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Os 60 anos do título de 1958. E como jogava o primeiro Brasil campeão

Guilherme Eler

Após cinco participações em Copas do Mundo, o melhor resultado do Brasil no torneio representava, também, o momento mais amargo da história do futebol nacional. Precisando de apenas um empate para se sagrar campeã do mundo em 1950, a seleção brasileira deixou a chance escapar enquanto jogava em casa, assistida por mais de 170 mil torcedores.

O “Maracanazo”, nome dado à derrota por 2 a 1 para o Uruguai na primeira Copa disputada no Brasil, ainda assombrava os jogadores mesmo após o mundial de 1954, na Suíça. A eliminação nas quartas-de-final para a Hungria de Ferenc Puskás e Sandor Kocsis contribuiu para que o jeito brasileiro de encarar o esporte começasse a ser questionado.

A capacidade de improviso e o talento individual com a bola nos pés não valiam mais, na metade do século 20: o modelo a ser copiado, defendiam comentaristas nacionais, era o apresentado por seleções europeias, de intensa disciplina tática.

A geração de Didi, Nilton Santos, Garrincha e Zagallo, porém, subverteu essa lógica. Contando com o talento incomum de Pelé que, aos 17 anos, estreava em Copas, a equipe comandada pelo técnico Vicente Feola marcou época. No dia 29 de junho de 1958, após Uruguai, Itália e Alemanha, o Brasil entrava no rol de campeões mundiais.

A trajetória do Brasil no torneio

A seleção que ganhou o mundo ficou marcada por uma proposta diferenciada de ocupação dos espaços no campo. O esquema, conhecido como 4-2-4, levava vantagem em relação ao modo mais comum de jogar à época.

Com quatro defensores, o Brasil passou a adotar também quatro jogadores à frente, ao invés de três, surpreendendo defesas montadas com três zagueiros. Pelé tinha maior mobilidade para flutuar frente aos atacantes, como verdadeiro armador do Brasil. Quando o jovem ponta-de-lança avançava, cabia a Zagallo, ponta-esquerda, fazer o trabalho de recomposição defensiva.

O Brasil estreou no torneio vencendo a Áustria com certa facilidade. Mazzola, autor de dois gols, e Nilton Santos definiram o placar em 3 a 0. No jogo seguinte, contra a Inglaterra, brasileiros e britânicos protagonizaram um empate sem gols.

Nenhum dos jogos contou com a presença de Pelé, que se recuperava de uma lesão sofrida em partidas preparatórias do mundial. O retorno do jovem, titular absoluto na posição de ponta de lança, se deu no jogo contra a União Soviética. A última partida da fase de grupos foi definida em uma vitória por 2 a 0 – ambos os gols feitos pelo ponta Vavá.

Líder do grupo, o Brasil avançou à fase mata-mata do torneio para enfrentar o País de Gales, nas quartas de final. Foi quando Pelé se mostrou decisivo pela primeira vez, marcando o único gol da partida.

“Não sabíamos nada sobre ele. Os dois em que estávamos focados eram Garrincha e Didi. Esse jovenzinho de 17 anos, que jogava pelo Brasil… quem era? Não conhecíamos. Mas descobrimos. Não era preciso ser um expert para saber, com meia hora de jogo, que aquele garoto era muito especial.”
Cliff Jones, meio-campo da seleção do País de Gales, falando sobre Pelé na Copa de 1958

No jogo contra a França, melhor ataque do torneio, com 25 gols, o Brasil goleou. O placar de 5 a 2 foi construído com três gols de Pelé, que se tornaria vice-artilheiro do mundial de 1958, com seis gols em quatro partidas. A defesa brasileira foi eleita a melhor do mundial, levando apenas quatro gols.

O placar da semifinal contra a França foi repetido na final, contra a Suécia. Após os donos da casa abrirem o placar com quatro minutos de jogo, dois gols de Vavá viraram a partida para os brasileiros.

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Seleção brasileira comemora o título da Copa de 1958. Foto: Wikipédia.

Aos dez minutos do segundo tempo, Pelé matou a bola no peito dentro da área. Com um chapéu sobre o zagueiro Gustavsson e um chute preciso no canto esquerdo de Svensson, goleiro sueco, o maior jogador da história anotou um dos gols mais bonitos da carreira.

