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Os livros de história do América existem?

Marcus Vinícius Costa Lage

O relacionamento apaixonado que uma parte considerável dos brasileiros estabelece com os clubes de futebol não pode ser compreendido apenas a partir do que acontece dentro das quatro linhas. Escolher um clube para chamar de seu é partilhar códigos, valores e atitudes amplos, que muitas vezes extrapolam o jogo, envolvendo diversas outras dimensões da sociedade. De modo que não é raro vermos os clubes e as comunidades de pertenças articuladas em torno deles serem associados a categorias sociais consagradas, como, por exemplo, raça, etnia, classe social, gênero, territorialidade urbana e orientação política.

Na maior parte das vezes, essas representações simbólicas são atualizadas pública e cotidianamente, seja nos intermináveis debates travados entre os torcedores e entre os jornalistas esportivos, seja por meio de publicações diversas, como filmes, livros, revistas e jornais, momento em que também são (re)criadas e (re)contadas as anedotas, alegorias, memórias, mitologias e tradições clubísticas[1]. Não por coincidência, de acordo com levantamentos feitos pelo Centro de Referência do Futebol Brasileiro (CRFB), os livros dedicados aos clubes brasileiros, com destaque para os históricos, correspondem à maior parte das publicações não acadêmicas sobre futebol no país[2].

Refletindo a correlação de forças existentes no próprio futebol, esse “nicho editorial” é, em grande medida, dominado pelo que se convencionou chamar de “grandes clubes” brasileiros ou, se preferirem, pelos chamados clubes da “elite” do futebol nacional. Infelizmente, esse não é o caso do meu América. Por isso, dentre as dezenas de títulos dessa natureza que circulam no mercado editorial belo-horizontino e mineiro, a maioria é dedicada ao Atlético e ao Cruzeiro, que, somados, possuem, tranquilamente, mais de 50 títulos.

Livros CAM e CEC

Alguns livros de história sobre o Atlético ou o Cruzeiro.

Enquanto isso, até o momento, pude identificar apenas 4 títulos dedicados exclusivamente à história americana, sendo eles, por ordem de publicação: América – o “deca-campeão”; América Deca 70; Minha paixão; e a Enciclopédia do América. Dessas 4 publicações, América – o “deca-campeão” e a Enciclopédia do América são as mais facilmente encontradas para consulta e aquisição e, por isso, são elas as que subsidiam boa parte das atuais manifestações historiográficas[3] sobre o clube, como, por exemplo: a seção de história do site oficial do América; o verbete América Futebol Clube [Belo Horizonte] da Wikipédia; algumas páginas independentes sobre a história do futebol brasileiro e do América, em particular, como o caso do Acervo do Coelho; e textos que abordam a história do futebol mineiro veiculados pela imprensa esportiva local. Mas, por que essas duas publicações se tornaram uma espécie de “monumento”[4] ou um “lugar de memória”[5] para a história do futebol mineiro e, em particular, do América e dos americanos? Ou, mais ainda: como, apesar de não versarem sobre um dos “grandes clubes” do nosso futebol, essas duas obras tornaram-se viáveis para o mercado editorial?

Antes de responder a essas questões, gostaria de falar um pouco das duas outras obras sobre a história americana, à começar por América Deca 70, obra esta que conheço muito pouco, e o pouco que conheço devo à Enciclopédia do América, que apenas menciona sua existência de maneira muito breve[6]. De todo modo, vamos às precárias informações que tenho sobre ela: América Deca 70 foi um projeto editorial lançado em 1980, com o objetivo de contar a história americana em uma série de fascículos, da qual só o primeiro número, intitulado “A história do América”, foi efetivamente publicado. Considerando a legenda apresentada pela Enciclopédia do América sobre a reprodução da capa de América Deca 70, ela é parte do acervo particular de Milton Machado Mourão, presidente do Conselho Deliberativo do clube nos anos 1970 e, até o ano de seu falecimento, em 2012, dono de uma vasta coleção de materiais impressos sobre o América.

América Deca 70

Capa de América 70 reproduzida pela Enciclopédia do América.

