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Olhar o mundo social através do futebol: a substituição do torcedor pelo consumidor de experiências

André Lucena

Se o maior desejo da pessoa que aguarda a chegada do fim semana para acompanhar o futebol é que a bola possa rolar, o anseio dos cartolas e dos agentes econômicos do futebol é que o dinheiro vinculado a esse esporte não pare de girar – sempre que possível, sendo acumulado nos bolsos já recheados daqueles que, dia após dia, transformam um fenômeno cultural, popular e esportivo em um produto a ser consumido, a nível global.

Não deixa de ser espantoso perceber a ampliação aguda da oferta de futebol. Uma vez que se possa acessar os canais esportivos pagos, as plataformas de streaming e os pacotes de eventos esportivos, o verde do gramado irá prevalecer na tela da televisão – ou do celular, ou do tablet, ou do computador – em tempo quase integral. Aqui no Brasil, por exemplo, não é mais incomum desfrutar do bálsamo de futebol desde as primeiras horas da manhã, até o fim da noite ou madrugada. Pode-se dar uma olhada nas pelejas da China enquanto sobe o dia, seguir pela avalanche de jogos das ligas europeias durante a tarde, esperar por um raro bom nível técnico no futebol brasileiro, à noite. Se a insônia insistir, não é má ideia, apenas pelo prazer de ver a bola rolar, acompanhar algum jogo despretensioso da liga norte-americana, ali pelo começo da madrugada.

Evidentemente, o futebol não é apenas o jogo, em si. Explodem os programas de análise das rodadas, misturando bons e maus debates sobre as campanhas de um ou outro time. As “resenhas” esportivas também têm o seu lugar na grade de programação: de um modo divertido e leve, manejam o futebol com o lúdico, sob a condução, muitas vezes, de ex-jogadores. Junto a isso, para saciar a sede de quem quer mais do que apenas assistir aos jogos, a publicidade estampa, a todo tempo, opções de apostas esportivas e jogos de escalação de jogadores. Não é nenhum absurdo imaginar que, nas temporadas atuais, um adolescente do interior do Brasil se nomeie um torcedor do Everton e, como bom torcedor, acompanhe todos os jogos da temporada do time inglês, deleitando-se no padrão irretocável de apresentação da Premier League.

Qual o custo de tudo isso? O torcedor mais purista, que, há algumas décadas, amontoava-se com outros torcedores naquela que poderia ser a única televisão de sua rua, para assistir ao jogo da seleção brasileira, e que acompanhava os jogos do seu time, como visitante, pelo rádio, poderá dizer que se vive, hoje, o paraíso de oferta de futebol. De fato. A pergunta, no entanto, permanece: qual o custo de tudo isso?

A multiplicidade identitária do mundo atual pode fazer crer, a quem se lança a enxergar o mundo social de maneira mais apressada, que a noção tradicional de classe social já está superada. Que não é mais possível, em termos teóricos, delimitar, aos moldes clássicos, as classes sociais de maneira muito rígida. Que, para além das classes, existem as sub-classes, ou frações de classe. Parece não ser necessário fazer grandes digressões para perceber que, na atualidade, a maior complexificação do mundo social nos exige, realmente, recolocar a noção de classe social. No entanto, entre repensar a noção de classe social e afirmar que ela não é mais determinante há um abismo, intensamente perigoso. Olhar para o mundo social através do futebol é, entre outras coisas, enxergar as nuances da luta de classe no mundo da bola.

Se o consumo do futebol é muito mais incentivado, atualmente, essa dinâmica não parte apenas de quem deseja vender. Mas, substancialmente, de quem pode consumir. Desse modo, a exposição publicitária do futebol a níveis jamais vistos não caminha para – o que, inocentemente, seria possível pensar – para a maior popularização do futebol. A maior popularização do futebol é um fenômeno que exigiria a maior atuação de muitas frentes de ação, daí passando pela política, pelo acesso, pela dimensão cultural, etc. A ampliação do consumo do futebol, por outro lado, pode e é engatilhada por um único e específico agente: o mercado. 

