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Os Brasis de João Cabral de Melo Neto e Nelson Rodrigues entre a crônica, a poesia e o futebol

Carlos Beto Abdalla
Nelson Rodrigues

Nelson Rodrigues. Foto: Wikipédia

O brasileiro, nas palavras de Nelson Rodrigues, era um “narciso às avessas”, dotado de um complexo de vira-latas, complexo de inferioridade que valorizava tudo que era estrangeiro e depreciava as coisas nacionais. Um caminho dual pessimismo/otimismo é estabelecido pelo jogo, pelo futebol e caracteriza um processo de longa duração que pode ser observado das Copas de 50 a 70, da trágica derrota pra o Uruguai no Maracanã (1950), ao ápice das vitórias.

A hipótese então é a importância do futebol como elemento constitutivo da identidade brasileira a partir da tragédia de 1950 e a redenção com a conquista da Copa de 58 e os posteriores títulos em 1962 e 1970 que se destaca o jogo de construção de identidades do imaginário futebolístico através das crônicas rodrigueanas nas obras A Pátria de Chuteiras e À sombra das chuteiras imortais traçando um paralelo com os poemas cabralinos sobre futebol, contidos em Museu de Tudo (1966-1974).

Com base em duas noções específicas encontradas em obras dos autores João Cabral de Melo Neto e Nelson Rodrigues, a saber, o projeto estético cabralino e aquilo que se define na fortuna crítica como “antilírico” ou “lírica da razão” em sua poética, visualizamos o dualismo presente em Cabral pelo jogo entre lírico e antilírico destacados aqui na arquitetura de sua memória futebolística, e um paralelo entre o dualismo histórico pessimismo/otimismo representado na crônica de Nelson Rodrigues.

Trata-se de um recorte político-cultural que visa, sobretudo, entender por via da literatura futebolística e seus discursos, a leitura possível de como essas engrenagens culturais puderam instaurar no seio da consciência do povo brasileiro, uma visão tanto otimista quanto pessimista sobre si mesmo e sobre o próprio país. Nesse sentido, os repertórios discursivos nas crônicas de Nelson Rodrigues transmitem uma condenação ao pessimismo que, segundo o autor, se engessa a partir da perda do título na Copa do Mundo de 1950; em 1958, o país tende a uma transformação com vias para um otimismo calcado na confiança de um futuro pleno, quase mítico das questões nacionais, arte, cultura, política, economia.

Afinal, quando se pensa em longa duração, o otimismo pode ser visto como um fenômeno de ordem mítica (quando se ampara, por exemplo, nas “virtudes inatas” do brasileiro ou no “destino de grandeza” do Brasil). Entretanto, em sua trajetória de ressignificação, adquire por vezes um caráter imaginário (quando novos significados são atribuídos a uma dada estrutura de significação) ou ideológico. Todas essas dimensões se interpenetram. (Fico, 1997. p. 19)

Nas obras A Pátria de Chuteiras e À sombra das chuteiras imortais podemos observar não só a paixão do autor pelo futebol, mas como o futebol em seus textos escapa a um domínio pessoal, elevando-se a uma categoria institucional e formadora da cultura e do povo brasileiro. As crônicas de Nelson Rodrigues possuem um caráter de definição da “alma” brasileira em torno do futebol, celebrando de maneira otimista a superação de um povo de espírito envergonhado, derrotista, para um povo vencedor e confiante em si mesmo em todas as esferas da vida, espírito esse, que seria transformado pelas conquistas da seleção brasileira. Rodrigues (1993) escreve quando da conquista do primeiro título mundial:

“Dizem que o Brasil tem analfabetos demais. E, no entanto, vejam vocês: — a vitória final, na Copa da Suécia, operou o milagre. Se analfabetos existiam, sumiram-se na vertigem do triunfo. A partir do momento em que o rei Gustavo da Suécia veio apertar as mãos dos Pelés, dos Didis, todo mundo aqui sofreu uma alfabetização súbita. Sujeitos que não sabiam se gato se escreve com “x” iam ler a vitória no jornal. Sucedeu essa coisa sublime: — analfabetos natos e hereditários devoravam vespertinos, matutinos, revistas e liam tudo com uma ativa, uma devoradora curiosidade, que ia do “lance a lance” da partida até os anúncios de missa. Amigos, nunca se leu e, digo mais, nunca se releu tanto no Brasil”. (p.72)