Minha paixão, de autoria de Carlos Paiva e lançado em 2011, pode ser considerada uma espécie de “edição de bolso”, com o resumo das informações da Enciclopédia do América, publicada no ano seguinte, e do Almanaque do América, esse último ainda não publicado por falta de recursos financeiros e incentivos político-administrativos do clube[7].

Capa de Minha paixão

Capa de Minha paixão.

Retornando, agora, às questões a que me propus anteriormente, tendo a pensar que, em nenhum desses dois projetos – América 70 e Minha paixão – o clube vivenciava contextos como aqueles encontrados quando América – o “deca-campeão” e a Enciclopédia do América foram publicados. E quais seriam esses contextos?

Em ambos os casos, o América vivenciava momentos festivos distintos, mas igualmente instrumentalizados por grupos político-administrativos que lideravam o clube em cada uma dessas ocasiões. Por meio dessas publicações, esses grupos legitimavam suas ações na política interna do clube, promoviam social e politicamente alguns de seus nomes na sociedade, e ainda aproveitavam para explorar o mercado, vendendo um produto. Vejamos como isso aconteceu com cada uma dessas publicações.

Embora não seja uma obra datada, vários indícios apontam que América – o “deca-campeão”[8] foi publicado entre 1971 e 1972, reverberando, assim, o título de campeão mineiro de futebol do clube após 13 anos de jejum, o primeiro conquistado na era Mineirão e, ainda por cima, de maneira invicta. Mais do que isso, a conquista americana de 1971 viabilizou a participação de sua equipe de futebol no primeiro Campeonato Brasileiro organizado pela então Confederação Brasileira de Desportos (CBD), a primeira competição interclubes a nível nacional disputada pelo América se considerarmos que o jejum de conquistas nos anos 1960 não lhe garantiu vaga na Taça Brasil (1959-1968). Jejum este, que, associado ao seu baixo apelo popular, expresso em arrecadações de bilheterias inferiores se comparadas às de Atlético e Cruzeiro, já naquela ocasião, também fez com o que o clube não fosse convidado a disputar nenhuma das 4 edições do Robertão (1967-1970), embrião do Brasileirão.

americadeca

Equipe, Comissão Técnica e Dirigentes do América no início dos anos 1970 em frente ao Mineirão – capa de América – o “deca-campeão”.

Todas essas conquistas eram atribuídas por América – o “deca-campeão” ao deputado federal pela Aliança Nacional Renovadora (ARENA), Ruy da Costa Val, e ao médico Milton Machado Mourão, à época, presidente do clube e presidente do Conselho Deliberativo do clube, respectivamente, que pretensamente lideraram a “união” “de todos os americanos de todos os tempos”[9] na gestão do América. Mas, ao fazer isso, o álbum americano procurava também legitimar as ações dessa gestão, sobretudo a demolição do antigo estádio americano e sua conversão em Centro Social e Desportivo, que daria ao clube “uma renda mensal apreciável” capaz de “soergu[é-lo]”, fazendo-o “volta[r] às suas gloriosas jornadas.”[10]

Em 2012, por sua vez, o América programou uma série de ações para comemorar o seu aniversário de 100 anos de fundação, dentre elas a publicação de sua história, contada por seu “historiador oficial”, por meio da Enciclopédia do América. Mas, assim como nos anos 1970, mais do que um momento festivo, o início da década de 2010 para o América representou uma tentativa do clube se reerguer no cenário futebolístico local e nacional. Após ser rebaixado à segunda divisão do Brasileirão em 2001, o América acumulou uma sequência de descensos, começando por 2004, quando caiu para a terceira divisão nacional e, em 2007, para a segunda divisão estadual. Apesar disso, entre 2008 e 2010, o clube retornou à elite do futebol estadual e nacional, muito em função de uma política que buscou adequar o América à nova realidade do futebol brasileiro, muito bem definida por Marcelo Proni pela ideia da “mercantilização do futebol”[11]. A transformação do Estádio Independência em arena multiuso durante os preparativos da Copa de 2014, as estratégias de fidelização de torcedores, sobretudo, por meio da criação do programa de sócio torcedor “Onda Verde”, a institucionalização de uma diretoria de marketing no organograma do clube, especialmente após as comemorações de seu centenário, e a comercialização e/ou transformação de seu, até então, extenso patrimônio imobiliário em empreendimentos comerciais são exemplos nesse sentido.

