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Os Campeões do Gelo: memória, esquecimento, silêncio

Thiago Carlos Costa

A problematização da construção simbólica e histórica em torno da campanha dos “Campeões do Gelo”[1] faz-se relevante neste trabalho na medida em que a mesma é citada no atual hino do Clube Atlético Mineiro[2]. Ainda que a letra do hino do clube seja cantada de cor por torcedores de diferentes gerações, poucos desses torcedores sabem o significado mais completo dessa excursão pelos campos europeus. Essa relevante campanha esportiva, citada pelo compositor Vicente Motta no hino atleticano, provoca as mais ambivalentes leituras dos torcedores, cronistas esportivos e demais pessoas envolvidas e interessadas no futebol. Registrada com o orgulho pelos atleticanos e alvo de teorias jocosas de seus rivais, essa excursão possui uma teia de significados e potenciais de interpretação de como a disputa pela memória clubística transcende o campo de jogo e atravessa o tempo. Nesse sentido, é relevante ressaltar como os conceitos de tempo e memória são caros para o futebol, seja para o reconhecimento e preservação dos personagens e conquistas, seja para o esquecimento e silenciamento dos mesmos.

O presente texto visa apresentar e analisar a trajetória do Clube Atlético Mineiro, entre outubro e dezembro de 1950, pelos campos europeus, campanha esta que ficou conhecida popularmente como “Campões do Gelo. Duas das principais fontes de pesquisa para este texto são o diário de viagem de José do Patrocínio (Zezinho)[3], um dos atletas da delegação atleticana, e o depoimento de Vavá (Valter José Pereira)[4], último membro vivo dessa delegação. Os relatos  são ricos testemunhos dessa excursão, possibilitando a observação de aspectos esportivos, culturais, sociais e memorialísticos do evento. Muito provavelmente essa foi umas primeiras excursões de um time profissional do Brasil pela Europa, atividade que se tornou muito comum entre as décadas de 1960 e 1980.

Para se amplificar a leitura e análise dessa campanha dos “Campeões do Gelo”, vale destacar os contextos esportivos e históricos em que ela se deu. No contexto histórico, em julho de 1950, a seleção brasileira foi derrotada pela seleção uruguaia em pleno Maracanã pela final da Copa do Mundo, trauma devastador no âmbito esportivo brasileiro. Outro aspecto relevante para se destacar era que o centro futebolístico brasileiro prioritariamente passava pelos times de Rio de Janeiro e São Paulo. Então, por que motivo um time mineiro representaria o Brasil em uma excursão que viraria uma turnê pelos campos europeus? As explicações são variadas, mas nada consistente. A teoria mais difundida sugere que os times de Rio e São Paulo não embarcaram nessa excursão justamente em função do trauma causado pela final da Copa de 50. O jornalista e dirigente Canôr Simões, que trabalhou como representante da Federação Mineira de Futebol na sede da CBD no Rio de Janeiro, costuma ser citado como articulador da escolha do Atlético para esta excursão. A Canôr Simões também é atribuída a escolha de Belo Horizonte como umas das sedes da Copa de 1950. No contexto histórico, a Europa vivia uma fase de reconstrução física, econômica e simbólica, particularmente a Alemanha, onde ocorreu a maior parte dos jogos dessa campanha.

Delegação do time atleticano disposta sobre o campo de jogo coberto de neve.

Delegação do time atleticano disposta sobre o campo de jogo coberto de neve.

A excursão do time atleticano se iniciou em 23 de outubro com o embarque da delegação composta de 23 pessoas e se encerrou em 17 de dezembro daquele mesmo ano. A delegação do time mineiro teve a seguinte composição; Jogadores: Kafunga, Mão de Onça (Goleiros); Afonso, Oswaldo, Juca, Moreno, Vicente, Zé do Monte, Haroldo, Barbatana, Vicente Perez, Márcio (Defesa e Meio-Campo); Lucas, Lauro, Zezinho, Alvinho, Vavá, Nívio, Vaguinho, Murilinho (Atacantes). Técnico: Ricardo Diez; Médico: Abdo Arges; Chefe da Delegação: Domingos D`Angelo (acompanhado da esposa, Celeste); Jornalistas: Francisco Américo, do Diários Associados, e Álvares da Silva, da revista O Cruzeiro. Na Europa a intérprete Teodora Breickport se juntou à delegação e a acompanhou na excursão. Pelos campos europeus o clube disputou dez jogos, conquistando seis vitórias, empatando por duas vezes e perdendo mais duas vezes. No total, o time marcou vinte e quatro gols e sofreu dezoito. Os artilheiros da excursão foram Vaguinho e Lucas Miranda, cada um com seis gols. Segue abaixo uma tabela dos jogos:

