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Os deuses do futebol

Guilherme Trucco

Uma constatação bastante óbvia: o futebol, meus amigos, é jogado com os pés. Parece coisa pouca, mas não poderia estar mais longe disso. Esse fato tão explícito esconde todos os segredos do seu encantamento. Mais ainda. Esse detalhe gritante explica muito do porque o futebol está entranhado em nós, brasileiros. Todos nós. Não é exagero.

Perceba. As mãos nos diferenciam. São precisas. Polegar opositor. Com elas somos capazes das maiores destrezas específicas. Com elas, inclusive, temos as nossas primeiras relações com a abstração da matemática. Contamos até cinco. Número ímpar. Diferenciado. Tecnologia dos dedos, ou melhor, digital. Não fossem elas, estaríamos pastando, ruminando, como quadrúpedes. Pela lógica, se quisermos manusear algo com precisão, digamos, uma bola, o certo, o correto, o fácil, seria usar as mãos.

O futebol, meus amigos, é jogado com os pés. Aliás, podemos usar qualquer parte do corpo, menos elas, as mãos. “Ah, então o futebol nos aproxima dos animais.” Irá concluir o atento leitor. No que eu contestarei: você esvazia o futebol como se destapasse o ralo do oceano.

No terrão. Foto: Felipe Barros.

Sim, é inegável. Ao negarmos as mãos, nos aproximamos dos animais. Mas repare. Jogamos fora tudo o que é precisão. Damos espaço para o improvável, o desperdício, o ineficiente. Daí que no futebol, o último colocado pode ganhar do primeiro da tabela. Daí que se abrem as portas para o improviso, o mágico, o espiritual. Trocando em miúdos: para os deuses do futebol.

Segundo Neném Prancha, se macumba ganhasse jogo, o campeonato baiano terminaria empatado todos os anos. É verdade. Mas o que antes se classificava como “caixinha de surpresas”, e hoje, mais pragmáticos, acostumamos a falar em “… decidido nos detalhes”, é a capacidade de uma bomba santa, um gol espírita, mudar completamente um jogo.

Detalhes. Frestas. Miúdos. Esquinas. O futebol, e só ele, tem esse espaço dilatado onde tudo pode acontecer. Em segundos um jogo inteiro se altera. Coisa dos deuses mesmo. Exu acertou o pássaro ontem com a pedra que jogou hoje. Um pombo sem asa, onde a coruja dorme.

Qualquer outro esporte é mensurado ponto a ponto. Segundo a segundo. São meritocráticos. O futebol não. Porque é jogado com os pés, torna-se indefinível, controlável apenas pelos deuses do futebol, pelo sobrenatural, e encarnado pelos sensitivos da bola.

Sim, ele nos aproxima dos animais. Nos aproxima, pés no chão, dos conhecimentos mais antigos do homem. Enquanto o futebol inglês, industrial, buscava no futebol, e em todos os demais esportes, o civismo, o fair play, o mens sana in corpore sano, características aristocráticas dignas de um sportsmen, o futebol brasileiro digeriu em clara antropofagia, e devolveu o lúdico e desimportante. Nos apropriamos com destreza de tudo o que está abaixo da cintura. Aquela região tabu, casta, proibida para o catolicismo e protestantismo acima da linha do equador.

Nosso pensamento crítico “intelectual”, estruturalmente condicionado pela normatização ocidental, julga este tipo de conhecimento, de cultura, como algo inferior, ou mesmo burro. O sujeito não tem nada na cabeça. Ou pior ainda, aquele racismo estruturalíssimo: o negro só é bom nas coisas do corpo, no esporte. Poderia ficar preso nessa normatização, e rebater esse preconceito citando intelectuais negros, como Conceição Evaristo, Machado de Assis, Chimamanda, Lima Barreto, ou Kalaf Epalanga, pra ficar no clichê. Mas essa não é a questão. Estaria desviando do ponto nevrálgico que gostaria de chegar.

Essa normatização do que é “inteligência”, do que é “cultura”, do que é “conhecimento”, nos impede de dizer de forma clara: o conhecimento antigo, do corpo, da terra, do encantamento mágico, é tão válido quanto o a intelectualidade ocidental, ou até superior. Diria que são complementares. Mas é conhecimento tanto quanto, esse é o ponto.

Como diz o historiador Luiz Antonio Simas:

“Nosso racismo epistêmico, no fundo não reconhece esses saberes como sofisticados, mas apenas como peculiares ou folclorizantes. Somos herdeiros de mentalidades decapitadas, as tradições ocidentais cultivam há tempos a má sorte de ter a cabeça deslocadas dos corpos. Não reconhecemos e muito menos credibilizamos as perspectivas advindas do corpo. Para o modelo de saber que tem cabeças e corpos seguindo caminhos distintos, o corpo é meramente campo a ser disciplinado e normatizado sobre a vigilância do pecado.”

E ainda “Precisamos urgentemente redescobrir o corpo como suporte de memórias e de muitos outros saberes.”

Religiosidade e futebol. Foto: Caique Bouzas/Divulgação.

Pois quando digo que o futebol é jogado com os pés, vocês ainda acham pouco. A conexão é entranhada com a espiritualidade brasileira. Com os corpos brasileiros. Com o sofisticado saber sincrético e mestiço brasileiro. É indissociável. Somos o país do futebol, e Deus é sim brasileiro. Antes de terminar, uma rápida enquete: o texto abaixo, do sociólogo alemão, que viveu anos no Brasil, Anatol Rosenfeld, descreve uma partida de futebol, ou uma sessão de candomblé?

“Chão de terra batida. Cercados por uma plateia, as pessoas no centro do terreno, mais ou menos retangular, de pés descalços, dançam ao som de cantoria e tambores. O local é enfeitado com papel colorido, estandartes e bandeirolas. As danças envolvem uma trave central, que se levanta do chão em direção aos céus, conexão com os deuses.

É dia de festa. Centenas de fiéis reúnem-se, enquanto os atrasados se amontoam por fora nas portas e janelas. O ritual destina-se à comunicação com os deuses. Atraídos pelo chamado retumbante e irresistível dos atabaques ritmicamente repercutidos.

Cada deus é honrado, um a um, com cânticos próprios, e executa sua dança, conforme a mitologia. Mito e ritual se implicam mutuamente, estão intimamente entrelaçados.

A função do êxtase é da completa transformação da pessoa. Operários que devem, durante toda a sua vida, apenas obedecer, tornam-se deuses que, magnificamente trajados, provocam a veneração da multidão.”

Como diria Roberto DaMatta, meus amigos, a bola corre mais que os homens.

Referências

SIMAS, Luiz Antonio; RUFINO, Luiz. Fogo no mato: a ciência encantada das macumbas. Mórula, 2018.

ROSENFELD, Anatol. Negro, macumba e futebol. São Paulo: Perspectiva, 1993. Série Debates.

DAMATTA, Roberto. A bola corre mais que os homens. Rocco, 2006.