana. Foto: Divulgação.

22 anos sem títulos

O fenômeno corinthiano de dezembro de 1976 exige do pesquisador um olhar especial sobre a história do Corinthians e da sua torcida, em especial, na década anterior à Invasão. Para os corinthianos o ano de 1968 é muito especial: no mês de março uma grande festa pela “quebra do tabu” contra o Santos. Desde 1957, o Corinthians não vencia a equipe de Pelé pelo Campeonato Paulista. Foram 22 partidas seguidas sem vitória. Sem um título importante desde 1954, era essencial vencer ao Santos e acabar com tal tabu. Em 6 de março, em uma noite de quarta-feira, com o placar de 2 a 0, o Corinthians quebrou o tabu que tanto o incomodava. Na noite quente de verão, no estádio do Pacaembu, muita festa entre os corinthianos; festa de campeão. E a semana terminava com outra grande emoção: no domingo a tarde, uma vitória sobre o principal rival, o Palmeiras, numa virada conquistada nos últimos minutos da partida, 2 a 1 para o Corinthians. Após esse início arrasador, o rendimento do time cai e o título ficou para o Santos. O alvinegro do Parque São Jorge tornou-se vice-campeão, mas com uma pontuação bem mais modesta que a do campeão.

No ano seguinte, 1969, uma tragédia: dois jogadores titulares morrem em um acidente de automóvel. O time, que ia bem no Campeonato Paulista até o evento, perde fôlego e mais uma vez acaba sem o título. “Cerca de 30 mil pessoas — operários com suas marmitas, moças, senhoras, rapazes, homens de negócios, velhos torcedores, velhos adversários, garotos de todos os bairros — uniram-se na dolorosa peregrinação pela ala central do Parque São Jorge, para ver — por breves segundos — os corpos inertes de Lidu e Eduardo”, conta Nailson Gondim em obra sobre o Corinthians.

Ainda nesse ano, outra tristeza: o Corinthians quase venceu a Taça de Prata, uma espécie de campeonato brasileiro. Era mais um ano sem títulos.

No ano seguinte veio a Copa do Mundo de 70. Um momento especial para o futebol do Brasil, pois a taça Jules Rimet era definitivamente conquistada. Na equipe nacional, dois representantes corinthianos: o titular Roberto Rivellino — com uma participação muito importante — e o reserva Ado, goleiro. Rivellino, campeão do mundo, mas que continuava sem ser campeão pelo Corinthians.

Em 1971, o clube do Parque São Jorge conquistou um título menor: Torneio do Povo, que reunia as equipes mais populares do país. Novos fracassos nas disputas mais importantes. Porém, uma única partida talvez tenha mantido a alegria corinthiana nesse 1971: Corinthians 4 a 3, contra o arquirrival Palmeiras. E de virada.

No ano seguinte, duas grandes emoções, mas que não resultaram em título: depois de outra campanha medíocre no Campeonato Paulista, o time quase chegou à final do Campeonato Brasileiro. Nem a vitória era necessária, mas nem isso foi possível: derrota para o Botafogo no Maracanã, 2 a 1, e mais um título perdido. E, dias antes, uma partida especial: vitória de 1 a 0 contra o Ceará, com um gol estranho no último minuto da peleja. Festa para os 70 mil torcedores presentes no Pacaembu. Há relatos de que o estádio balançou naquela noite.

No ano seguinte, 1973, algumas emoções e a reprodução de resultados frágeis no Campeonato Paulista e no Campeonato Brasileiro. Uma pequena emoção: no sábado de Carnaval, 2 a 1 sobre o Palmeiras, em outra virada, e a conquista da Taça Laudo Natel, quase um torneio início.

Emoções fortes estavam reservadas para 1974: quase veio o título de campeão paulista. Depois de se tornar campeão do primeiro turno — o que dava o direito de disputar a final do campeonato com o campeão do segundo turno —, o Corinthians perde a decisão final para o arquirrival Palmeiras. “E a saída do estádio mais parecia um macabro cortejo fúnebre. O silêncio só era cortado pelo som abafado, surdo, impressionante de 200 mil solas de sapato arrastando pelo chão”, narra Juca Kfouri, no seu apaixonado A emoção Corinthians.

O time perdeu por 1 a 0 e o maior jogador do clube acabou responsabilizado pela derrota e praticamente expulso do clube que defendeu por 10 anos. Com a saída de Roberto Rivellino, o time passa por uma grande reformulação e 1975 passa sem maiores emoções.

