01.7

Os dois Brasis

Paulo Miranda Favero

Em um país de dimensões continentais, o Campeonato Brasileiro de Futebol evidencia uma divisão que a cada ano se agrava mais. Na atual edição, que começa no dia 12 de maio, entram em campo apenas três times da região Nordeste e um da Centro-Oeste. Os outros 16 restantes são do Sul e Sudeste. Mas quando se olha para trás, percebe-se que os clubes das regiões menos favorecidas economicamente já estiveram na chamada “elite” do futebol tupiniquim.

O primeiro Campeonato Brasileiro foi em 1971 e contava com 20 clubes. Ele já testava com a política de inclusão das equipes para fazer a propaganda do regime ditatorial no País e desviar a atenção dos problemas de censura e perseguição política. A frase do almirante Heleno Nunes, presidente da CBD, é emblemática: “Onde a Arena vai mal, um time no Nacional”. A Arena, Aliança Renovadora Nacional, era o partido político mais forte do regime e que apoiava os militares.

E se a idéia era colocar time na primeira divisão, foi em 1979 que os dirigentes conseguiram o recorde: 94 times, com a participação de equipes de, praticamente, todos os estados brasileiros.

Percebe-se que na edição de 1979, quatro times do Amazonas estavam na primeira divisão, assim como três equipes do Mato Grosso e do Pará. Todos os estados da região Nordeste estavam representados com pelo menos três times e apenas quatro estados não faziam parte da primeira divisão. Era realmente um Campeonato Brasileiro, apesar das sérias restrições que eu tenho em um regime político usar o futebol desta forma, ainda mais uma ditadura militar.

Só que de 2003 para cá, a competição passou a ser disputada pelo sistema de pontos corridos, o que provocou uma concentração maior, que privilegia os times mais ricos. Bom para clubes organizados, bem planejados, mas danoso para o futebol em outros aspectos. Fortaleza e Bahia foram rebaixados neste ano. Nos anos seguintes também caíram Criciúma, Guarani, Vitória, Grêmio, Brasiliense, Paysandu, Atlético-MG, Coritiba, Ponte Preta, Fortaleza, São Caetano e Santa Cruz. O campeonato deixou de ser realmente nacional com essa concentração de clubes do eixo Sul-Sudeste e não precisa ser nenhum adivinho para arriscar o palpite em quem vai cair para a segunda divisão.

Uma primeira questão que levanto é se realmente é necessário ter uma primeira divisão com apenas 20 clubes. Aí alguém poderá dizer: mas isso ocorre na Inglaterra (país menor que Roraima), na Itália (menor que Mato Grosso) e na Holanda (menor que Espírito Santo). Por ter dimensões continentais (como já falei logo no começo do artigo), o Brasil não pode seguir um modelo pronto da Europa e aplicar aqui sem nenhuma alteração. Sem dizer que o clima brasileiro propicia jogar em qualquer época, seja inverno ou verão.

Assim, o Brasil fica dividido entre quem está na primeira divisão e quem não está. Mas boa parte dos “pés-de-obra” que atuam no futebol do Sul-Sudeste vieram das outras regiões. É o caso do último campeão brasileiro o São Paulo, que tinha em seu elenco uma verdadeira legião de nordestinos. Assim, parece que também existe um Brasil que joga e um outro que compra quem joga (e essa divisão não é Norte-Sul, mas sim centro-periferia, em todas as suas escalas possíveis).

No último dia 22 de abril, Bahia e Vitória fizeram um clássico eletrizante em Salvador. Mais de 60 mil pessoas viram o 6 a 5 para o rubro-negro em cima do maior rival. Foi o maior público em um estádio brasileiro em 2007. Alguns dias antes, as filas para se comprar ingresso eram intermináveis. E será que os times que estão na terceira e segunda divisão não poderiam estar na “elite”, ao lado de muitos outros times? Será que é apenas o dinheiro que tem de ser o mediador disso tudo? Talvez exista mais outra divisão, entre o Brasil que vai ao estádio e o Brasil que quer transformar o estádio em teatro, para que só ilustres torcedores possam acompanhar sua equipe de perto.