Essas crônicas esportivas, relacionadas aos objetos futebolísticos (poemas) cabralinos, nos insere em um campo historiográfico capaz de enriquecer a interpretação e o alcance do poema enquanto objeto de historicidade. A crônica surge como base da interpretação temporal do poema e daquilo que fala o poema. Entendimento do contexto histórico e da representação quando comparado ao objeto poético cabralino, no caso, o futebol. A partir da comparação entre a crônica e o poema, estabelecidas as respectivas conexões de tema e objeto entre eles, vemos com maior clareza a construção imagética de João Cabral de Melo Neto, entendendo que na crônica encontramos uma linha narrativa que configura aquilo que pode ser hermético no poema. As crônicas para comparação referem-se às temáticas dos poemas aqui citados, contemporâneas a eles.

João Cabral de Melo Neto. Foto: Wikipédia

Cabe destacar, de maneira objetiva, que no projeto poético de João Cabral de Melo Neto o futebol é um fenômeno em que o poeta enxergava modos de criação artística. Assim como o pintor, o arquiteto, o engenheiro e o poeta, João Cabral mostra que o jogador/atleta é também um artista, mas não por exaltação simples de um esporte que admira por gosto particular, mas por uma poética que ressalta a plástica da imagem.

O poeta pernambucano mostra que não são as sensações transmitidas pelo objeto que importam e sim a própria configuração referencial daquilo que se vê como fenômeno. É isso que faz do jogador de futebol, também, um artista, sua engrenagem imagética e plástica, que quando inserida no projeto poético cabralino, faz de sua lógica, uma Ética. A obra Museu de Tudo parece abarcar todo projeto poético cabralino nesse sentido, podemos observar as referências à criação, ao racionalismo, à pintura, à memória e à história, ao humano, ao Recife, entre outras.

A ética representativa da poiesis cabralina, para além das esferas da criação artística, nos remete a uma sociologia do brasileiro. É na contemplação daquilo que possui de único sua poesia, no pensar o homem e as coisas que, inseridos em um antilirismo, podemos vislumbrar nossa condição histórica. O futebol é um desses detalhes extraordinários da vida brasileira, apenas um detalhe da poesia e da vida de Cabral e onde

“a verossimilhança temporal paralela ao “constructo” narrativo só pode adquirir validade quando a representação da experiência temporal produz um sentido de orientação da vida prática dos narradores e é nesse caráter estético que o passado adquire o estatuto de história e onde Droysen afirma que a “narrativa histórica” “faz”, dos feitos do passado, a história para o presente”, e esse fazer corresponde à designação de poiesis no grego”. (Rüsen, 2001. p. 155. Grifos do autor).

Os caminhos para a compreensão de um espírito nacional, aqui estudados pela via da poesia cabralina e pelas crônicas de futebol rodrigueanas, são profundos. Essas temáticas que se unem aqui, estão imersas na discursividade complexa do que definimos como poética e naquilo que o poético tem de profundo enquanto produtor de sentido, seja esse sentido estético ou histórico. Com Foucault (2001) podemos pensar a representatividade discursiva do “nome” do poeta aqui analisado: “No estatuto que se dá atualmente à noção de escrita, não se trata, de fato, nem do gesto de escrever nem da marca (sintoma ou signo) do que alguém teria querido dizer; esforça-se com uma notável profundidade para pensar a condição geral de qualquer texto, a condição ao mesmo tempo do espaço em que ele se dispersa e do tempo em que ele se desenvolve.” (p. 270)

Um caminho de análise que podemos percorrer para dar sentido à representação do futebol na poesia de Cabral estabelece alguns detalhes fundamentais, entre eles destacamos o histórico, compreendendo que a importância que o projeto cabralino possui para a poesia moderna é sua posição apenas temporal em relação à Geração de 45, dada a maneira como seu antilirismo é revelador de uma poesia crítica da sociedade e da cultura brasileira, assim como do próprio poeta criador e espectador do processo histórico vivido.

