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Os Diabos Rubros conquistam a Costa Dourada

Fernando Saol

Após quase sete anos, America voltava a excursionar e trazia na bagagem mais um troféu.

No passado nem tão distante, as regras de intervalos entre as partidas não seguiam a rigidez que vemos hoje em dia. Não era raro uma equipe disputar até quatro partidas no período de uma semana. Não estamos com saudade dessa época (mentira, estamos sim), apenas contextualizando para aqueles que são mais novos entenderem o que se passava dentro do mundo do futebol. Os torneios amistosos internacionais eram bastante comuns e é difícil encontrar algum grande clube brasileiro sem um título além-mar. Eram vários, nos mais diversos países, sempre no meio da temporada brasileira. Aliás, é até pecado falar em “temporada brasileira”. Os campeonatos se sucediam sem nenhuma lógica. Começavam num ano, terminavam no outro. E por conta dessa bagunça, times excursionavam pelo mundo durante competições oficiais brasileiras. É o caso dessa aventura que contaremos do America.

Edu comandando um treino do AFC (1983).

Pela primeira desde 1977, o America disputaria uma partida internacional, motivo pelo qual interromperia o belo momento em terras cariocas. O mês de agosto de 1983 começava e o America liderava a Taça Guanabara, à frente do Fluminense, com um campanha fantástica. Eram quatro vitórias e dois empates, com liderança isolada da competição. Alguns jogos adiados e viagem marcada para a Europa: o America procurava se internacionalizar novamente. O momento era propício, os Diabos Rubros eram os atuais campeões da Taça Rio de 1982, assim como do Torneio dos Campeões Brasileiros. A boa fase no início do Campeonato Carioca só confirmava o belo momento do Mecão.

Maxwell e Aírton eram jogadores de confiança de Edu.

Na Taça de Ouro (nomenclatura do Campeonato Brasileiro de 1983), o time teve campanha fantástica nas duas primeiras fases, caindo apenas na terceira fase. O primeiro semestre de 1983 deixou um gostinho de quero mais na boca dos torcedores e o sentimento de renascimento da equipe era muito forte.

(Falaremos do Campeonato Carioca de 1983 em outra oportunidade)


Manchete do jornal Última Hora , 01 ago. 1983.

Julho terminava de maneira mágica para o America. O time sob comando de Edu, se apresentava como o torcedor gostava: com futebol leve e pra frente. O último compromisso antes da viagem foi contra o Vasco, com uma atuação bem agressiva. Com gols de Luisinho e Gilberto, e atuação segura de Gasperin, o America viajaria para a Espanha com tranquilidade.

Luisinho (9) observa a cabeçada de Gilberto (8), dando números finais à partida. O goleiro Acácio só observa.

No dia seguinte, o America embarcaria para a Europa.


Após mais de 20 horas de viagem, a delegação do America chegaria a Tarragona, cidade da Catalunha onde seria disputado o Torneio Costa Dourada. Uma série de amistosos também era negociada, completando os 20 dias de excursão pela Europa. Um segundo torneio amistoso também estaria nos planos, o Torneio Colombino. A minitemporada europeia tinha alguns objetivos, entre eles reabrir o mercado europeu para o clube. A opção de atuar em todas as partidas da excursão com os jogadores titulares era também para uma futura negociação de jogadores.

O Torneio Costa Dourada de 1983 teve participação de quatro equipes e foi recebido com grande entusiasmo na Espanha. A pré-temporada no país seria recheada de times estrangeiros e o torneio na Catalunha seria mais uma chance de ver grandes jogos em terras espanholas, justamente um ano depois da Copa do Mundo.

Valencia, Espanyol, Dundee United e America.

Sturrock com a camisa do Dundee Utd.


O Dundee United (o campeão escocês da temporada 1982/83) era um time que jogava junto há praticamente dez anos. O time era a sensação da Grã-Bretanha, conquistando o título da Premier Ligue Escocesa com uma campanha arrebatadora, onde 24 jogos foram vencidos e 4 perdidos, num total de 36 partidas. Os 90 gols marcados foram o destaque da campanha, que somou 56 pontos, igualando o recorde do Celtic na temporada de 1980/81. Vale lembrar que o protagonismo histórico do futebol na Escócia é de Celtic e Rangers. O Dundee United contava ainda com Paul Sturrock, um dos maiores atacantes do futebol escocês, que defendeu a seleção da Escócia na Copa do Mundo de 1982.

Já a dupla espanhola escolhida para o torneio foram Valencia e Espanyol. A equipe do Valencia vinha de resultados históricos na Espanha e Europa, com os títulos da Copa do Rei de 1978/79 (em cima do Real Madrid), a Recopa Europeia na temporada 1979/80 e a Supercopa da UEFA de 1980.