O nosso futebol está ficando chato, ainda mais com essa mania de copiar os europeus. Está se tornando burocrático e enfadonho, ainda mais quando é hierárquico e privilegia a rotina rígida. O futebol poderia ser mais anárquico, tanto dentro quanto fora de campo. Como nos conta o jornalista Rubens Leme:

“Uma vez li (…) que o ala Larry Bird deu uma resposta maravilhosa a um jornalista quando lhe perguntaram sobre o que faltava aos novos jogadores da NBA para tornarem-se ídolos de verdade. Bird, mito do Boston Celtics, lascou: ‘irem ao posto de gasolina.’ O que ele quis dizer com isso? Simplesmente que falta aos novos craques terem contato com os fãs nas ruas, enfrentarem filas de banco, ir ao supermercado, conversar um pouco com que os idolatram e compram suas camisas, choram com suas derrotas, vitórias e cestas. O futebol padece do mesmo mal.”

E dentro de campo, repito as palavras de Xico Sá, da folha de São Paulo:

“As escolinhas de futebol, quase obrigatórias para os futuros craques, estão acabando com o sétimo sentido peladeiro. Hoje em dia você vê um moleque de 12, 13 anos obediente ao seu técnico como um espartano, como um soldado melancólico no coração das trevas. (…) O Souza, do São Paulo, é 100% peladeiro. Está em todos os cantos, defende, ataca, ri da cara dos joões obedientes e, quando fala à latinha, é mais peladeiro ainda, despindo o futebol do fraque e da cartola dos tempos do Charles Miller. Souza implantou definitivamente um coração suburbano no peito do outrora time pó-de-arroz dos bacanas.”

E nesta nova divisão do Brasil, um lado ainda romântico tenta se manter diante do futebol como negócio. É aquele das torcidas nos estádios, das bandeiras, das cores, dos risos e dos choros. É aquele da várzea, pé na terra, em que impedimento é não ter bola para jogar. É aquele em que o gandula é jogador e que todos são gandulas. É aquele que todos já fizeram mais de mil gols na carreira, mas isso não tem importância nenhuma. Como diz o professor da FEA-USP Paulo de Tarso Soares, nesta luta entre outros dois Brasis:

“Há muito que o comando do futebol está nas mãos dos que cuidam de negócios. Futebol, hoje, é essencialmente um negócio. A adoração ao ”clube-empresa” é uma crença legitimadora dessa situação. Amor ao clube? Não vou negar que ainda exista, mas não é o predominante. A imprensa critica, mas, quando os resultados são bons, ”esquece” que eles são frutos dos negócios e os tratam como se decorressem do amor ao clube. Ela vive da venda de anúncios cujos preços estão positivamente relacionados com o número de leitores-ouvintes-telespectadores.”

Para tentar diminuir as divisões dentro de nosso país, talvez fosse interessante ter um Campeonato Brasileiro com mais times, em disputas regionalizadas e com representantes de cada região do país, num misto de pontos corridos com mata-mata em suas fases decisivas. Poderia ser um Brasileirão com 32 clubes, seguindo mais ou menos os moldes da Copa Libertadores, com uma fase de grupos e outra de mata-mata (mas cada grupo poderia ter oito ou 16 times). E que tenha uma final, para que exista a possibilidade, mesmo que mínima, do pequeno superar o grande. Coisa que no capitalismo raramente ocorre!

Bibliografia
COSTA, Rubens Leme da. Ídolos de verdade. http://pt.oleole.com/blogs/rubaoverde/posts/dolos-de-verdade

SOARES, Paulo de Tarso. Brasil: tempos de futebol e capitalismo. Folha de S. Paulo, 28/5/2006. Caderno Especial Futebologia – Página 7

SÁ, Xico. Peladeiros do Mundo, divirtam-se. Folha de S. Paulo. 20/4/2007. Caderno de Esportes.

Como citar

FAVERO, Paulo Miranda. Os dois Brasis. Ludopédio, São Paulo, v. 01, n. 7, 2009.