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Odisseia iraquiana: Jorvan Vieira, o desconhecido técnico brasileiro campeão da Ásia em 2007

Matheus Marinho, Elcio Loureiro Cornelsen

É sabido que a região do Iraque viveu um pesadelo desde o início do século XXI. Duas guerras abalaram o país de grande tradição e importância para a humanidade. Na Antiguidade, as primeiras civilizações humanas se formaram na região da Mesopotâmia. Na guerra de Ocupação do Iraque (2003-2011), iniciada após a polêmica ocupação por tropas norte-americanas sob comando de G. Bush, o país mergulhou em um clima de incertezas e batalhas. Nesse ínterim, especificamente em 2006, o ditador Saddam Hussein foi executado e o vídeo de seu enforcamento viralizou na grande rede mundial.

Seis meses após a execução de Hussein, um técnico luso-brasileiro aterrissou em terras iraquianas para aceitar um desafio: comandar a seleção iraquiana de futebol na Copa da Ásia. À revelia de sua família e amigos, Jorvan Vieira, natural de Duque de Caxias (RJ), mas de família portuguesa, embarcou na aventura de comandar uma equipe desconhecida no mundo da bola. Infelizmente, a nação iraquiana saltava aos olhos do mundo e do cidadão médio como um país conflituoso e perigoso, visão semelhante tal como a Síria atualmente. Fato é que a violência atrai mais a atenção e “vende mais” do que a história.

Em entrevista [1] concedida ao portal G1, em junho de 2007, o técnico luso-brasileiro explicou a opção por comandar a seleção iraquiana, assim como a relação entre o esporte e a guerra naquele contexto. A preparação da equipe iraquiana se deu em grande parte na Jordânia e em Arbil (cidade da região norte do Iraque), ambas distantes dos conflitos armados. Segundo Jorvan:

“Na região norte não há bombas, não há violência desenfreada, e há segurança total. […] A ideia que as pessoas têm sobre eu ter aceitado este convite é completamente equivocada. Ficam achando que eu sou maluco, que estou precisando de dinheiro, que nós estamos entrincheirados, com granada na mão, e não é nem um pouco assim. Estive em Arbil e assisti a um jogo. Cheguei lá de avião, tranquilamente, e nem sequer vimos soldados dos Estados Unidos.” [1]

Mesmo distante dos riscos físicos inerentes ao conflito, ao contrário do que muitos pregam, os jogadores estavam cientes e atentos à dinâmica dos fatos e sobre possíveis consequências. Muitos, apesar de não jogarem no país, tinham família e amigos sofrendo direta ou indiretamente com a guerra. Outros, que jogavam no país, eram diretamente afetados na dinâmica do campeonato local, obviamente prejudicado.

“Os jogadores são originários de Bagdá e todos os membros da minha delegação já perderam membros da família nessa violência caótica que acontece atualmente. Trabalhamos isso com eles para que consigam ter condições psicológicas para jogar. É preciso conversar muito.”

Apesar das dificuldades, o resiliente técnico seguiu no comando da equipe e, quando perguntado pela equipe do G1 sobre a possibilidade de ser campeão, Jorvan foi ponderado e realista:

“É difícil dizer isto. Meu objetivo é deixar a seleção do Iraque pelo menos entre os 4 primeiros colocados. Se conseguir classificar a equipe à semi-final, já estarei satisfeito, mas é óbvio que vamos lutar pelo título.” [1]

Jorvan Vieira. Foto: Wikipédia.

Que a seleção do Iraque é modesta e o contexto descrito acima é bastante peculiar, não temos dúvidas. Mas, afinal, quem é Jorvan Vieira? [2]

Poucas informações estão disponíveis na internet. Presos em nossa bolha ocidental, poucas informações disponíveis em inglês ou português estão ao alcance. O que se encontra é que, nos anos 1980, o técnico iniciou uma longa carreira como treinador no mundo árabe. Fluente no idioma árabe, chegou a participar da delegação do Marrocos na Copa do Mundo de 1986 como treinador adjunto, além de treinar diversas seleções de base e muitos clubes do mundo árabe. Nas palavras do próprio Jorvan:

“Eu era preparador físico da Portuguesa do Rio de Janeiro [a convite de Paulo Autuori] quando fui convidado para ir trabalhar no Qatar, já que eu falava inglês, há 30 anos. Lá, trabalhei também como professor de educação física e acabei ficando no futebol, mudando de países, aprendendo a língua e os costumes, o que foi um grande aprendizado pessoal para mim.” [1]

“Na época eu fui convidado pelo Evaristo de Macedo, que já era treinador da seleção do Qatar e tinha como preparador físico o Oswaldo de Oliveira, que também é um grande amigo, um grande parceiro.” [3]

“Eu sou da geração do Zico, Roberto Dinamite… Nós pegávamos o trem juntos, o Roberto também é de [Duque de] Caxias, só que de um bairro distante do meu” [3]

Hoje instrutor da Fifa e da Uefa, sempre respeitou a cultura local e procurou aprendê-la por onde passou. Receita de sucesso, seguindo a linha dos argumentos utilizados pelo meia Alex, sobre sua idolatria na Turquia.

