141.69

Os Estaduais precisam continuar, mas clamam por uma mudança de mentalidade

Wallace Graciano

A lógica vista de cima para baixo sempre imperou em discussões que pedem o fim dos regionais. Porém, que tal olharmos pelo contrário e ver como clubes pequenos ainda se sentem prejudicados pelo atual sistema? Convidamos dois especialistas para debater sobre o assunto.

Algumas situações já viraram lugares-comuns no futebol: é o torcedor colocando somente nas costas do treinador a culpa pela derrota que rasga a garganta, o Robben cortando para a esquerda e a mesa redonda ao início de cada ano esbravejando de forma uníssona que os estaduais deveriam acabar. Ora, a visão – sempre posta de cima para baixo – aponta para como os torneios regionais impactam no calendário dos grandes clubes (o que não deixa de ser verdade). Porém, a discussão precisa ir além. Se as datas atuais sufocam os aqueles que estão alocados na elite do futebol brasileiro, são ínfimas para um projeto a longo prazo de mais de 90% das equipes tupiniquins. E essa mentalidade precisa mudar para o bem do esporte.

Campeonato Mineiro

Fonte: Divulgação

Pensando nisso, esta coluna, além de palpitar sobre os problemas que enxerga no atual modelo, resolveu conversar com duas pessoas que sabem bem o drama que esses clubes passam. São eles: Vítor Dias, pesquisador de futebol e coautor do livro “A História do Campeonato Mineiro (1915/2020)”, e Vinícius Las Casas, assessor de imprensa de atletas e que trabalhou na comunicação do Barra Futebol Clube, da segunda divisão de Santa Catarina. 

Seja em pesquisas extensas ou em trabalho diário, os dois, ao longo da conversa, explicam suas vivências e tentam trazê-las para a discussão, propondo um novo modelo em que toda essa cadeia consiga ser suprida. Eles mostram, ainda, como o atual modelo é frágil e precisa ser pensado como um todo, não somente debatido do prisma dos gigantes do futebol brasileiro.

Vítor Dias

Tendo em vista o cenário que conviveu em suas pesquisas e vivências, como você hoje classifica o Estadual para os clubes do interior: é benéfico o atual modelo?

O modelo atual é maléfico para todos, pois impõe um teto de exposição e número de partidas para os clubes médios e pequenos. Por outro lado, a cada ano o campeonato estadual se torna um estorvo para os clubes grandes, em que pese a importância histórica desses torneios no crescimento de cada um dos grandes clubes brasileiros.

Você não acha que falta uma cultura de propagação dos times do interior em um torneio como esse?

Mais do que isso, falta isonomia na valorização deles, sobretudo financeira. O Campeonato Brasileiro, abismo financeiro entre clubes à parte, já tem uma parcela dos direitos mais ou menos equitativa, além de uma parte deles serem pagos de acordo com o desempenho do ano anterior, algo que falta na divisão de renda dos campeonatos estaduais.

As datas são suficientes para conseguir cobrir a existência do clube no ano inteiro? O que mais é necessário?

Não só não são suficientes como, em vários casos, sobretudo nas divisões inferiores, os próprios clubes almejam a existência apenas pelo período mínimo de contrato que um atleta pode assinar. Um paliativo tem sido oferecido ao menos aos clubes da série D: a cobertura das despesas de deslocamento por parte da CBF, que diminuiu drasticamente a quantidade de desistências anuais.

Um fator que sempre debato com amigos é que a formação de torcida/público se dá pela exposição. Com os clubes do interior, ela fica pouco difundida, já que normalmente jogam por um ou dois jogos transmitidos em TV (seja aberta ou PPV), contra grandes, e um jogo de bilheteria contra esses times na sua cidade local. Como cativar esse público para atrair torcedores, formar uma identidade local e, assim, investidores?

Cativar esse público tendo em vista apenas o campeonato estadual é difícil, porque fora do Estadual, com eventuais torneios locais para preencher calendário, raramente há interesse da torcida. A alternativa é aproveitar uma eventual classificação para a Série D, o que dá tempo do clube se planejar para o ano seguinte e capitalizar em cima de um ano com calendário mais cheio para começar a formar esse público.

Qual é, em sua ótica, o modelo ideal para conseguir fomentar ainda mais o futebol dos clubes do interior e, assim, torná-los mais competitivos?