No primeiro semestre de 1976 tudo parecia continuar igual: mais uma vez o time fracassa no Campeonato Paulista, depois de um começo fulminante. Mesmo sem grandes adversários pela frente, uma péssima colocação. Completava-se 22 anos ganhar um título importante. Um outro ano de frustação e uma torcida cada vez mais impaciente, que vaiava a equipe, chegando a pedir a saída do presidente Vicente Matheus.

O avolumar dessa crise teve, como seus desdobramentos, mais protestos dos torcedores e a troca de técnico. Para o segundo semestre, no qual o Campeonato Brasileiro seria disputado, haveria um técnico novo (Duque, que inclusive começou a trabalhar ainda no Campeonato Paulista). Porém, nada indicava que um grande fenômeno esportivo estaria por vir.

Campeonato Nacional de 1976

Na realidade, a participação corinthiana no Campeonato Brasileiro de 1976 apontava para a reprodução de outros momentos: inícios bons, mas com resultados finais sempre aquém do esperado. Além disso, tratava-se de um campeonato marcado pela confusão no regulamento, com a presença de 54 equipes.

Na primeira fase, o Corinthians ficou no grupo C e obteve a melhor colocação. Assim foi qualificado para disputar o grupo H. Nessa segunda fase, o desempenho corinthiano não foi tão bom quanto na fase anterior e a classificação para a terceira fase só veio na última rodada e o Corinthians obteve a última das três vagas disponíveis. Na terceira fase, o time participou do grupo Q, composto por nove equipes, em que todos jogariam contra todos e apenas os dois primeiros colocados estariam classificados para as semifinais do campeonato.

Depois de um início marcado por três resultados frágeis (dois empates e uma derrota), apesar do apoio maciço dos seus torcedores, um forte limite apresentava-se para o Corinthians: teria que vencer as cinco partidas restantes para chegar às partidas finais. Se possível, vitórias por mais de um gol de diferença, para a conquista de três pontos, conforme regra do campeonato. Com histórias diferentes, mas sempre marcadas por uma forte emoção e uma grande participação dos corinthianos, as cinco vitórias foram conquistas: Botafogo de Ribeirão Preto, 2 a 1; Caxias, 4 a 1; Ponte Preta, 2 a 0, com o segundo gol feito aos 49 minutos do segundo tempo; Internacional, 2 a 1 e Santa Cruz, 2 a 1.

Destas partidas, especialmente na partida contra a Ponte Preta – estádio do Pacaembu, quinta-feira à noite, com 50 mil corinthianos – mais do que o time, um divisor de águas, porque a torcida aparecia como personagem fundamental, conforme podia ser lido no Jornal da Tarde, do dia seguinte, 19 de novembro:

— A verdade é que o nosso time ficou impressionado com esta torcida, com tanta gritaria. Ninguém sabia mais o que fazer em campo. Mas isso é normal em uma equipe nova como a nossa. [depoimento do técnico da Ponte Preta, Armando Renganeschi.]

— Não dava nem para a gente se concentrar direito. A torcida ganhou o jogo para o Corinthians. Não fui culpado em nenhum dos dois gols, tenho certeza disso. Mas só mesmo o Corinthians poderia fazer dois gols destes em mim. Outra equipe, sem barulho da torcida, a bola não entrava. [depoimento do goleiro da Ponte Preta, Moacir]

Também aparecia um outro tipo de torcedor, ainda segundo o mesmo periódico, bem diferente daqueles que estavam acostumados a acompanhar o Corinthians em todos os seus momentos, e que sofriam com as decepções que as campanhas do time geravam.

Paulo Egydio esteve ali, à sua frente, trazido por Mário Campos. Neca recebeu os cumprimentos naturalmente, bateu-lhe no ombro timidamente, mas nem sabia que estava falando como governador.

— Puxa, esse cara é o governador? Eu nem sabia. Também, ninguém me avisou, oras.

E enquanto o governador cumprimentava todos os jogadores, um por um, a festa continuava no vestiário do Corinthians.

Além da boa campanha corinthiana e da agora possível classificação, a imprensa não cansava de repercutir a força, o tamanho e a paixão da torcida corinthiana. Esta era colocada como capaz de grandes façanhas, como a de sempre quebrar recordes de renda e de público. Capaz dos mais fantásticos atos de amor; era uma torcida diferente. E, por muitas vezes, relacionava-se tamanha dedicação ao fato do Corinthians estar a tantos anos sem conquistar um título importante. O apelido da torcida era reforçado: Fiel.