DATA              PARTIDA LOCAL
01/11 Atlético 4 x 3 Munique 1860 Munique (Alemanha)
04/11 Atlético 4 x 0 Hamburgo Hamburgo (Alemanha)
05/11 Atlético 1 x 3 Werder Bremen Bremen (Alemanha)
12/11 Atlético 3 x 1 Schalke 04 Gelsenkirchen (Alemanha)
16/11 Atlético 0 x 3 Rapid de Viena Viena (Áustria)
20/11 Atlético 2 x 0 Sarrebruk Sarrebruk (Alemanha)
22/11 Atlético 2 x 1 Anderlecht Bruxelas (Bélgica)
26/11 Atlético 3 x 3 EitreichtBrauschweig Brunswick (Alemanha)
05/12 Atlético 3 x 3 Seleção de Luxemburgo Luxemburgo
07/12 Atlético 2 x 1 StadeFrançais Paris (França)
Cartaz austríaco anunciando a partida entre o Atlético e Rapid de Viena. No centro da imagem observa-se o jogador atleticano Alvinho.

Cartaz austríaco anunciando a partida entre o Atlético e Rapid de Viena. No centro da imagem observa-se o jogador atleticano Alvinho.

Segundo os registros narrados por Vavá e Zezinho, a excursão duraria até o janeiro de 1951, mas o descontentamento com o empresário e jornalista alemão EldKaltenecker, que viabilizou a ida do time mineiro para a Europa. O longo período fora do Brasil e a proximidade das festas de final de ano pesaram para o fim da excursão. Umas das peculiaridades mais marcantes dessa excursão foi o desfecho da mesma: um desentendimento entre os dirigentes mineiros e os empresários europeus resultou em um prejuízo para o time mineiro, que ficou sem boa parte do cachê da turnê e precisou recorrer à embaixada brasileira em Paris para retornar ao Brasil.

Na Europa, a excursão vitoriosa do time foi batizada pela crônica esportiva como “Campeões do Gelo”, uma analogia que destaca o fato de várias partidas terem sido disputadas sob o rigoroso inverno europeu. Ao longo dessas dez partidas foram entregues alguns troféus alusivos às disputas. Esses troféus estão expostos na sede do clube. Atualmente, esta excursão está envolta em uma espécie de penumbra da memória: os protagonistas que sobraram não têm voz, o relato do evento não é difundido institucionalmente e a construção simbólica do evento fica fragilizada entre o acontecido e o não acontecido. Vale lembrar que o tempo e a história no futebol são palco de disputas simbólicas, o campo de disputa simbólico na rivalidade clubística é travado no presente com argumentos que transitam entre o passado e o presente. Portanto, esse embate pelo domínio da memória, particularmente no futebol, depende de como a instituição esportiva trata sua própria história e a construção de sua memória, forjando assim a imagem que deseja dela mesma. Nos rastros das produções de discursos sobre essas rivalidades encontram-se os pesquisadores e os lugares da memória.

[1] http://www.rsssf.com/tablesa/atleticomg-trip50.html

[2] Disponível em http://www.atletico.com.br/clube-atletico-mineiro/historia/#hinos. Acesso em 13/07/2015.

[3] VIEIRA, José do Patrocínio. Diário de um craque. Sabará: Gráfica Borges, s/d.

[4] Para mais ver: http://www.mg.superesportes.com.br/app/noticias/futebol/atletico-mg/1,9,1,522/2015/03/31/se-noticia-por-onde-anda,306961/unico-remanescente-do-time-campeao-do-gelo-vava-revela-frustracao-e-cobra-reconhecimento.shtml