106.25

Odisseia Madridista

Felipe Campos

Aproveito aqui a ideia de um texto, muito bem escrito, publicado no Blog 4-3-3, do Lucas Vasconcelos Silva, sobre uma relação entre a Odisseia de Homero e a necessidade do homem pelas viagens e mudanças, comparada ao tédio que toma conta do futebol nas conquistas esportivas sempre dos mesmos times de enorme poder econômico, como Real Madrid, Barcelona e Bayern. Isso é um fato, mas há também um outro lado, que pode ser expressado em uma relação com o mesmo poema homérico, que se fala das aventuras por que passou Odisseu, é na verdade um poema sobre o retorno (νόστος/nostos, em grego, origem da palavra nostalgia, que é um dos temas desse texto). O retorno não só é o tema principal da obra, mas é por conta dele que o herói resiste à tentação de ficar eternamente na ilha de Calipso ou Circe, mesmo sendo oferecida a ele a condição de se tornar imortal.

Pois bem, fazendo o mesmo paralelo feito com o futebol, e tomando a UEFA Champions League como modelo e principal expressão técnica, tática e econômica desse esporte, gostaria de comparar a viagem de retorno de Odisseu ao lar com essa competição, que teve no Real Madrid o campeão de suas 5 primeiras edições, e que agora retorna ao seu trono, com 3 títulos nos últimos 4 anos, e contando.

Zidane

Zidane e seus troféus. Arte: Emilio Sansolini.

Assim como o herói grego vagou por territórios desconhecidos durante 10 anos após a conquista da guerra de Tróia, o time espanhol precisou de 60 anos para reconstruir a sua hegemonia de conquistas da década de 50 (campeão seguido de 56 a 60 da antiga Liga dos Campeões da Europa), só retomada em 2014, com algum sucesso no fim dos anos 90 e começo dos 2000. É verdade que naquele momento também houve uma semi-hegemonia do time blanco, com as conquistas de 97-98, 99-2000, 2001-2002, contra Juventus, Valencia e Bayer Leverkusen, respectivamente – com jogadores lendários como Raul, Roberto Carlos, Hierro, Mijatovic, entre tantos, mas principalmente, Zidane, o elo perdido e agora encontrado. Mas também é verdade que Odisseu esteve muito perto de voltar a Ítaca bem antes de cumprir seus 10 anos de peregrinação, quando chegou na ilha do rei dos ventos, Éolo (Αἰολος/Aiolos) – origem do termo eólico, bom adjetivo para descrever o estilo dessa máquina de fazer títulos, rápida como o vento, em oposição ao estilo de seu rival catalão tão aclamado, com seu jogo de toques e paciência de Jó).

Nessa passagem homérica (Odisseia, canto X, vv.1-79) o rei Éolo dá de presente ao herói um saco fechado com um cordão, em que guarda todos ventos contrários ao seu retorno, para que a embarcação grega seja conduzida em suas velas pelo caminho correto. Mas a curiosidade nos navegantes por saber o que continha dentro do presente dado a seu mestre faz com que os tripulantes retirem a corda, e de lá os ventos desviam o navio de sua rota segura. Mais ou menos o que aconteceu com o Real Madrid no começo dos anos 2000, cuja cobiça por um time de galácticos interrompeu as glórias do final dos anos 90, e fez a equipe amargar não só um jejum na competição, como seguidas eliminações vexatórias nas oitavas de final (de 2005 a 2010). Mas graças à astúcia (μήτις/metis) de Odisseu, ele volta a Ítaca por fim, assim como a inteligência de um herói que estava em campo na última conquista do Madrid antes dessa volta triunfal os reconduziu ao seu lugar originário. Cito na sequencia um trechinho dessa passagem (Odisseia, canto X, vv. 19-36), que fala do presente de Eolo e da curiosidade destruidora (na tradução de Christian Werner, 2014, pp. 303-304):

“Deu-me saco de couro, que tirara de boi nove-anos,

onde prendeu as rotas dos ventos uivantes,

pois o filho de Crono fê-lo supervisor dos ventos,

que interrompesse ou instigasse qual quisesse.

Na cava nau amarrou-o com corda fulgurante,

prateada, para impedir o menor escoamento;

mas para mim fez soprar a lufada de Zéfiro

para levar as naus e a nós mesmos. Mas não iria

completar-se: nossa própria insensatez nos destruiu.

Nove dias navegamos sem parar, noite e dia,

e no décimo já aparecia o solo pátrio,

e até víamos homens perto mantendo o fogo.

Lá doce sono se achegou a mim, exausto;

sempre controlei o pé da nau, e a nenhum outro

companheiro a dera para logo chegarmos a terra pátria.

E os companheiros com palavras falavam entre si

e disseram que eu levava ouro e prata para casa,

presentes do enérgico Eolo, filho de Cavaleiro”

Não poderia caber a Cristiano Ronaldo o papel de Odisseu, já que o gajo se aproxima mais de outro herói homérico, Aquiles, o protagonista da Iliada, marcado pela força física e não pelo raciocínio, e mesmo assim considerado superior a Odisseu, assim como o português é em números superior ao francês como jogador. Mas sem dúvida é Zidane o arquiteto por traz do retorno madrilenho, embora seus méritos não sejam tão reconhecidos como de seu oposto, Guardiola, um par que funciona na verdade como antídoto um do outro (sentido da palavra φάρμακος/pharmakos, em grego, traduzido tanto por “veneno” como por “remédio”, e do qual deriva o título da excelente obra sobre futebol e muito mais de José Miguel Wisnik, Veneno-Remedio, o futebol e o Brasil). O craque de origem argelina é o representante do outro lado do Mediterrâneo, e faz vingança a derrota dos antigos cartagineses, habitantes do norte da África, derrotados pelos romanos nas Guerras Púnicas do sec. III-II a. C., mas que voltou, mais de 2000 anos depois para reconquistar a Europa. Nosso herói ainda pode ser visto também como um símbolo árabe, origem de sua família, que volta para reconquistar o território europeu que um dia já ocupou, sobretudo na Espanha onde reina o time de Zidane, paradoxalmente o time Real, e não das terras árabes da Andaluzia.