Três dias após a vitória contra a Ponte Preta, com as chances de classificação mais plausíveis, uma nova emocionante partida: no estádio do Morumbi, 113 mil torcedores torcem e veem outra vitória: 2 a 1 contra o Internacional. O time estava muito próximo das semifinais do campeonato de 1976. Na última rodada da terceira fase, o Corinthians enfrentaria o Santa Cruz na capital pernambucana. Faltava pouco para a classificação corinthiana.

Daí dois importantes periódicos de São Paulo dedicaram esforços dobrados para acompanhar os torcedores corinthianos na viagem para o Recife: no dia 29 de novembro, o Jornal da Tarde, no seu caderno especial dedicado aos esportes publicado sempre às segundas-feiras, apresentava uma grande reportagem: 2.830 KM CORINTIANOS – Foram 49 horas de uma viagem emocionante, a mais longa excursão de uma torcida de futebol, (O texto é do repórter Marco Antonio Rodrigues, que acompanhou e viveu as apreensões, tristezas e alegrias desses fiéis torcedores). Os jornalistas acompanharam a caravana da torcida organizada Camisa 12. A Folha de S. Paulo, no mesmo dia, que acompanhou a caravana da Gaviões da Fiel, também faz uma longa matéria. Aliás, uma matéria especial, publicada no caderno de cultura – Folha Ilustrada – e não no dedicado aos esportes.

Entre muitas histórias de torcedores, algumas se mostravam especiais, como as narradas na obra de Igor Ojeda e Tatiana Merlino, A Invasão Corinthiana: o dia que a Fiel tomou o Rio de Janeiro para ver seu time no maior estádio do mundo:

Sidnei de Antônio Jesus era um garoto independente. Aos treze anos morava com os pais em Mogi das Cruzes, em São Paulo, mas já ganhava o seu próprio dinheiro, trabalhando como office-boy de contabilidade da cidade.

(…)

No último jogo da terceira fase do torneio (…), o Corinthians jogaria contra o Santa Cruz no Recife. O jovem office-boy não conseguiu se segurar. Na sexta-feira anterior, sem avisar a família, e aproveitando que estava de férias do trabalho, decidiu ir ao Pernambuco com a Gaviões da Fiel acompanhar o seu time do coração. Estava certo que se contasse à mãe, ela não o deixaria viajar.

No domingo, seus pais já estavam desesperados com o sumiço do filho. Perguntaram aos colegas de trabalho, telefonaram aos amigos, e nada. À tarde, a surpresa: durante a transmissão da partida do Recife, a câmera focalizava a torcida corinthiana quando surgiu, no meio da multidão, a imagem de Sidnei.

A torcida corinthiana e as suas duas principais torcidas organizadas ganhavam uma visibilidade especial. Vale lembrar que a torcida Gaviões da Fiel nasceu em 1969 com o intuito de apoiar o time nos estádios, mas também para combater desmandos e continuísmo no clube. Um grupo de fundadores da Gaviões a abandona e funda a Camisa 12. Esse processo resultou numa rivalidade forte e duradoura entre essas torcidas.

A viagem dos torcedores corinthianos para acompanhar a classificação da equipe para as finais do Campeonato Nacional de 1976, após a vitória contra o Santa Cruz por 2 a 1, narrada pela imprensa como uma verdadeira epopeia, teria como desdobramento natural a maciça presença de corinthianos no Rio de Janeiro. Pode ser que os diversos personagens envolvidos nesse processo não tivessem uma ideia exata da forte presença de torcedores de São Paulo em apoio ao time alvinegro, nem que a essa caravana tomasse sentidos de unir os paulistas em uma guerra menos contra os cariocas e o Fluminense e mais a favor do Corinthians. Depois de algumas décadas, São Paulo voltava a se unir. Tinha sido assim em 1932, na luta contra Vargas. Aliás, como se pode perceber, também nesse evento, a imprensa teve um papel preponderante.

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Imagem do filme 1976: o ano da invasão corinthiana.

A Invasão/Ocupação Corinthiana

Cinco de dezembro de 1976: para os corinthianos essa data está na memória menos por causa de uma vitória conquistada na disputa por pênaltis e mais pela forte presença de torcedores do clube paulista em terras cariocas: é a chamada Invasão do Maracanã ou Invasão Corinthiana, evento que se coloca no complicado limiar entre memória e história.