Em seu livro Museu de Tudo, vemos um pouco de sua paixão e admiração pelo futebol em quatro poemas como: “O torcedor do América F.C.”; “Ademir da Guia”; “A Ademir Meneses”; “O futebol brasileiro evocado da Europa”, nesta sequência. O projeto cabralino, já consolidado na obra Educação pela Pedra, se revela agora, em Museu de Tudo, ampliado a vários campos da vida social e artística, com forte caráter autobiográfico. A autobiografia na poesia cabralina inscreve o homem singular, individual, no homem social historicizado, cuja origem aristocrática é matizada pela função social de “escrivão” do seu lugar. (Oliveira. 2012)

A crítica literária tende a se posicionar mediante o projeto poético cabralino evidenciando sua relação com a tradição lírica e sua proposta de negá-la através de uma poesia de construção e valorização da lucidez. Nessa espécie de extensão objetiva da lírica, o poeta irá problematizar a própria relação mediadora entre a poesia e a realidade. A riqueza poética de João Cabral de Melo Neto também está concentrada no trabalho da imagem poética aliado à disposição do poema, sua forma e organização sistemática do sentido enquanto expressão do fenômeno e não do eu-lírico e sua subjetividade. Como engenheiro da criação poética, João Cabral mostra o domínio da coisa em si como fenômeno aos olhos do poeta. Não antes, nem depois, este domínio é o que está na “presentificação” do processo de composição. É a composição que orienta o destinatário. (Barbosa. 1986. p.75)

Em Cabral, é sempre nítida a ideia de extremos, o gosto dos extremos, no retrato do jogo e dos jogadores sempre há uma polaridade que constitui a composição e sustenta a imagem, a forma. Vejamos o primeiro poema acerca do futebol encontrado na obra Museu de Tudo:

O torcedor do América F. C.

O desábito de vencer

não cria o calo da vitória;

não dá à vitória o fio cego

nem lhe cansa as molas nervosas.

Guarda-a sem mofo: coisa fresca,

pele sensível, núbil, nova,

ácida à língua qual cajá,

salto do sol no Cais da Aurora.

(Melo Neto, 2008)

Este é um poema em que podemos observar a ideia do gosto dos extremos de Cabral. O poema possui oito versos sem divisão, sequenciais; há uma divisão temática nítida entre os primeiros quatro versos e os quatro últimos que remetem ao título de Morte e Vida Severina, a inversão da ordem do acontecimento, Vida e Morte para Morte e Vida. No poema em questão, os quatro primeiros versos são negativos. Observemos o primeiro “O desábito de vencer”, o prefixo “des” indicando a constância da derrota, os outros três versos já se iniciam então com os advérbios de negação. Ao mesmo tempo que nega a condição de vitória para o torcedor do América, lhe condiciona o costume da derrota e a tranquilidade de uma convicção das raras vitórias, podemos observar isso no quarto verso “nem lhe cansa as molas nervosas”.

A partir do quinto verso, somos conduzidos ao “novo”, determinados, é claro, pela convicção tranquila que representa a condição do torcedor no quarto verso e que abre espaço para esta outra configuração. A raridade da vitória, seu costume da derrota sem que essa derrota lhe canse as molas nervosas, o torcedor do América “Guarda-a sem mofo: coisa fresca”. No futebol isso é universal, os versos de Cabral se referem ao América F.C. do Recife, mas podem ser estendidos a todos os Américas brasileiros e clubes onde a tradição é alimentada pela grande paixão dos torcedores e não por títulos e conquistas. Isso é comum no futebol, a vitória aqui, neste poema, desponta fresca, sob “pele sensível, núbil, nova”, feminina, reservada como uma esposa para o casamento. No penúltimo verso, “ácida à língua qual cajá”, o desejo sensível, uma imagem que é diretamente sinestésica, que produz saliva refletindo desejo, a vitória como coisa nova e constante, para o torcedor que a guarda, sempre será um nascimento, “salto do sol no Cais da Aurora”.

Os dois poemas seguintes se referem diretamente à figura do jogador, a dois jogadores específicos, dois Ademir, o da Guia e o Menezes. Sigamos a ordem do livro Museu de Tudo, começando com Ademir da Guia.

Ademir da Guia

Ademir impõe com seu jogo

o ritmo do chumbo (e o peso),

da lesma, da câmara lenta,

do homem dentro do pesadelo.