“Eu falo oito línguas: inglês, francês, italiano, espanhol, o nosso português, logicamente, o árabe de Marrocos, o árabe clássico e o malaio, e também estou estudando japonês” [3]

Respeitado e conhecido naquele contexto, Jorvan revela que:

“[…] já me consideravam um herói antes de a gente ganhar a competição [Copa da Ásia] pelo fato de eu ter aceito ir para lá e treinar lá. Sou chamado pelos iraquianos de El Batell, que quer dizer o vencedor, o campeão, um ídolo, vamos dizer assim… o guerreiro, coisa desse tipo…” [3]

Mas não só de glórias foi a carreira do técnico fluminense, muitos perrengues e episódios inusitados forjaram o experiente Jorvan.           

“Eu já tive uma situação de o avião quase cair… foi aquele avião sequestrado pelos terroristas no Paquistão em Lahore, no final dos anos 70… eu estava vindo de Omã e fizemos uma escala em Lahore, e ocorreu o sequestro. Os caras mataram o piloto e foram liberando as pessoas, todos que tinham passaporte americano… os judeus ficavam no avião. Eu me salvei justamente por ser treinador de futebol.” [3]

Em plena guerra do Iraque em 2007, experiente e consolidado, passou por situações tensas, que em nada lembram o esporte:

“Eu tinha uma arma comigo, uma 765, eu andava armado e tudo… passávamos [com a seleção nacional] e às vezes víamos pessoas mortas nas ruas, quando íamos no ônibus, e lamentávamos a situação. Isso foi difícil para se adaptar no começo.” [3]

Em 2018, Jorvan também envolveu-se em polêmica com o Maradona [4], quando exercia cargo de treinador no Kalba, equipe dos Emirados Árabes Unidos, protagonizando mais um episódio épico de sua carreira.

“Ele do banco de reservas, quando jogava contra mim, a palavra mais bonita que ele falava era hijo de la p…, porque eu falava da arbitragem e ele metia pressão, e eu falo muito quando estou na beira de campo, e ele para mim: ‘hijo de la  p…, no adelanta [filho da p…, não adianta]’… Quer dizer, ele não tem nível nenhum, é uma pessoa que não tem nível nenhum, não pode nem ser classificado como treinador.” [4]

Jorvan Vieira sendo carregado pelos jogadores iraquianos. Foto: Facebook/@theafcasiancup.

Voltando à Copa da Ásia de 2007, inusitada por ter como sede quatro países do continente mais habitado do mundo (Indonésia, Malásia, Tailândia e Vietnã), seu formato reuniu 16 equipes, dispostas em quatro grupos de 4. Assim, por contar com número reduzido de participantes, as seleções classificadas em primeiro e em segundo lugar de cada grupo foram de forma direta para as quartas-de-final, assim como, nesta fase eliminatória, jogando apenas uma partida, o polêmico e emocionante “mata”.

O grupo da seleção iraquiana contava com Omã, Tailândia e a complicada Austrália, participante da Copa do Mundo de 2006, conhecida pelo forte sistema defensivo. O Iraque somou 5 pontos em nove disputados, com uma vitória e dois empates, liderando o equilibrado grupo à frente de Austrália e Tailândia com 4 pontos e Omã com 2. A Austrália classificou-se em segundo lugar, devido ao saldo de gols. A equipe comandada por Vieira ficou no empate com Omã e Tailândia, mas, já demonstrava potencial na vitória por 3 x 1 sobre a Austrália de Cahill e Viduka.

Nas oitavas, a equipe passou com tranquilidade pelo Vietnã, em placar sólido de 2 x 0 e enfrentaria em seguida a equipe sensação da Copa do Mundo de 2002, a Coréia do Sul, que passara nos pênaltis pelo Irã, evitando, em momento oportuno, o clássico Irã e Iraque.