Trata-se de um imenso deslocamento de torcedores, basicamente entre as cidades de São Paulo e do Rio de Janeiro. Nesta cidade, 70 mil corinthianos assistem – mas também torcedores de outras equipes de São Paulo e do Rio de Janeiro –, no estádio do Maracanã, a partida entre o Fluminense Futebol Clube e o Sport Club Corinthians Paulista, partida única válida pelas semifinais do Campeonato Brasileiro de 1976, em um público apresentado de 146 mil pessoas. Na história do futebol do Brasil não se conhece outro evento esportivo com tamanho deslocamento humano. Também do futebol mundial não foi registrado um evento desse tamanho, ao menos em termos absolutos. Mas há exemplos de outros grandes deslocamentos de torcedores. Em 1951, ocorreu a Copa Rio, com a participação de um clube paulista, a Sociedade Esportiva Palmeiras. Na partida decisiva, contra a equipe italiana da Juventus, há um grande deslocamento de torcedores paulistas para o Rio: talvez 40 mil torcedores de São Paulo. Ou mesmo, outro evento ligado ao Corinthians: entre 10 e 20 mil corinthianos acompanham o time no campeonato de clubes da Fifa, realizado em dezembro de 2012, no Japão.

Enquanto os torcedores do Corinthians que foram ao Recife de ônibus começavam a chegar a São Paulo depois de uma longa, cansativa e custosa viagem, os corinthianos da cidade, do estado e de inúmeras regiões do país, já organizavam a viagem para o Rio de Janeiro, a imprensa – a partir dos seus interesses privados – continuava alimentando o clima de euforia. Em publicidade presente no Jornal da Tarde, na terça-feira, 30 de novembro, temos:

E o Departamento de Jornalismo da Jovem Pan acompanhará, minuto a minuto, o movimento corintiano para a hora do grito final, para a explosão que São Paulo espera ouvir desde 1955. Durante esta semana, em toda nossa programação, especialmente no Jornal da Manhã, na segunda edição do Jornal da Integração Nacional e na Hora da Verdade, estaremos contando a história da Religião Corinthians. Uma religião que os historiadores já estão registrando em suas pesquisas.

É interessante notar a promessa da rádio Jovem Pan: dedicar toda a sua programação daquela semana para o Corinthians. As conquistas da equipe corinthiana e as fantásticas manifestações da sua torcida, seriam as referências para os paulistanos naqueles dias. Aliás, não uma referência qualquer, mas a de uma religião, a Religião Corinthians. Nota-se ainda que a rádio vinculou todos os paulistas ao “projeto Corinthians”. Não eram apenas os corinthianos que desejam a explosão por uma vitória esperada há muito tempo, mas toda São Paulo. A imprensa radiofônica prometia que a cidade respiraria apenas Corinthians. A promessa concretizou-se.

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Imagem do filme 1976 – O ano da invasão Corinthiana. Foto: Divulgação.

Os paulistas estão chegando

O fascínio demonstrado pela imprensa paulista associava-se à perplexidade dos cariocas. O que seria a invasão? O que era a torcida do Corinthians? Mas, paulista sabia fazer festa? Eram indagações indiretas que apareciam nas preocupações da imprensa carioca em compreender o que estava acontecendo.

Apesar da Ponte Aérea, paulistanos e cariocas tinham, aparentemente, universos distantes. Ainda havia forte a ideia da descontração carioca por causa das praias e da cidade como um todo e São Paulo como um espaço essencialmente relacionado ao trabalho. Se o paulista trabalha, carioca desfruta dos prazeres da vida.

Assim, quando as notícias sobre as movimentações da torcida do Corinthians começam a chegar ao Rio, as primeiras impressões começam a ser delineadas. Tratava-se de uma dupla descoberta: paulistas conhecendo os cariocas e vice-versa. E a consciência de uma grande presença corinthiana no Rio apareceu rapidamente nas páginas do carioca Jornal do Brasil:

O chefe da torcida, Tantã, afirma que a previsão inclui a ida de 500 ônibus e 20 aviões fretados, além de automóveis e caminhões, somando um total de 50 mil pessoas que pretendem ocupar os melhores lugares do Maracanã, desde cedo, antes da chegada dos torcedores do Fluminense. Mas a euforia dos corinthianos — que há 22 anos não veem seu time ganhar um título expressivo — se choca com a realidade, pois seriam necessários 1 mil 500 ônibus, além de outros meios de transporte, para transportar os 50 mil torcedores.