 

Ritmo líquido se infiltrando

no adversário, grosso, de dentro,

impondo-lhe o que ele deseja,

mandando nele, apodrecendo-o

 

Ritmo morno, de andar na areia,

de água doente de alagados,

entorpecendo e então atando

 

o mais irrequieto adversário.

(Melo Neto, 2008)

Filho de Domingos da Guia, um dos maiores zagueiros do futebol brasileiro, jogador que atuou no futebol carioca, uruguaio e argentino nas décadas de 30 e 40. Ademir da Guia é considerado o maior jogador da história do Palmeiras, craque das décadas de 60 e 70, era o principal jogador do time palmeirense que ficou conhecido como A Academia. Ademir é o exemplo de um jogador clássico, com força e técnica. Em uma crônica do Jornal da Tarde em 1976, Nelson Rodrigues escreveu o seguinte sobre Ademir da Guia: “Que dizer de Ademir da Guia? É um dos mais brilhantes jogadores brasileiros de todos tempos. Todo mundo acha isso e confessa”.

Ademir da Guia.

Ademir da Guia. Foto: Wikipédia

Posso dizer que este poema de Cabral é o que mobilizou a ideia deste trabalho e a busca pela pesquisa sobre todo trabalho do poeta até agora. Não consigo ver uma descrição melhor e mais forte do que essa representação plástica de Ademir. A crônica esportiva da época considerava Ademir um jogador lento, era talvez o único defeito que tentavam apontar para Ademir, a verdade é que isso correspondia a uma falsa lentidão, Ademir conseguia ser um jogador que ostentava grande classe em sua postura, aliada a um vigor físico defensivo com técnica ofensiva, Ademir, a despeito da suposta lentidão, estava nos dois lados do jogo, o defensivo e o ofensivo.

João Cabral centraliza o tema do “ritmo” no poema, genial para a descrição do estilo de jogo de Ademir da Guia. A primeira estrofe parece remeter à representação física de Ademir, jogador forte e com classe, mas também à guerra, “o ritmo do chumbo (e o peso)”, antes disso, no primeiro verso, estabelece o domínio, “Ademir impõe com seu jogo”. Mais do que isso, o chumbo aparece em um primeiro momento como cor cinza, a noção de peso vem acrescida entre parênteses, essa cor parece remeter às imagens das transmissões televisivas da época, que não eram a cores. Extrapolando um pouco o recorte e dando uma visão muito particular do que a poesia me faz pensar, Cabral estabelece aí uma noção própria de memória futura, e um domínio absoluto da criação poética. Este poema tem sua grande força nesse verso, pois só pude ver as imagens de Ademir da Guia em campo, em reproduções caracterizadas por esta cor de chumbo, isso é marcante logo no segundo verso. A segunda estrofe oferece uma visão do domínio técnico do jogo, o controle do adversário pelo “ritmo líquido se infiltrando”, “impondo-lhe o que ele deseja”, “mandando nele, apodrecendo-o”.

O poema seguinte, A Ademir Meneses, é dedicado a um recifense. Ademir, conhecido como “Ademir Queixada”, é o maior artilheiro em uma edição de Copa do Mundo, marcou 9 gols na trágica Copa de 50. Analisemos o poema:

A Ademir Meneses

Você, como outros recifenses,

nascido onde mangues e o frevo,

soube mais que nenhum passar

de um para o outro, sem tropeço.

 

Recifense e, assim, dividido

entre dois climas diferentes,

ambidestro do seco e do úmido

como em geral os recifenses,

 

como você, ninguém passou

de dentro de um para o outro ritmo

nem soube emergir, punhal, do lento:

secar-se dele, vivo, arisco

(Melo Neto, 2008)

Nesse poema, a identificação conterrânea é imediata. Não só por Recife, mas na identificação com a mudança, retratada em toda segunda estrofe. Ademir Queixada sai do Sport Club do Recife para jogar no Vasco da Gama, no Rio de Janeiro. Torna-se então, um pernambucano radicado no Rio de Janeiro, como João Cabral e Nelson Rodrigues. Difícil não observar o gosto dos extremos nesse poema que se divide em três estrofes de quatro versos.