Antigamente, o que viabilizava competições o ano todo não era necessariamente a viabilidade financeira, mas a existência da lei do passe, que quase escravizava o atleta do clube menor, prendendo-o a um clube por tempo indeterminado. Diante disso, para mim existem duas frentes a serem trabalhadas: por um lado, a mesclagem definitiva das pirâmides estadual e nacional, com aumento de clubes e grupos nas séries C e D, e por outro lado a regulamentação de um regime semiprofissional a partir do nível estadual, para acomodar melhor o baixo orçamento dos clubes menores, pois a economia do nosso país simplesmente não comporta a existência de tantos clubes em regime 100% profissional já a partir do campeonato estadual, algo que não existe em lugar nenhum do mundo.

Vinícus Las Casas

Tendo em vista o cenário que conviveu em suas pesquisas e vivências, como você classifica o Estadual para os clubes do interior: é benéfico o atual modelo?

Essa é uma resposta complexa. Um: ele é benéfico, pois proporciona um importante alívio financeiro para a subsistência destes clubes. Os direitos de transmissão, as rendas dos confrontos contra os times maiores, o dinheiro gerado é importante para que o clube sobreviva. Por outro lado, o estadual tem uma curta duração, com clubes competindo por apenas alguns meses no ano. É difícil pensar e encontrar uma fórmula ideal, mas eu sou um cara que acredita na importância do estadual no atual formato. O grande porém é fazê-lo voltar a ser atrativo, principalmente para o telespectador. Sem ele, sem os direitos de TV, é um passo para o fim dos estaduais, ao menos com a presença dos grandes clubes. O que poderia também decretar o fim de vários clubes históricos do futebol brasileiro.

Você não acha que falta uma cultura de propagação dos times do interior em um torneio como esse?

Sim, falta. A diferença financeira entre os clubes maiores e o do interior fez com que os torcedores fossem direcionando sua atenção e carinho a times que disputavam competições o ano todo ou títulos mais importantes – inclusive o estadual. Inclusive, em SC, vi dois fenômenos interessantes. O título do Criciúma da Copa do Brasil criou uma geração de torcedores locais, sendo que os mais velhos, geralmente, torciam para equipes de São Paulo ou Rio Grande do Sul. Com a Chapecoense mesma coisa, os mais velhos são gremistas ou colorados, agora que se cria uma geração de torcedores da Chape. Ter torcida local vai do time atrair a atenção ganhando competições ou fazendo boas campanhas, isso vai trazer visibilidade na mídia e o carinho de muitos. Apenas o fator local nunca teve força para impulsionar o fã de futebol da região. Isso é histórico no Brasil, diferente de países como Inglaterra ou Alemanha por exemplo.

Aliás, com esse abismo financeiro entre os próprios times da primeira divisão, o Brasil tende a ver a concentração de torcedores nos times mais ricos. Ou até perder torcedores para clubes europeus. Um fenômeno que pouco a pouco já tem acontecido.

As datas são suficientes para conseguir cobrir a existência do clube no ano inteiro? O que mais é necessário?

Não. São insuficientes. Fazer futebol é muito caro, até mesmo para o clube do interior. Por mais que não chegue nos valores absurdos dos gigantes, eu trabalhei numa equipe de segunda divisão em Santa Catarina que gastava mais de 2 milhões anualmente no futebol profissional. E grande parte destes gastos era com taxas para a federação e outras burocracias. Esse é o grande desafio para o clube do interior ou clube menor. O apoio das federações, evitando algumas taxas, por exemplo, seria extremamente importante para que ele conseguisse atuar por 10/11 meses. Hoje em dia, isso é inviável, com as taças estaduais perdendo força muito por causa do alto custo do futebol. Há que se criar uma rede de apoio financeiro para que estes clubes sobrevivam, com alguma forma de incentivo ao patrocínio, criar canais de distribuição e aumentar o interesse do público nestes jogos. 

Outro fator interessante que vivenciei em Santa Catarina foi o fato de estipularem um valor mínimo para ingresso – que chegou a ser de 30 reais um ano (valor da inteira). Na maioria das vezes, isso resultava em um campo vazio, sem público e sem interesse. Por que não deixar qualquer clube estipular o valor a cobrar? Inclusive com aqueles que queiram deixar o portão aberto para os torcedores? Isso poderia trazer mais engajamento da comunidade local. 

Um fator que sempre debato com amigos é que a formação de torcida/público se dá pela exposição. Com os clubes do interior, ela fica pouco difundida, já que normalmente jogam por um ou dois jogos transmitidos em TV (seja aberta ou PPV), contra grandes, e um jogo de bilheteria contra esses times na sua cidade local. Como cativar esse público para atrair torcedores, formar uma identidade local e, assim, investidores?