E São Paulo desafiava a condição de cidade do trabalho, ainda segundo o periódico carioca:

Algumas das grandes indústrias de São Paulo estão dispostas a liberar do trabalho de segunda-feira os operários que forem assistir ao jogo; muitas delas contrataram ônibus para levar seus empregados ao Rio. Segundo os cálculos do chefe da torcida do Corinthians, Tantã, 30 mil torcedores incentivarão o time domingo.

Ou ainda, segundo Igor Ojeda e Tatiana Merlino:

Na sexta-feira [dia 03 de dezembro], o então presidente da Gaviões da Fiel, Júlio Toledo, fez um apelo no rádio aos empresários para que estes abonassem as faltas que acontecessem em decorrência do Timão. “Depois da festa, todo corinthiano que se preze compensará o dia perdido com uma produção maior”, disse.

O clima de euforia assumido pela imprensa, porém, era quebrado por um artigo publicado pelo Jornal do Brasil, no qual o jornalista José Nêumanne Pinto, de forma crítica e ácida, apresenta e analisa o fenômeno Corinthians. A tese do jornalista é relativamente simples: a torcida do Corinthians é ressentida por causa dos 22 anos sem títulos — fato que a tornou motivo de piada para os outros torcedores de São Paulo; além disso, por conta de uma conjuntura favorável, a imprensa de São Paulo adotou o Corinthians como mais uma mercadoria e estava se dando bem nesse investimento, principalmente porque está mexendo com a paixão do torcedor. Rádio, jornal, revista e televisão entraram na onda corinthiana. José Nêumanne Pinto escreveu:

Durante toda a semana, a Rádio Jovem Pan de São Paulo inseriu em sua programação um jingle em que se ouve o hino do Corinthians ‘…salve o Corinthians, campeão dos campeões, eternamente dentro de nossos corações…’, intercalado com a gravação do grito uníssono da torcida nos estádios clamando pelo nome do time (…)

(…)

Revistas como a Isto É, que ordinariamente mantém o futebol ausente de sua linha editorial, já se convenceram de que o carnaval há tantos anos reprimidos pela massa corinthiana é uma oportunidade sem precedentes pela conquista do público leitor.

(…)

O canal 7 (Record) faz com assiduidade, em seus intervalos comerciais, a convocação da torcida para a viagem ao Rio, ao Maracanã; o canal 5 (Globo) prefere anunciar a transmissão do jogo — direta e em cores — sem deixar dúvidas de que está ao lado do Corinthians; o canal 11 (Gazeta) repete em suas chamadas que estará onde estiver o clube de futebol mais popular de São Paulo.

O artigo também ironizava o destaque que as lideranças das torcidas organizadas conquistaram com a preparação da gigantesca caravana ao Rio de Janeiro. Um dos alvos era o presidente da Camisa 12.

Porém, independente do papel exercido pela imprensa, esta soube captar esse momento tão diferente, caso do Jornal do Brasil:

A invasão do Rio por torcedores do Corinthians começou na quinta-feira, e ontem pela manhã eles tomaram conta da Avenida Atlântica, tumultuando o trânsito com carros e enormes bandeiras, provocando os torcedores dos times do Rio, dizendo que “os cariocas verão a partir de hoje (ontem) o que é uma torcida organizada”.

(…)

Os carros com placas de São Paulo superavam em animação os cariocas, que passivamente assistiam à festa dos paulistas. (…)

Os grupos, que desde cedo tumultuavam o trânsito da Avenida Atlântica, pertenciam à Patota do Timão, Gavião (sic) da Fiel, Torcida Jovem (sic) e Camisa 12, e às 12 horas, a cor branca dos paulistas já começava a ganhar uma tonalidade rosada. Um carioca, gritou, irônico: “voltem para São Paulo que pode parar sem o trabalho de vocês, e não atrapalhem o nosso banho de mar”.

No trecho, a apresentação e o reforço dos estereótipos: São Paulo é o lugar do trabalho e quase exclusivamente só deste; e, é claro, trabalho liga-se imediatamente a sofrimento, a castigo. Já o Rio, é o lugar do prazer, da praia, enfim, uma clara contraposição ao trabalho paulistano. A ironia do carioca revela a necessidade de que cada um dos personagens daquele encontro da praia fosse em busca do seu destino: trabalho e praia; sofrimento e prazer. Aquele encontro não era possível: o carioca estava sendo atrapalhado no seu momento de prazer. Era o encontro entre desconhecidos.

