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Os donos da bola são os donos da memória futebolística brasileira?

João Paulo Streapco

Por ocasião da reedição do livro Gigantes do Futebol Brasileiro, o jornal Folha de S. Paulo publicou, em 15 de maio de 2011, na página 3 do Caderno Ilustríssima, interessante matéria assinada por Alvaro Costa e Silva e intitulada Os donos da bola. A memória dos craques brasileiros. Pelas informações indicadas no texto, a edição original do livro é de 1965 e tornou-se uma daquelas raridades disputadas pelos colecionadores e interessados em história do futebol. Ao longo da matéria, o autor ainda sugere que entre as causas do êxito alcançado pela obra estão o ineditismo e a qualidade literária dos treze perfis relatados no livro, de Friedenreich à Pelé.

Evidentemente, não é preciso repetir que a obra de João Máximo e Marcos de Castro é referência para aqueles que estudam a história do futebol brasileiro por todas as qualidades que Alvaro Costa e Silva indicou em seu artigo. Entretanto, é preciso mostrar que o periodista se equivocou quando escreveu que a obra possuía ineditismo. E é sobre este equívoco do periodista da Folha que nos debruçaremos a seguir, pois ele nos permite discutir sobre como a memória do futebol circula em nossa sociedade e como se articula com interesses mais amplos.

Obras relatando os perfis futebolísticos de jogadores de futebol surgiram em São Paulo, pelo menos, desde a década de 1910, por iniciativa de periodistas como Leopoldo Santana, que atuava por A Gazeta, e Antonio Figueiredo, que atuava pelo O Estado de S. Paulo, por ocasião do Campeonato Sulamericano de Futebol, marcado originalmente para 1918, mas realizado apenas em 1919, por causa do surto de gripe espanhola que atingiu o Rio de Janeiro naquela época.

O título do livro de Santana é bem sugestivo acerca desta situação: O football em São Paulo. Notas crítico-biográficas dos principaes jogadores paulistas antigos e modernos. Grandes jogadores da época eram indicados ao lado de jogadores de menor expressão futebolística, mas já com grande prestígio político, como dirigentes de clubes como o Club Athletico Paulistano. Fried já despontava naquela ocasião como o grande jogador de sua geração e Charles Miller sequer era citado. Já o de Antonio Figueiredo, tem por título História do Foot-ball em São Paulo, e a maneira como o autor expôs a trajetória do futebol em São Paulo até aquela data tornou-se referência para todos os livros sobre a história do futebol que foram publicados posteriormente, inclusive História do Futebol no Brasil, de Tomás Mazzoni, publicado em 1950, e Caminhos da Bola, de Rubens Ribeiro, publicado em 2002, ao mesclar informações de resultados das partidas dos campeonatos disputados em São Paulo entre 1902 e 1917, com os históricos dos clubes.

De toda esta discussão, fica evidente que o papel dos periodistas na preservação da memória do futebol barsileiro foi fundamental, desde a década de 1910, visto que poucos jogadores se preocuparam ou tiveram condições de publicar obras que servissem para este fim. Destes poucos jogadores, todos eram membros das elites brasileiras da época, como Marcos Carneiro de Mendonça, cujo o álbum de recortes e recordações dos tempos de jogador serviu de fonte para Mário Filho em O negro no futebol brasileiro e ajudou a consolidar o imaginário elitista acerca do futebol praticado no Brasil nas primeiras décadas do século XX, futebol elitista que só teria sido superado a partir dos anos 1920 e 1930, pela atuação de duas grandes gerações de jogadores que tinham por expoentes máximos Friedenreich e Leônidas.

Entretanto, o lançamento deste tipo de obra em véspera de uma grande competição na década de 1910, já indicava o apelo econômico da modalidade, a comoção popular e a existência de autores vinculados aos grandes periódicos paulistanos da época interessados em obter algum lucro com os livros, aproveitando o clima gerado pelo evento junto à população e o suporte oferecido pelo trabalho de periodista para a realização de pesquisas e entrevistas. Assim, até o fato de ter sido lançado um pouco antes da Copa da Inglaterra, de 1966, não era uma novidade criada por Gigantes do Futebol Brasileiro, mas algo consolidado na tradição editorial brasileira de aproveitar os grandes eventos futebolísticos para lançar seus livros, desde o início do século.

Esse simples objeto é capaz de alegrar qualquer pessoa. Essa foto pertence ao Projeto AMEN.

Bola. Foto: Jessica Hilltout (Amen Project)

O futebol já era um belo negócio para aqueles que o controlavam, desde pelo menos 1918, ocasião do lançamento das obras pioneiras, razão pela qual perguntamos: quem eram e quem são os donos da bola? Os jogadores ou os dirigentes que controlam o espetáculo? Da mesma forma, sua história e sua memória já cativavam o público brasileiro desde o início do século, cabendo outra pergunta: que tipo de memória do futebol brasileiro se preservou? Que tipo de história se construiu acerca do esporte que mais atrai o público brasileiro?

O título da matéria de Alvaro Costa e Silva nos leva as estas perguntas, em especial, porque no momento em que a sociedade brasileira se prepara para organizar uma Copa do Mundo e Jogos Olímpicos, em que denúncias de corrupção e de superfaturamento nas obras de estádios se espalham por todo o país, em que o governo é denunciado na ONU por remover populações a força para a realização dos eventos, precisamos entender quem serão os grandes beneficiados pelo mega evento e que tipo de heranças Copa do Mundo e Olimpíadas deixarão para a sociedade brasileira. Um olhar cuidadoso para a história de como o futebol se organizou profissionalmente no Brasil nos mostra que ao longo do século XX, os grandes beneficiários dos lucros gerados pela modalidade não foram os jogadores, os torcedores ou a sociedade, mas aqueles que foram os donos da bola.

A matéria termina com críticas às atuais reformas do Estádio do Maracanã e a atuação de importante dirigente esportivo nesse processo. As manobras que resultaram na substituição do Maracanã original por um novo estádio que do antigo mantém apenas o nome, precisam ser acompanhadas por periodistas e historiadores com muita atenção, porque elas são fortes indícios de que os donos da bola também são os donos da memória do futebol e dela fazem o que bem entenderem.

Como citar

STREAPCO, João Paulo. Os donos da bola são os donos da memória futebolística brasileira?. Ludopédio, São Paulo, v. 24, n. 4, 2011.