É o que falei na pergunta anterior. Um, facilitar a ida do torcedor ao estádio. Ingressos baratos é o primeiro passo. Segundo, investir na comunicação para que seu clube seja localmente conhecido, seus jogos e jogadores conhecidos, etc. Terceiro, tentar investir em algum formato de transmissão e que se facilite isso. Não crie empecilhos para que os jogos sejam transmitidos pela internet por exemplo. Num mundo ideal, se investiria até para que estes jogos chegassem num número maior de pessoas, com publicidade, etc… 

Qual é, em sua ótica, o modelo ideal para conseguir fomentar ainda mais o futebol dos clubes do interior e, assim, torná-los mais competitivos?

Para mim, é óbvio que não é o modelo ideal. Mas é um modelo que consegue fazer o time menor/do interior ainda se sustentar. A presença dos clubes grandes é importante para geração de riquezas para a equipe do interior, que muitas vezes o mantém durante toda a temporada, pagando até mesmo os salários da competição nacional. Se esse modelo for quebrado, prevejo também a quebra de um número gigantesco de clubes que marcaram história no futebol brasileiro. Além do fim de um gigantesco número de postos de trabalho.

Brasil Estaduais

Fonte: Reprodução

Opinião do autor

Após conversas e leituras, entendo que fica nítido que sem datas suficientes para entrar em campo ao longo do ano, esses clubes não conseguem firmar compromissos com atletas e deixam milhares de jogadores e funcionários à mercê da própria sorte. Esses funcionários, sejam atletas ou trabalhadores assalariados com outras funções, deixam de suprir uma cadeia que abastece os clubes de elite. Isso empobrece diretamente, ao longo dos tempos, a qualidade do espetáculo, que não consegue captar novos valores que antes não tinha espaço para mostrar suas virtudes.

Para além, deixam de fomentar uma identidade local junto aos torcedores, que passam a não consumir aquele clube, seja por falta de jogos em sua cidade ou até mesmo exposição midiática. Ele pode até gostar de futebol e ter interesse em ser um expectador, mas só será estimulado a isso através de outros mercados. Um exemplo é a ascensão do futebol europeu, que tem muito mais penetração na casa de algum apaixonado pelo esporte bretão do que um Inter de Santa Maria x Guarani de Venâncio Aires ou Villa Nova x Uberlândia, por exemplo. 

Ou seja, o torcedor de Uberlândia, em Minas, ou do Guarani, em Venâncio Aires, pode até gostar muito de futebol e ter apego ao regional, mas não terá exposição suficiente para criar esse sentimento, apesar da localização. Como é exposto diariamente aos jogos dos clubes grandes brasileiros e quiçá europeus, vê neles um objeto para suprir esse desejo e passa a criar uma identidade com Inter, Grêmio, Atlético, Cruzeiro, Flamengo ou Barcelona. 

E nisso entramos em um ciclo vicioso, onde esse clube se sustenta por migalhas de exposição (doze datas fixas e um ou dois jogos televisionados, quando muito) para captar um patrocinador local, incentivar uma massa associativa e conseguir montar uma equipe competitiva. 

Essa engrenagem precisa ser quebrada. O primeiro passo seria na sua promoção. Não adianta esperar a benevolência dos meios de comunicação. Eles, como o clube de futebol, precisam de resultados para sobreviver e obviamente apostarão no que dá retorno financeiro. O grande mérito está em criar uma cadeia de comunicação própria ou com canais regionais, na qual o clube consiga transmitir seus jogos para 2.000 torcedores, promovendo identidade junto aos seus e trazendo para perto patrocinadores que conseguirão direcionar a exposição de suas marcas.

O segundo, mais complicado, é criar um calendário mais diluído ao longo do ano, com encontro posterior com os grandes, em fases derradeiras. Esse clube do interior não compete com a outra prateleira em um primeiro momento. Ele precisa de incentivo para ter mais datas de competição para conseguir ter essa identidade local, angariar receitas, promover atletas e sua imagem. Para isso, é preciso deixar essa lógica de migalhas de lado. Ao invés de incentivar a luta por doze datas fixas, é preciso buscar a competição junto aos que estão no mesmo patamar, pois promove maior competitividade. Com um encontro posterior com um Atlético, Fluminense ou Palmeiras, por exemplo, traria maior interesse ao torneio e o promoveria ainda mais enquanto espetáculo. 

A fórmula não é simples. É preciso ser repensada em conjunto. O que não dá é ver um total desinteresse dos grandes, um suplício eterno dos pequenos e Federações continuamente usando seu poder coronelista para promover os estaduais sem pensar em sua atratividade como produto.


Como citar

GRACIANO, Wallace. Os Estaduais precisam continuar, mas clamam por uma mudança de mentalidade. Ludopédio, São Paulo, v. 141, n. 69, 2021.