Futebol na televisão. Foto de JESHOOTS.com no Pexels.

É preciso insistir na ideia de que o maior consumo de futebol não indica o aumento da sua popularidade. É enganoso pensar que a popularidade é condicionada ao aumento das cifras vinculadas ao universo do futebol. Exemplos como a substituição, nas novas arenas, do setor da geral pelas cadeiras; o aumento progressivo dos preços dos ingressos ou a multiplicação de planos de televisão e streaming para se assistir futebol indicam que, para que o futebol seja um produto consumido a nível mundial, é necessária a saída de cena das classes menos favorecidas, e a entrada em cena – uma entrada, aliás, cada vez mais paga – de uma classe média detentora de parte importante não apenas do capital econômico, mas do capital cultural.

O futebol não é um universo que se encerra dentro de si, alheio às mudanças econômicas e políticas. Embora, no próprio mundo do futebol, especialmente nos corredores da FIFA, da UEFA, da CBF e nos acordos entre patrocinadores e cartolas, o discurso oficial sempre tente forçar a ideia de que o futebol é uma estrutura neutra perante o mundo. Como o futebol é reflexo direto das mudanças estruturais que o mundo viveu e vive, e nele que se sente, também, a tendência fortemente concentratória dos dias de hoje. É nele que se visualiza, de forma muito escancarada, a tendência – em padrões táticos, em formas de jogo, em linguagem, etc. – de sufocamento das identidades nacionais, de forma a indicar a Europa como centro “pensante” do mundo do futebol, uma espécie de referência para todos os países periféricos, fazendo com que, mesmo nos países periféricos, exalte-se – por simplesmente exaltar – o “modo europeu de jogar”. 

Não por acaso, a transformação diária do futebol de um fenômeno popular em um produto global desarticula as iniciativas comunitárias ligadas aos clubes, convidando grandes conglomerados empresariais e mesmo atores políticos a conduzirem os rumos do futebol. A Red Bull, por exemplo, não apenas compra um clube: ela impõe no escudo (a mais importante marca de um clube) o apagamento da origem do clube, convertendo o escudo na logomarca da empresa. Como pensar, então, a figura do torcedor frente a tudo isso?

A começar que, nesse universo, o torcedor é menos um torcedor e mais um sócio. Menos o dono da arquibancada e mais o consumidor de uma “experiência”. Isso falando, é claro, do torcedor que ainda pode ir ao estádio. A mudança de perfil e do modo de torcer é uma das mais impactantes consequências da industrialização global do futebol. Não existe uma dimensão afetiva no ambiente industrial: existe produção e consumo. O engessamento da figura do torcedor tem sido fundamentado há anos. É justamente aqui que se visualiza, para a melhor execução da “experiência paga” do futebol, a conversão do antigo torcedor em um ocupante de cadeira, as restrições às bandeiras, à fanfarra, às torcidas organizadas, ao papel picado, enfim, tudo o que sempre contribuiu para a construção do imaginário apaixonado do futebol.

Estamos falando, assim, de uma substituição da dimensão popular do futebol por uma dimensão mercadológica. Em termos de classe, trata-se do afastamento da classe trabalhadora do universo da bola, com o predomínio da classe média consumidora de serviços. Embora a Confederação Brasileira de Futebol não tenha nenhum constrangimento em promover jogos da seleção brasileira com a presença de um público silencioso – contanto que seja pagante e bem pago -, o futebol é um esporte de bases populares. Os mesmos que viabilizam o impulsionamento das ligas de futebol como “produtos” para o mundo são, em primeiro lugar, os que mais ganham com isso e, em segundo lugar, os que mais interesse têm na conversão do futebol, definitivamente, em uma indústria.


Como citar

LUCENA, André. Olhar o mundo social através do futebol: a substituição do torcedor pelo consumidor de experiências. Ludopédio, São Paulo, v. 138, n. 42, 2020.