Tendillo era idolatrado no Valencia. Na imagem, ele defendendo a Espanha, na derrota para a Alemanha na Copa do Mundo de 1982.

Porém, o clube passava por uma grave crise financeira, por causa das obras do estádio Mestalla, usado na Copa do Mundo de 1982. Além do seu estádio, o Valencia estava presente com dois jogadores na Seleção Espanhola daquele mundial, Saura e Tendillo (titular). O Espanyol seria o quarto participante do Torneio. Sem tanto destaque quanto as outras equipes, o clube de Barcelona era uma força regional. Teve sua participação garantida por ser da Catalunha, região onde seria disputado o Torneio Costa Dourada, na cidade de Tarragona.

Uma final espanhola era esperada, por isso as posições contrárias nas chaves semifinais das equipes domésticas. America e Dundee, apesar de serem considerados favoritos, enfrentariam também a torcida da casa. A premiação para o campeão era o verdadeiro motivador para ambos os clubes, razão pela qual o uso de titulares. Apesar de não oficial, o Torneio ganhou destaque na imprensa dos países participantes.

Jornal dos Sports do dia 5 ago. 1983.


“Futebol lindo, leve e solto”

Foi assim que os cronistas esportivos espanhóis descreveram a primeira partida do torneio, no dia 5 de agosto, com a vitória do America sob o Valencia por 2×0. Apesar da bela apresentação, a vitória só foi veio na prorrogação, com dois gols de Moreno, após substituir Gilcimar. A equipe encarnada foi para o jogo escalado da seguinte maneira: Gasperin; Donato, Zé Augusto, Maxwell e Aírton; Pires, Gilberto (Serginho) e Carlos Silva; Gilcimar (Moreno), Luizinho e Gilson Gênio.

Pires foi expulso ainda no primeiro tempo.

Moreno era a esperança de gols do America.

Na outra semifinal, o Dundee Utd. venceria o Espanyol também pelo placar de 2×0. O troféu seria disputado no dia 7 de agosto, em rodada dupla. A decisão foi precedida pela disputa do terceiro lugar, vencida pelo Valencia, nas penalidades. O jogo de fundo colocaria frente a frente dois times apontados desde o início como favoritos.

Jornal dos Sports do dia 7 ago. 1983.

Jornal dos Sports do dia 8 ago. 1983.

O troféu foi muito comemorado pelos jogadores e confirmava a boa fase dos rubros no ano. A premiação foi bem-vinda e, além disso, o America voltava a ser notícia no exterior. Após algumas negociações, mais amistosos foram marcados, além do Torneio Colombino. Depois de uma vitória contra o Antequera e um empate em 0x0 com o Liñares, o America iria para a Itália.

Uma derrota para o Udinese, por 3×2 (no jogo que no Brasil chamou a atenção por colocar em lados opostos Zico e Edu) e um empate com o Napoli em 0x0, precederam a disputa do Torneio Colombino, na cidade de Huelva, de volta à Espanha. A derrota da semifinal para o Real Bétis, por 2×1, obrigou o time a disputar o terceiro lugar contra o Recreativo Huelva, dono da casa. Uma vitória por 5×1, com mais uma exibição de gala de Moreno, marcando dois gols, pôs fim à excursão, no dia 21 de agosto. Quatro dias depois, o America teria encontro marcado contra o Bangu, já pelo Campeonato Carioca.

Luisinho chamou atenção de times europeus durante a excursão.


O retorno ao Brasil foi muito comemorado, e acima de tudo cansativo. A derrota para o Bangu por 3×1 só mostrava o desgaste da viagem. Apesar de voltar para casa com $40 milhões de Cruzeiros. Só a folha salarial do time girava em torno dos Cr$12 milhões. Convertidos em reais, o valor arrecadado em premiações foi de R$1 milhão e 500 mil.

Os problemas não foram poucos. Contusões, perda do ritmo e assédio de times italianos e espanhóis a Luisinho e Moreno (à época com 21 anos), que depois da excursão ganharia a titularidade e camisa 10 do America, no lugar de Carlos Silva. Ao chegar ao Brasil, Luisinho fraturaria o nariz num treinamento. O impasse entre Carlos Silva e Moreno seria contornado com a escalação dos dois no time titular. Até a volta de Luisinho.

O time base da temporada de 1983.

O título da Taça Guanabara, que antes da excursão era tão concreto, não cairia no nosso colo. Mas isso é tema para outra postagem.

Trá-lá-lá!         

(as imagens históricas são oriundas do arquivo público do Jornal dos Sports e do jornal Última Hora, do Rio de Janeiro)