Em uma partida truncada, o Iraque passou por mais uma seleção presente nas últimas cinco Copas do Mundo, com nível técnico superior, em uma vitória por 4 x 3 nos pênaltis, após o 0 x 0 no tempo normal. Era o melhor resultado iraquiano na história do futebol, superando o quarto lugar no mesmo torneio em 1976. Sinal de que a cascuda seleção podia levar às ruas do Iraque momentos de alegria e orgulho. Apesar dos incidentes, o visível feito causava uma convulsão social nas ruas iraquianas. Num misto de orgulho, nacionalismo e lapsos de alegria em meio ao caos, o reconhecimento da equipe e do técnico luso-brasileiro eram evidentes.

“O secretário do primeiro-ministro (Nuri al-Maliki) veio até aqui nos parabenizar. E disse que eu, a partir de agora, serei sempre o embaixador do país. Recebi a informação com muita honra e alegria. O futebol nos leva para este tipo de situação […] Quando aceitei a proposta de dois meses para comandar o Iraque, uma das razões era poder dar um sorriso para este povo tão sofrido.” [5]

Neste contexto, até as Forças de Segurança entraram na festa:

“No bairro de Karrada, em Bagdá, soldados que faziam patrulhas em veículos blindados acenaram para os torcedores, e a polícia acabou entrando na festa. A comemoração começou assim que o Iraque venceu a Coréia do Sul numa disputa dramática de pênaltis na semifinal da Copa da Ásia, chegando à final pela primeira vez na história.” [5]

Na mesma matéria realizada pelo G1, um torcedor-cidadão iraquiano via no futebol a esperança de dias de paz:

“Estou quase chorando de emoção. A vitória do Iraque com essa equipe harmoniosa representa a forma como deveríamos viver, todos juntos”, disse Nuri al-Najjar, 30, de Basra. [5]

Infelizmente, no mesmo dia da classificação para uma inédita final de Copa da Ásia, a festa e a aglomeração intensa de pessoas potencializaram os atentados à bomba [5] que deixaram 50 mortos e 135 feridos pelo país, uma marca triste em meio à absoluta festa. Após o acontecimento e a proximidade da final, as autoridades do país impuseram toques de recolher nas ruas de algumas regiões para evitar a aglomeração de pessoas e possíveis incidentes.

Na fase final do torneio, que quase foi adiado devido aos incidentes, o adversário foi a Arábia Saudita, comandada pelo técnico brasileiro Hélio dos Anjos. Tradicional equipe tricampeã do torneio e oriunda de três Copas do Mundo seguidas. Nas semifinais, a equipe saudita venceu em partida emocionante, por 3 x 2, a então defensora do título de campeão asiático, a seleção japonesa.

Em meio ao luto às vítimas dos atentados e à difícil tarefa de superar a equipe saudita em boa fase, o técnico Jorvan administrava o psicológico da equipe.

“No país deles, é iraquiano contra iraquiano, mas eu disse aos jogadores que nós não estávamos em guerra […] sei que o futebol pode mudar as pessoas.” [6]

Em campo, para um público de 60.000 pessoas em Jakarta, na Indonésia, Iraque e Arábia Saudita decidiram o título em uma partida de bom desempenho iraquiano. O Iraque e Jorvan Vieira fizeram história ao baterem os sauditas por 1 x 0 [7]. O gol histórico foi do artilheiro Younis Mahmoud. O camisa 10 do Iraque sagrou-se como melhor jogador da competição e como um dos 4 artilheiros com 4 tentos. O ano mágico do esporte iraquiano estava pra sempre cravado na História. O feito ainda agregou uma dobradinha brasileira de títulos na Copa da Ásia, Zico, comandando o Japão em 2004 e Jorvan em 2007. Os dois são os únicos brasileiros detentores do título asiático.

Jorvan Vieira beijando o troféu da Copa da Ásia de 2007. Foto Twitter/@afcasiancup.

Sunitas, curdos e xiitas pararam o conflito pelo menos por 90 minutos para celebrar a glória esportiva de seu país… esse fato, por si só, é um dos muitos milagres do esporte bretão que refuta a ideia simplista de que ele é instrumento alienante ou um “simples jogo”. Admira-se que esta é uma história pouco contada, que daria um belo filme ou um belo livro, onde Jorvan seria o protagonista admirado  no mundo árabe.

Após a conquista Jorvan recusou convites para ser treinador de Palmeiras e Vasco, por motivos familiares e pela instabilidade do cargo no Brasil. Pra que retornar à carreira no Brasil, se o carinho do povo árabe e em especial do povo iraquiano transformou Jorvan em cidadão célebre no Iraque? [8]

O comentário de um torcedor iraquiano no Youtube revela idolatria e gratidão eternas:

فييرا اسطورة العراق صنع المستحيل و فوزنة بكأس اسيا و كتب اسمه من ذهب في تاريخ الكرة العراقية، لكن لو راسمين صورته على قطعة قماش حجم المدرجات و ترفع فوق الجمهور تكريما اله.