Enciclopédia

Assim como América – o “deca-campeão”, essas transformações recentes vivenciadas pelo clube foram atribuídas pela Enciclopédia do América ao grupo político-administrativo que conduzia, e ainda conduz, o clube. Grupo este formado por profissionais liberais – como o construtor civil Marcus Salum – e políticos com forte apelo popular – como o deputado estadual e pedetista Alencar da Silveira Júnior –, pretensamente responsável por também unificar “figuras de expressão do América” e “revitalizar a administração do clube”[12]. Não por coincidência, desde os anos 2010, o estatuto americano foi reformulado, definindo a gestão do clube, não mais a partir de um presidente, mas de um Conselho de Administração, comandado por vários conselheiros administrativos, também chamados de “presidentes”.

Se, por um lado, esses distintos contextos vivenciados pelo América nos anos 1970 e 2010 acabaram por viabilizar essas duas publicações; por outro, pode-se dizer que eles também impactaram as narrativas históricas sobre o clube que ali foram construídas. Exemplo nesse sentido foram os significados atribuídos por essas duas obras ao uniforme vermelho e ao “protesto” americano contra a profissionalização do futebol, recuperados na semifinal do Campeonato Mineiro de 2018 e por mim explorados em última contribuição nesta Arquibancada. Mas esse é assunto para os próximos textos.

Dá-lhe Coelho!


Obs.: Uma versão desse texto foi apresentada com o título de “Literatura apaixonada e ‘lugares de memória’ no futebol belo-horizontino: o álbum-revista América – o ‘deca-campeão’ (1971?) e a Enciclopédia do América MG (2012)”, no Encontro Nacional de Historiadores do Esporte (ver página 36 do “Caderno de Resumos“).

[1] Cf. DAMO, Arlei Sander. Bons para torcer, bons para se pensar: os clubes de futebol no Brasil e seus torcedores. In.: Futebol e identidade social: uma leitura antropológica das rivalidades entre torcedores e clubes. Porto Alegre, RS: Ed. Universidade/UFRGS, 2002, p. 33-57. (Coleção Academia; Série Humanas).

[2] Cf. PIAZZI, Giulia Sampaio. Futebol, literatura e edição. In.: Esporte de massa como objeto de nicho: uma análise editorial do mercado de livros de futebol. Monografia (Bacharel em Letras – Tecnologias de Edição) – Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2015, p. 31-42.

[3] Cf. JANOTTI, Maria de Lourdes Mônaco. O diálogo convergente: políticos e historiadores no início da República. In.: FREITAS, Marcos Cezar de (Org.). Historiografia brasileira em perspectiva. São Paulo: Contexto, 1998, p. 120.

[4] LE GOFF, Jacques. Documento/Monumento. In.: História e memória. 7ª ed. revista – Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2013, p. 485-499.

[5] NORA, Pierre. Entre memória e história. A problemática dos lugares. Projeto História, São Paulo, n. 10, p. 7-28, dez. 1993.

[6] Cf. OLIVEIRA, Carlos Eduardo Paiva de. Enciclopédia do América: Bahia com Timbiras, onde nasceu uma paixão; a história do América Futebol Clube de Belo Horizonte 1912-2012. Ed. especial do centenário – Belo Horizonte: Ed. Alicerce, 2012, p. 130.

[7] Sobre a proposta dessa obra, ver texto de “Apresentação” em: OLIVEIRA, Carlos Eduardo Paiva de. Minha paixão: América Futebol Clube, BH, o América Mineiro. Belo Horizonte: Ed. Alicerce, 2011, s/p.

[8] SEIXAS, Raymundo (Dir.). América – o “deca-campeão”. Belo Horizonte: Raymar Promoções Ltda./Indústrias Gráficas Brasileiras Ltda., [1971-1972?].

[9] Cf. “CAMPEÃO invicto de 1971”. In.: SEIXAS (Dir.). América – o “deca-campeão”, s/p.

[10] Cf. “CENTRO social e desportivo”. In.: SEIXAS (Dir.). América – o “deca-campeão”, s/p.

[11] PRONI, Marcelo Weishaupt. A metamorfose do futebol. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2000.

[12] OLIVEIRA. Enciclopédia do América, p. 179.