Após os gols de Zagallo e Simonsson, para os suecos, o garoto do Santos FC marcou mais uma vez, dando números finais à partida. “Após o quinto gol, não queria mais marcar Pelé. Queria aplaudí-lo”, chegou a declarar Sigge Parling, meio-campo da Suécia na partida. O jogo completo está disponível no vídeo abaixo.

A exibição brasileira no Estádio Rasunda, em Estocolmo, fez o rei sueco Gustavo VI cumprimentar todos os jogadores após a partida. “Você me viu junto do rei da Suécia? “Eu apertei a mão do rei”, disse Pelé, por rádio, a seu pai, dias depois da conquista.

Sem transmissões ao vivo pela TV, os brasileiros só assistiam a trechos das partidas do mundial da Suécia dias depois de acontecerem. Para acompanhar em tempo real, era comum que as pessoas se reunissem em praças para ouvir em alto-falantes a cobertura feita pelo rádio.

Isso mudaria na Copa de 1966, quando algumas localidades já conseguiram acompanhar o mundial em preto e branco, com um delay menor. A conquista do tricampeonato, em 1970, foi a primeira vista a cores no Brasil.

Copa do improviso

Segundo a CBF (Confederação Brasileira de Futebol), o mundial de 1958 marcou a primeira vez que a seleção nacional adotou numeração diferente da tradicional em jogos oficiais. Até então, jogadores brasileiros sempre entravam em campo com camisas que seguiam uma mesma lógica: o goleiro vestindo a de número 1, o lateral-direito com a 2 e os zagueiros centrais com 3 e 4, por exemplo.

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Obra que integra o acervo do Museu Paulista da USP. Coleção Werner Haberkorn – CHW.

O motivo da troca nunca foi totalmente esclarecido. A versão oficial, porém, conta que a relação da numeração dos jogadores não foi enviada à Fifa em tempo hábil. A entidade, assim, tratou de distribuir as camisas arbitrariamente.

A escolha fez Zagallo trocar de camisa com Garrincha: Mané, que habitualmente vestia a 7, teve de usar a 11. Outras mudanças pouco usuais envolveram o goleiro Gilmar, que jogou com a número 3, e o zagueiro reserva Zózimo, a quem foi confiada a camisa 9, típica dos atacantes. Didi, eleito o jogador do torneio e que jogava com a 8 no Botafogo, ficou com a 6. Vavá, vice-artilheiro do Brasil na competição, com cinco gols, tinha a 20 às costas.

O confronto contra a Suécia, na final, fez o Brasil improvisar também seu uniforme. A camisa azul, utilizada até hoje como opção reserva em jogos oficiais, teve de ser costurada às pressas. “Falaram que era o manto de Nossa Senhora, para quebrar aquela coisa de azar com a cor da camisa. Foi azul porque a Suécia jogava com camisa amarela. A camisa foi feita lá. Apenas o bordado foi tirado e colocado de improviso. Acabou sendo uma alegria para nós”, disse Zagallo, em entrevista à Rede Globo.

Qual o tamanho da conquista

O título de 1958 iniciou a era mais longeva de uma seleção sob domínio do futebol a nível mundial. Até 1970, foram mais duas conquistas, tornando o Brasil o primeiro tricampeão do mundo.

Junto do esquadrão de 1970, a seleção de 1958 é considerada a mais talentosa geração brasileira. Jogadores como Pelé, Didi e Garrincha, grandes nomes do futebol da época, estiveram presentes também em conquistas posteriores. Zagallo, titular na primeira campanha vitoriosa do Brasil, se tornou o primeiro atleta da história a ser campeão mundial como jogador e técnico.

A afirmação do Brasil a nível mundial, além da vitória do improviso, serviu para tirar o estigma sobre atletas negros e mestiços. A seleção multiétnica, agora campeã mundial, fez com que a miscigenação deixasse de ser tratada como um “problema”, afastando, ainda que temporariamente, o complexo de vira-lata dos discursos da imprensa brasileira da época.

nexo_jornal_logo-600x152-minEste texto é uma republicação de artigo publicado no site Nexo Jornal.