E se a presença da massa de torcedores corinthianos assustava parte dos cariocas — como também os deixavam perplexos —, também as notícias que continuavam a chegar de São Paulo surpreendiam. Em uma dessas matérias, no Jornal do Brasil, com um título muito sugestivo, Corinthiano só trabalha na 3ª-feira, o clima na cidade de São Paulo poderia ser dimensionado:

O jogo desta tarde foi o assunto do qual praticamente ninguém escapou na Capital paulista. Nas ruas, centenas de vendedores exibiam gigantescas bandeiras do Corinthians, pessoas andavam aos berros “Corinthians! Corinthians!, e os torcedores advertiam; “Os corinthianos não vão trabalhar na segunda feira. Só na terça. Aí, depois da vitória, a produção vai ser dobrada”.

Uma crônica, de Carlos Eduardo Novaes, Os Invasores, ocupou a primeira página do suplemento Caderno B do Jornal do Brasil:

“Atenção. Atenção. Interrompemos nossa novela Credicarmandaia para informar em edição extraordinária que a cidade está sendo invadida. As primeiras notícias dão conta de que os invasores avançam pela Avenida Brasil. As autoridades pedem calma à população. Ainda não foi possível identificá-los, mas há suspeitas de que sejam índios ou seres extraterrenos ou torcedores do Corinthians”.

(…)

— São seres extraterrenos?

— Antes fosse. A invasão, meu caro, é de curintianos.

— Não muda muito. Pra mim, os curintianos são seres extraterrenos.

— De qualquer maneira, Juvenal, proteja-se. Eles estão vindo em hordas sucessivas. São 60 mil.

— Sessenta mil? E o que eles vêm fazer aqui? Tomar o poder?

Depois de uma semana de muita expectativa, veio o jogo. Parte considerável das previsões se cumpriu. Talvez, se não fosse pela maciça presença da torcida corinthiana pelas terras cariocas, a partida não chamaria tanto atenção. Apesar de ser uma partida decisiva, o jogo ficou, em grande parte, comprometido pelas fortes chuvas que caíram durante a maior do jogo. Dois gols saíram no primeiro tempo: aos 18 minutos, Pintinho para o Fluminense e, aos 29, Ruço, empatou para a equipe paulista. O estádio dividiu-se na comemoração de cada gol. No segundo tempo e na prorrogação, nenhum gol. A decisão por pênaltis trouxe mais emoção à disputa, mas, de fato, não foi uma grande partida de futebol. Valeu, dessa maneira, mais pela presença dos torcedores. Nos pênaltis, com grande atuação do goleiro Tobias, vitória corinthiana. Festa no Rio de Janeiro, em São Paulo e muitos outros lugares.

E, como não poderia deixar de ser, os jornais de segunda-feira foram invadidos: cada parte do jornal, fosse esporte ou não, falava do jogo e dos corinthianos. O Rio sentiu a invasão. Assim como já estava ocorrendo com os periódicos de São Paulo, o Corinthians e a sua torcida tinham saído das páginas esportivas e migrado para todas as outras seções. Mostrava o Jornal do Brasil:

Os 50 mil corinthianos que vieram ao Rio prestigiar seu time proporcionaram um clima de festa, não só na hora do jogo, como antes, pela cidade, quando se viam centenas de bandeiras pretas e brancas desfraldadas, milhares de faixas e gritos em coro: ‘Corinthians, Corinthians.’ A entrada da torcida paulista no Maracanã foi um espetáculo que suplantou até mesmo a partida.”

(…)

Nunca o Rio de Janeiro assistiu a algo semelhante do que ocorreu no último fim de semana, quando foi tomado pela torcida corinthiana, uma gente alegre capaz de mudar o rosto de uma cidade por causa de uma partida de futebol.

Vieram de carro, de ônibus e até de bicicleta. Carregaram famílias, grandes bandeiras e toda a alegria de suas buzinadas tão triunfantes na noite de sábado quanto na vitória de domingo.

(…)

É provável que graças ao Maracanã se acabe de vez um preconceito pouco inteligente e característico das personalidades vulgares sempre dispostas a fazer comparações do bem e do mal viver entre o Rio e São Paulo.

Os corinthianos mostraram que o Brasil pode ser um país muito mais bonito se as pessoas ficarem melhor humoradas. Se aprenderem a se divertir.

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Ingresso do jogo entre Fluminense x Corinthians em 1976.

De certa maneira era uma forte contraposição entre os analistas — anônimos ou não — que viam a presença dos paulistas em terras cariocas como algo ameaçador, como a mais clara manifestação das supostas e enormes diferenças que separavam “dois mundos”; São Paulo e Rio de Janeiro.

