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Origens atléticas da Mulher Maravilha

Wagner Xavier de Camargo

Você deve estar se perguntando, que tema é esse numa coluna do Ludopédio? Afinal, a Mulher Maravilha é uma super-heroína de histórias em quadrinhos e não teria a ver com o campo dos esportes ou do futebol. Pois é o que eu também pensava, como fã que sou, até ganhar de presente de aniversário um livro acadêmico sobre a origem e criação da figura ficcional da Mulher Maravilha, nos anos 1940. Ali achei uma relação com o mundo dos esportes e a explicarei a seguir.

A História Secreta da Mulher Maravilha”, da estadunidense Jill Lapore, professora de História Americana, da Universidade de Harvard, propõe um mergulho profundo na trajetória de uma figura, que o público em sua maioria, apenas conhece superficialmente. Ao longo das 480 páginas de uma densa leitura com notações de arquivos, notas de rodapé e trechos de gibis da heroína, outros lados da história se descortinam aos olhos de quem lê.

Livro Mulher Maravilha

Fonte: Divulgação

A personagem é criação de William Moulton Marston, inventor do “detector de mentiras” (mais tarde, nomeado “polígrafo” por outro cientista), mas que foi um acadêmico negligenciado pelas universidades e centros de pesquisa norte-americanos por onde passou. Bígamo e poliamorista, Marston mantinha um relacionamento com duas mulheres (uma oficial e outra oficiosa) e defendia o amor livre. Em que pese ele sustentasse que as mulheres deviam dominar o mundo, Jill Lapore destaca na obra equívocos na apreensão feminista de Marston, pois defendia que “as mulheres seriam livres para se submeter aos homens”.

William Moulton Marston

William Moulton Marston (1916). Foto: Wikipédia

Na opinião dela, Marston usava o “feminismo como fetiche”, principalmente quando se referia à supremacia feminina como capacidade de submissão à dominação masculina. Todas (ou muitas) vezes em que a Mulher Maravilha aparece acorrentada ou em cenas de palmadas com homens em suas aventuras são registros do desejo de Marston de fetichizar a independência da mulher, segundo interpretação de Lapore.

Na vida pessoal havia, portanto, uma tensão entre o que ele dizia defender e o que, de fato, fazia em casa com Elizabeth Holloway Marston e Olive Byrne, as companheiras. Há inúmeras citações de Lapore em que diálogos ou posicionamentos de Marston mostravam que ele estava mais para um womanizer (garanhão ou conquistador) do que propriamente um homem feminista. Porém, suas vivências da juventude no início dos anos 1900, nos quais o movimento feminista lutava por direitos das mulheres, influenciaram, de certa forma, a construção da personagem Mulher Maravilha e de sua figura forte, poderosa. E a fórmula deu certo.

A Mulher Maravilha nasce no contexto da Segunda Guerra Mundial, num momento em que as feministas, ainda articuladas, brigavam por contraceptivos, direitos abortivos e queriam negociar seus papeis numa economia dependente, cada vez mais, de suas forças de trabalho. Com seu visual peculiar – shorts azul estrelado e curto, botas vermelhas longas e bustiê com a água americana na frente – a heroína aparece nas capas dos gibis, que esgotavam em pouco tempo. Marston, com receio de potencial fracasso, assinava por meio de pseudônimo (Charles Moulton).

Numa entrevista em 1942, sobre o sucesso de vendas da Mulher Maravilha, Marston vai dizer que ela é um “modelo de feminilidade forte, livre e corajosa; para combater a ideia de que as mulheres são inferiores aos homens, e para inspirar meninas à autoconfiança e às realizações no atletismo, nas ocupações e profissões monopolizadas pelos homens” (Lapore, 2017, p. 271). É uma das primeiras menções à ideia de que, apesar de Diana Prince (identidade secreta da personagem) ser uma semideusa (filha de Zeus e de uma humana), ela precisava treinar atleticamente suas performances. O atletismo e uma série de outros esportes vão aparecer, portanto, nas histórias da Mulher Maravilha, entre os anos de 1941 e 1944.

Eis as origens atléticas da heroína, dentro da infinita criatividade de Marston, que entre correntes, atos de bondage (amarras), espancamentos, e toda uma sorte de aventuras inusitadas, fará um sucesso impressionante durante muitos anos. As revistas eram consumidas por todos, de crianças a adultos; e as histórias da Mulher Maravilha apareciam em múltiplos gibis ao mesmo tempo.