A primeira estrofe anuncia um recifense diferenciado dos outros conterrâneos, que passou do mangue pro frevo sem tropeço. A segunda estrofe, como já foi dito, estabelece uma relação entre um recifense dividido entre dois climas, no caso, o clima do Rio de Janeiro. O terceiro verso da segunda estrofe mantém a ideia das duas terras “seco e úmido” e a encaixa em uma característica do jogador, “ambidestro”. Ademir era conhecido por sua capacidade de avançar rápido pelas pontas da grande área e arrematar um chute certeiro, independente dos lados do campo.

Era um grande goleador, esteve presente nos dois primeiros títulos internacionais do futebol brasileiro na era profissional. Ganhou o Sul-americano de Clubes pelo Vasco em 1948 e a Copa América pela Seleção Brasileira em 1949. Apesar destes títulos importantes, ficou marcado pela tragédia brasileira de 1950, a derrota pra o Uruguai na final da Copa no Maracanã, Copa em que foi artilheiro.

Ademir de Menezes

Ademir de Menezes. Fonte: Wikipédia

E talvez a terceira estrofe do poema de João Cabral retrate isso em um paralelo com o poema do outro Ademir, vejamos: “como você, ninguém passou/de dentro de um para o outro ritmo/nem soube emergir, punhal, do lento:/secar-se dele, vivo, arisco”. (Melo Neto, 2008)

Ninguém como Ademir de Menezes passou de dentro de um ritmo para outro e nem soube emergir um punhal, do lento, o ritmo lento da poesia de Ademir da Guia, do jogo de Ademir da Guia, o “ritmo do chumbo (e o peso)”, “do homem dentro do pesadelo”, o pesadelo da tragédia de 1950, ou ainda, o “ritmo morno”, “de água doente de alagados”. Em um dos vários trechos que Rodrigues (1993) escreve sobre a tragédia de 1950, vale destacar esse pequeno trecho de uma crônica que antecipava o embarque da Seleção de 1958 que seria campeão na Suécia:

“Os jogadores já partiram e o Brasil vacila entre o pessimismo mais obtuso e a esperança mais frenética. Nas esquinas, nos botecos, por toda parte, há quem esbraveje: — “O Brasil não vai nem se classificar!”. E, aqui, eu pergunto: — não será esta atitude negativa o disfarce de um otimismo inconfesso e envergonhado? Eis a verdade, amigos: — desde 50 que o nosso futebol tem pudor de acreditar em si mesmo. A derrota frente aos uruguaios, na última batalha, ainda faz sofrer, na cara e na alma, qualquer brasileiro. Foi uma humilhação nacional que nada, absolutamente nada, pode curar. Dizem que tudo passa, mas eu vos digo: menos a dor-de-cotovelo que nos ficou dos 2 x 1. se o Brasil vence na Suécia, se volta campeão do mundo! Ah, a fé que escondemos, a fé que negamos, rebentaria todas as comportas e 60 milhões de brasileiros iam acabar no hospício. Mas vejamos: — o escrete brasileiro tem, realmente, possibilidades concretas? Eu poderia responder, simplesmente, “não”. Mas eis a verdade: — eu acredito no brasileiro, e pior do que isso: — sou de um patriotismo inatual e agressivo”. (Rodrigues, 1993, p.60-61)

No fim do poema A Ademir Meneses, “secar-se dele, vivo, arisco”, Cabral aqui coloca Ademir Queixada como alguém que superou a trágica derrota, por ser recifense e “ambidestro do seco e do úmido” no poema, e por ter sido artilheiro e campeão nos anos seguintes à tragédia real.

O quarto e último poema é:

O futebol brasileiro evocado na Europa

A bola não é inimiga

como o touro, numa corrida;

e embora seja um utensílio

caseiro e que não se usa sem risco,

não é o utensílio impessoal,

sempre manso, de gesto usual:

é um utensílio semivivo,

de reação própria como bicho,

e que, como bicho, é mister

(mais que bicho, como mulher)

usar com malícia e atenção

dando aos pés astúcia de mão.