Não seria indevido considerar que o protagonismo da torcida do Corinthians e a concretização da Invasão trouxeram dividendos para os que estavam no poder. A presença oportunista de dirigentes políticos de vários níveis tentando tirar proveitos da euforia corinthiana, porém, não pode ser apresentada de forma absoluta, senão a compreensão pode ser simplificada demais.

É necessário relativizar o uso político dos dirigentes ligados ao regime militar, reconhecendo que também pode haver outro tipo de leitura para os acontecimentos de dezembro de 1976. Ou seja, mais de que reforçar a dominação política sobre a população brasileira, os invasores corinthianos partiram para a subversão da ordem — como gostavam de qualificar os generais de plantão. A alegria da torcida corinthiana teve essa força subversiva. Gasto milhões de litros de combustíveis quando o governo apresenta planos de racionamento dos mesmos combustíveis significava afrontar a ordem.

Ou mais do que isso: a subversão pelo prazer. A rigor, havia pouco de produtivo na invasão corinthiana. Além do citado gasto excessivo com combustíveis, a energia gasta não se dirigia para a produção. Aliás, ao contrário: muito deixariam de produzir para acompanhar o Corinthians pelo Rio.

Além disso, a um campo subjetivo que não pode ser verificado com qualquer rigor. Por exemplo: houve um grande número de empresas de regiões industriais de São Paulo e do ABC paulista que disponibilizam transporte para os seus funcionários. A área de recursos humanos de muitas empresas organizou e financiou caravanas. Esta atitude do patronato pode ser lida como mais um mecanismo de controle sobre os trabalhadores. Porém, não deve ser desprezada a sociabilidade construída por estes trabalhadores durante tão firme jornada. Eles, os trabalhadores, participaram de uma representação de guerra, olharam para o Fluminense, na maior parte dos momentos, como um inimigo a ser vencido. E foram lutar no terreno inimigo. E, talvez o mais importante: foram vencedores. A participação da torcida do Corinthians foi lida como fundamental na conquista da equipe paulista.

Dessa maneira, é possível se perguntar se não houve, a partir daquele momento de sociabilidade a partir do futebol, uma maior possibilidade de organização para as lutas sindicais e trabalhistas? Ou seja, os mesmos trabalhadores que estiveram lado a lado para torcer e lutar por um sucesso corinthiano, não poderiam estender esses laços para a luta em direção a uma sobrevivência mais digna?

Da mesma forma, há também um ato de forte simbolismo presente nas manifestações de rua. Esta é simplesmente ocupada pelos torcedores do Corinthians e em vários momentos, entre a saída das caravanas e dos outros torcedores em direção ao Rio, passando pelos torcedores que saem às ruas da cidade de São Paulo — mas também de outras cidades espalhadas pelo Estado de São Paulo, assim como por outros estados brasileiros —, chegando aos numerosos torcedores que param a cidade de São Paulo para receber a delegação do Corinthians na sua chegada, na segunda-feira, depois o jogo contra o Fluminense.

Trata-se do espaço público das ruas voltando a ser ocupado. Ainda não é a ocupação essencialmente política desse espaço. E chamamos de ocupação política em especial a luta pelo fim da ditadura militar ou contra as mazelas produzidas por ele. No decorrer de 1977, o movimento estudantil, reorganizado, volta com manifestações públicas; nas primeiras, os espaços públicos são lenta e timidamente ocupados. Exemplo disto são as manifestações realizadas em dentro da Faculdade de Medicina da USP, em São Paulo, mas que eram separadas apenas por uma pequena grade da via pública, a avenida Doutor Arnaldo. Ou seja, as ordens policiais eram cumpridas pelos estudantes: manifestações apenas dentro do campus universitário; ao mesmo tempo, a população tomava conhecimento dos descontentamentos dos estudantes e das suas reivindicações.

Enfim, mesmo que para torcer pelo Corinthians, mesmo que para sair com seus carros buzinando pelas ruas da cidade, as ruas voltavam a ser ocupadas. Não eram mais as manifestações populares antes do AI-5; os sujeitos e as intenções eram diversos. Mas a rua voltava a ser um espaço da população.

Talvez, como já se afirmou, o Corinthians tenha reinaugurado a ocupação do espaço público. No ano seguinte, em 1977, este espaço público ganha a conotação de espaço político. E o reinício da luta popular pela volta do Estado de Direito, das liberdades democráticas. A rua voltava a ser palco dos embates políticos. Sem qualquer preocupação com o destino da Ditadura Militar, cada corinthiano fez das ruas seu espaço de prazer e alegria.