No sentido atlético, as mulheres que rondavam Marston o inspiravam. Holloway jogara hóquei na grama, e Byrne, basquete, durante os anos universitários. Alice Marble, uma editora adjunta que trabalhara com ele alguns anos, era exímia jogadora de tênis de campo. Com toda essa inspiração, Marston colocava Diana Prince, e também a Mulher Maravilha, em seus enredos para praticar algum esporte. Na segunda edição de outubro de 1942, segundo Lapore, chamada “The Earl of Breed” (O conde da cobiça), a heroína aparece num jogo de beisebol, fazendo um spectacular catch, ou uma recepção excepcional.

Mulher Maravilha

Fonte: Reprodução

Mulher Maravilha

Fonte: Reprodução

De acordo com várias outras tirinhas da Mulher Maravilha, em revistas próprias ou em jornais, ela aparece jogando tênis ou hóquei no gelo, fazendo natação, correndo ou ainda praticando mergulho autônomo. Numa das edições, antes ainda dela ingressar na Liga da Justiça da América (para compor com Batman e Superman o grupo dos Superamigos), a Mulher Maravilha funda uma academia de musculação.

Além disso, desde as edições de dezembro de 1941 a janeiro de 1942, nominadas Introducing Wonder Woman (Apresentando a Mulher Maravilha), as atividades sobre cavalos, os treinamentos físicos com outras Amazonas e mesmo as habilidades com o laço remetem ao ambiente silvestre de esportes equestres.

Mulher Maravilha

Fonte: Reprodução

Mulher Maravilha

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Mulher Maravilha

Fonte: Reprodução

Até 1947, ano da morte de Marston, a heroína viveu uma fase extremamente popular e ganhou a atenção e aderência do público, que a idolatrava junto a Batman e Superman. Estávamos ainda na denominada “Era de Ouro dos Quadrinhos” (1938-1950). Sem Marston, a Mulher Maravilha vai perder seus poderes, seus dotes atléticos, vai deixar suas ousadias de lado, não vai mais ser amarrada em correntes ou receber palmadas, além de ficar extremamente vulnerável aos homens. Lapore explica que uma onda conversadora e roteiristas de mentes obtusas se abateram sobre os gibis.

Na edição n. 97, de Wonder Woman (março de 1950), já roteirizada por Robert Kanigher, a personagem está numa “fase romântica” e é pedida em casamento por Steve Trevor. De acordo com Lapore: “A Mulher Maravilha virou babá, modelo e estrela de cinema. Ficou louca para casar com Steve. Começou a dar conselhos às mal-amadas ao virar colunista de jornal, respondendo dúvidas de corações solitários” (2017, p. 332).

Mulher Maravilha

Fonte: Divulgação

Essa fase vai durar muito tempo e apenas nos anos 1970, que iniciaram sobre forte influência dos ventos da “Revolução Sexual” da década anterior, a heroína vai ser revitalizada. Uma edição famosa da Mulher Maravilha, em 1973, coloca-a como candidata a “presidenta” dos EUA. Para Lapore,

“ao colocar a Mulher Maravilha na corrida presidencial, as editoras da Ms. tentavam conquistas terreno político: teriam uma revista politizada. Também queriam fazer uma ponte entre o feminismo dos anos 1910 e o feminismo dos anos 1970 com a Mulher Maravilha dos anos 1940, o feminismo de suas infâncias” (2017, p. 348).

Parte desta história mais recente de sucesso, eu acompanhei. Lembro-me do fantástico seriado The New Original Wonder Woman (A nova Mulher Maravilha original), estrelada por Lynda Carter, vedete de concursos de beleza em território estadunidense e que representara os EUA no Miss Mundo, em 1972. Em minhas fantasias infantis, minhas professoras mulheres tinham algo de Diana Prince e eu imaginava muitas delas se transformando em Mulheres Maravilhas, quando deixavam seus trabalhos nas escolas. O prazer de assistir ao seriado é uma sensação que carrego até hoje.

O resto da história da Mulher Maravilha talvez todos saibam. Ela completa 70 anos em 2021 e, desde 2017, tem aparecido mais nas mídias por causa da tremenda repercussão do primeiro filme Wonder Woman (Mulher Maravilha), dirigido por Patty Jenkins, produzido pela DC Comics e distribuído pela Warner Bros. Ano passado foi lançado um segundo filme, que acabou estreando em cinemas e serviços de streaming apenas recentemente por causa da pandemia.

Quanto ao livro de Jill Lapore, apesar de seu percurso tortuoso e da profundidade das histórias que se entrelaçam, recomendo-o e deixo abaixo sua referência, para quem tiver interesse.

 

Referências

LAPORE, Jill. A história secreta da Mulher Maravilha. Trad. Érico Assis. 2ª edição. Rio de Janeiro: Best Seller, 2017. 480 pg.


Como citar

CAMARGO, Wagner Xavier de. Origens atléticas da Mulher Maravilha. Ludopédio, São Paulo, v. 140, n. 45, 2021.