É bem verdade que o título de 2013-14 foi conquistado por Ancelotti, nascido em Reggiolo, na Emilia-Romanha, mas foi o franco-argelino que conquistou o primeiro bicampeonato da fase moderna, chamada de UEFA Champions League a partir dos anos 90. O mérito desse semi-deus da bola, tão reconhecido como merece dentro de campo, não é tão exaltado quanto merece fora dele. E aqui vale a ressalva que as qualidades do semi-deus Odisseu (de linhagem divina que remonta a Hermes, o deus trickster) é especificamente a astúcia (metis), a prudência e não o brilhantismo intelectual, papel esse que cabe mais uma vez ao habitante do outro lado do Mediterrâneo, o catalão Guardiola, capaz uma criação exuberante como os poemas épicos, semelhante assim ao próprio Homero. Mas diz a lenda que esse poeta era cego, e talvez a cegueira seja uma característica comum a esses dois gênios, já que a complexidade do modelo de jogo de Pep encontra dificuldades de vencer nos momentos cruciais de mata-mata, justamente onde a astucia de Zizou se sobressai. Ele pode não ter trazido conceitos revolucionários como o outro, mas “enxergou” nos momentos decisivos o que precisava fazer para levar seu barco de volta ao caminho de casa, da hegemonia europeia.

Nesse ano Guardiola criou uma equipe épica na Inglaterra, com seus sistemas complexos, com laterais armadores jogando numa linha de 3 ao lado de Fernandinho num espetacular 2-3-5, com seus meias David Silva e De Bruyne se juntando aos 3 atacantes Aguero, Sane e Sterling, estes últimos dando amplitude ao jogo (mesmo com laterais de técnica pífia, em homenagem ao Mauro César, como Walker e Delph), tudo isso para furar as defesas fechadas de Contes e Mourinhos. Já Zidane tem nos seus momentos mais brilhantes de interferência tática no jogo um simplório 4-4-2, como contra o PSG nas oitavas, com dois meninos talentosos e esforçados pelos lados, Marco Asensio e Lucas Vasquez, o primeiro mais talentoso e o segundo mais esforçado. Mas também em oposição ao outro ele tem o melhor lateral esquerdo do mundo, e talvez de todos os tempos: Marcelo rivaliza só com outro ídolo merengue e canarinho, Roberto Carlos. O time de Zidane é uma ode aos volantes (em homenagem ao Arnaldo Ribeiro), mesmo que Kroos e Modric não sejam propriamente isso, mas não chegam a ser meias agudos como David Silva e De Bruyne, ou como era o próprio Zidane. Enquanto Casemiro é a encarnação do volante ideal, e o maior achado de Zidane ao longo do caminho, junto com o fato de conseguir aprimorar seu Aquiles luso, “de pés rápidos”, cada vez mais para finalizar, e não driblar, já que Cristiano está mais letal que nunca.

Guardiola Triplo

Guardiola conquista a Premier League. Arte: Emilio Sansolini.

Talvez a vitória romana sobre os cartagineses ofusque a nossa percepção da história, já que a cultura romana não era em nada superior, a não ser militarmente, à dos fenícios que ocupavam o norte da África, assim como Zidane não é inferior a Guardiola, ambos originários do mesmo Mediterrâneo. Foram os fenícios que legaram também algo tão simples à cultura romana: o seu alfabeto, o mesmo alfabeto romano em que é escrito este texto, base também do alfabeto grego e consequentemente de sua tradição literária desde Homero, da qual a cultura latina dos romanos deve grande parte, assim como toda a Europa. Mas a origem de Zidane é também árabe, povo que nos legou os algarismos numéricos que usamos, e contra os quais não existem argumentos que desmereçam o legado de Zinedine Zidane, o técnico mais vitorioso possível, em números de títulos importantes, dentro de sua curta carreira como treinador, algo impensável de ser alcançado depois dos feitos do catalão, com 2 títulos de UCL nos 4 primeiros anos (média de 100 % contra 50% no início das carreiras de ambos).

Enquanto isso os pretendentes da esposa de Odisseu, Penelope, não perdem por esperar a volta do herói, dado como morto. O herói de tantas culturas e recursos (como o πολύμητις/polymetis Odisseu), das letras finais do nosso alfabeto, Zinedine Yazid Zidane, lembra, no entanto, que tudo começa na simplicidade do Aleph fenício, ou do Zero árabe. Zidane passa despercebido como se fosse um “ninguém” (οὐδείς/oudeis), mas depois do susto, ele pode gritar para os famigerados Ciclopes de um olho só, que enxergam apenas um treinador, o seu verdadeiro nome.


Obs: Não simpatizo exatamente com o Real Madrid, até por sua história política do passado, gosto do futebol portenho e italiano, apenas fiz o texto para reconhecer sobretudo os feitos de Zidane, que acho pouco reconhecido.

Obs2: Não odeio o Guardiola, pelo contrário, os únicos jogos que faço questão de assistir todo fim de semana são os do City, assunto obrigatório nos almoços de domingo com meu sogro Mário.

Referências:

Homero. Odisseia. Tradução de Christian Werner; colagens Odires Milászho: São Paulo, Cosac Naify, 2014.

Wisnik, José Miguel. Veneno-Remédio: o futebol e o Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.