Os corinthianos que retiravam suas roupas, que desfilavam com suas bandeiras, que tocavam suas buzinas, que jogavam papéis picados e soltavam fogos de artifícios, que gritavam loucamente pelas ruas da cidade, saciavam-se, embriagavam-se de felicidade. Tudo sempre anárquico. Quanto mais fora da ordem melhor.

São esses corinthianos que precisavam ser explicados. Aliás, faz parte da história do Corinthians e dos seus apaixonados torcedores, a convocação de especialistas no campo das humanidades para tentar desvendar pela ciência, ao grande público, o que significa aquela massa de malucos torcedores. Assim, para a semana em que os corinthianos participaram de grandes caravanas, essas explicações eram sempre bem-vindas. Recebem chamados sociólogos, psicólogos, cientistas políticos, entre outros intelectuais, com a tarefa de desvendar o fenômeno Corinthians.

Por isso vale destacar a análise do sociólogo Sérgio Miceli, presente em um artigo no Jornal do Brasil, principalmente porque ainda era mais fácil trata o futebol com um eficiente mecanismo de alienação popular. Na memória da intelectualidade ainda estava muito presente o uso político que a Ditadura Militar tinha feito — e continuava a fazer — do esporte mais popular do país.

A esta altura, o Corinthians é menos um time do que uma militância, menos uma torcida desinteressante do que uma organização embrionária de anseios populares. Seria mesmo ocioso listar as inúmeras expressões com que os Gaviões se dispõem a “acordar a burguesia”. Sabem muito bem que estão embaixo, do lado do alambrado, nas gerais, têm consciência de que a segmentação da própria torcida corinthiana se inscreve num processo de luta interno e externo ao clube, envolvendo cartolas, técnicos, conselheiros.

No mesmo periódico, a análise do cientista político Bolívar Lamounier:

Mas lembremo-nos, e lembrem-se sobretudo os eruditos teóricos do futebol como alienação, que a torcida do Corinthians recriou — não importa por quão pouco tempo — uma cidade no lugar desta triste, desta sisuda São Paulo. E ao fazê-lo, renovou uma convocação que alguém já havia feito uma vez este ano: não queiram impor-nos a sisudez, porque a alegria é direito de todos.

Talvez quem estivesse sem entender a epopeia corinthiana também precisava de uma explicação que não fosse da sociologia ou de outra ciência humana. Caberiam bem respostas sensíveis, que captassem uma torcida e uma cidade em um momento de alegria extrema. Lourenço Diaféria — já sob o impacto da derrota para o Internacional na final do campeonato, em que um bandeirinha informa ao árbitro da partida que uma jogada duvidosa havia sido gol do Internacional — faz um pouco isso, na Folha de S. Paulo:

A grande festa popular tomou conta dos edifícios, das favelas, das praças e das avenidas, sem necessidades de fantasias encomendadas, sem paetês oficiais, sem cobrança de ingresso, e sem a repressão dos cordões de isolamento.

A ordem que necessita ser mantida sob a vigilância dos capacetes não é ordem: é sujeição.

(…)

Quando meu filho crescer, e se a situação continuar como está — no futebol e fora dele — ele descobrirá com o seu próprio entendimento que o bandeirinha carioca que fez aquilo simplesmente aplicou uma mesquinha regra que há muito tempo vigora neste país:

“in dúbio, contra populum”.

Mas nem por isso o povo vai enrolar a bandeira.

José Paulo Florenzano, na marcante obra sobre a Democracia Corinthiana, avança na compreensão dos acontecimentos dessa “loucura corinthiana”:

O país perplexo se perguntava a razão desse comportamento e buscava decifrar o segredo de um time que avançava malgrado suas limitações técnicas, reconhecidas, de resto, pelos próprios atletas, os quais, porém, prometiam superá-las com garra e coragem. (…) essa superação jamais poderia ser obtida apenas pelo empenho da equipe, sem o concurso de uma torcida cujo militantismo exacerbado almejava compensar a desigualdade de forças no gramado de jogo.

Destarte, os eventos de novembro e dezembro de 1976 envolvendo a torcida do Corinthians, organizados ou não, apontam, segundo José Paulo Florenzano, para uma experiência de liberdade no futebol brasileiro: a Democracia Corinthiana. Mais: esses eventos reativavam o protagonismo dos torcedores e das classes populares.