(Melo Neto, 2008)

Há nesse poema um pleno destaque para o feminino. A bola representa o futebol, é seu instrumento, é semivivo, tem reações próprias de bicho, e é mais que bicho, uma mulher, é preciso malícia e atenção ao lidar com ela. Podemos ver nos primeiros versos que o futebol é passado como algo positivo, que deve ser valorizado, uma espécie de arte brasileira. O mais curioso neste poema é sua relação direta com um ensaio produzido por João Cabral em 1954 para o Congresso Internacional de Escritores, intitulado Como a Europa vê a América. O ensaio era uma resposta à tese do professor Roger Bastide, que enfatizava uma visão totalizante da Europa, visão que divide a América em duas, Saxônica e Latina, tendo na primeira um local de construção do humanismo e referência para os intelectuais europeus. “Não é só da uniformidade de opinião dos europeus em seu julgamento das Américas que fatos como estes nos levam a duvidar. Fatos como estes nos fazem ver com reserva a tese do prof. Bastide, segundo o qual a visão que o europeu tem, hoje em dia, da América Saxônica, está condicionada por uma atitude de defesa do humanismo, face ao maquinismo desumanizador.” (Melo Neto. 1998. p.93)

Por outro lado, Cabral mostra que na Espanha, conheceu dois tipos distintos de classe: a dos intelectuais e a dos trabalhadores, operários e gente do campo. Para Cabral estava claro que a concepção dos trabalhadores era mais condizente com a realidade. Para Cabral, o intelectual tinha uma visão aventureira dos primeiros séculos do descobrimento, em que a América valia como continente do enriquecimento rápido. O que é interessante nessa comparação do poema sobre o futebol evocado da Europa e o artigo sobre como a Europa vê a América, é justamente que a visão dos trabalhadores candidatos à emigração é distante de idealismos e eldorados americanos, possuem uma visão realista das condições de vida no Brasil, uma visão concreta, cita Cabral.  (Melo Neto. 1998. p.95-96)

Cabral finaliza o ensaio com a seguinte declaração sobre esses trabalhadores e emigrantes:

“É uma visão que se traduz em ação, desde o momento em que penetram, como imigrantes, na vida do país. Esses homens são, em geral, os que trazem na capacidade de suas mãos, os fatores que construíram a civilização europeia, e eles é que operam aquele transplantamento de que tanto se fala.” (Melo Neto. 1998 .p.96)

“A capacidade de suas mãos” dá ao trabalhador europeu o senso concreto de realidade e conhecimento, longe de eldorados e sonhos, e é aquilo que no poema que caracteriza e qualifica o nosso futebol, a capacidade de “usar com malícia e atenção” a bola, “dando aos pés astúcias de mão”, que leva o futebol brasileiro à sua evocação. É necessário meditar sobre isso quando Nelson se refere ao brasileiro como um “Narciso às avessas”. Podemos fazer um paralelo com determinada lógica cabralina ao valorizar o humano e sua poética pela imersão nas coisas de uma maneira própria e que constitui sua poética. Uma parte do espírito brasileiro deve ao futebol, a Nelson Rodrigues e a João Cabral essas referências.

João Cabral de Melo Neto

Estátua de João Cabral de Melo Neto em Recife. Foto: Wikipédia

Referências bibliográficas

BARBOSA, J. A. As ilusões da modernidade: notas sobre a historicidade da lírica moderna. São Paulo: Perspectiva, 1986.

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FOUCAULT, M. Ditos e Escritos III. Estética: literatura e pintura, música e cinema. (Trad. Inês Autran Dourado Barbosa). Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2001.

MELO NETO, J.C. Prosa. Rio de Janeiro: Nova fronteira, 1998.

MELO NETO, J. C. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2008.

MERQUIOR, J. G. Razão do poema: ensaios de crítica e de estética. (2ª.ed.) Rio de Janeiro: Topbooks, 1996.

OLIVEIRA, W. A. O gosto dos extremos: tensão e dualidade na poesia de João Cabral de Melo Neto, de Pedra do sono a Andando Sevilha. São Paulo: Edusp/Fapesp, 2012. 

RODRIGUES, N. À sombra das chuteiras imortais: crônicas de futebol. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

RÜSEN, J. Razão Histórica: teoria da história: fundamentos da ciência histórica; (trad. Estevão de Rezende Martins). Editora Universidade de Brasília, 2001.


Como citar

ABDALLA, Carlos Beto. Os Brasis de João Cabral de Melo Neto e Nelson Rodrigues entre a crônica, a poesia e o futebol. Ludopédio, São Paulo, v. 142, n. 4, 2021.