[tradução livre] “Vieira, o mito do Iraque, fez o impossível, e a vitória da Copa Asiática é uma página escrita em ouro na história do futebol iraquiano. Merece um pano do tamanho das arquibancadas, erguido acima do público, em homenagem a ele.” [8]

Referências:

[1] Disponível em: http://g1.globo.com/Noticias/Mundo/0,,MUL47892-5602,00.html. Acesso em: 23 abr. 2019.

[2] Disponível em: https://www.transfermarkt.pt/jorvan-vieira/profil/trainer/4799. Acesso em: 23 abr. 2019.

[3] Disponível em: https://www.ogol.com.br/coach.php?id=8765. Acesso em: 23 abr. 2019.

[4] Disponível em: https://en.m.wikipedia.org/wiki/Jorvan_Vieira. Acesso em: 23 abr. 2019.

[5] Disponível em: https://esporte.uol.com.br/futebol/ultimas-noticias/2017/07/29/refem-em-aviao-e-jogos-durante-guerra-o-tecnico-brasileiro-idolo-no-iraque.htm. Acesso em: 23 abr. 2019.

[6] Disponível em: https://esporte.uol.com.br/futebol/ultimas-noticias/2018/05/01/maradona-nao-tem-nivel-como-tecnico-diz-brasileiro-idolo-no-mundo-arabe.htm. Acesso em: 23 abr. 2019.

[7] Disponível em: http://g1.globo.com/Noticias/Mundo/0,,MUL77146-5602,00.html. Acesso em: 23 abr. 2019.

[8] Disponível em: https://esportes.estadao.com.br/noticias/geral,jorvan-vieira-usa-a-bola-para-unir-os-iraquianos,25152. Acesso em: 23 abr. 2019.

[9] Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=XJTlLiAoCUM. Acesso em: 23 abr. 2019.

[10] Disponível em: https://www.youtube.com/watch?time_continue=97&v=kuzNA5tHX5c. Acesso em: 23 abr. 2019.

[11] Disponível em: http://g1.globo.com/Noticias/Mundo/0,,MUL79509-5602,00IRAQUE+E+CAMPEAO+NO+FUTEBOL+E+REFORCA+SEGURANCA+EM+BAGDA.html. Acesso em: 23 abr. 2019.

[12] Disponível em: http://globoesporte.globo.com/futebol/futebol-internacional/noticia/2011/08/campeao-com-iraque-jorvan-acredita-em-sucesso-de-zico-e-oferece-ajuda.html. Acesso em: 23 abr. 2019.

[13] Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Copa_da_%C3%81sia_de_2007. Acesso em: 23 abr. 2019.

[14] Disponível em: http://www.radiogrenal.com.br/as-mortes-diminuiram-naquele-momento-relembra-tecnico-brasileiro-campeao-pelo-iraque/. Acesso em: 23 abr. 2019.

[15] Disponível em: https://www.aljazeera.com/focus/2007afcasiancup/2007/07/2008525184927362150.html. Acesso em: 23 abr. 2019.

[16] Disponível em: https://www.record.pt/internacional/detalhe/jorvan-vieira-vou-cuidar-das-galinhas-em-lousada. Acesso em: 23 abr. 2019.

[17] Disponível em: https://esporte.uol.com.br/futebol/ultimas-noticias/2018/05/01/maradona-nao-tem-nivel-como-tecnico-diz-brasileiro-idolo-no-mundo-arabe.htm. Acesso em: 23 abr. 2019.

[18] Disponível em: http://globoesporte.globo.com/ESP/Noticia/Futebol/Campeonatos/0,,MUL79506-4840,00-COM+TECNICO+BRASILEIRO+IRAQUE+E+CAMPEAO.html. Acesso em: 23 abr. 2019.

[19] Disponível em: https://trivela.com.br/destruido-pela-guerra-ha-10-anos-o-iraque-explodia-mas-de-alegria-pela-conquista-copa-da-asia/. Acesso em: 23 abr. 2019.

[20] Disponível em: http://www.soccerblog.com/2007/07/jorvan-vieira-iraqs-coach-and.htm. Acesso em: 23 abr. 2019.

 

Vídeos:

[21] Disponível em: https://edition.cnn.com/videos/world/2017/07/27/iraq-asian-cup-2007-vieira.cnn. Acesso em: 23 abr. 2019.

[22] Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=nO-I_ph99ok. Acesso em: 23 abr. 2019.