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Os prodígios da selva urbana – Lagos, Nigéria

Tiago Carrasco, João Henriques, João Fontes

Quando um habitante de Lagos diz que vive na jungle (selva), quer dizer que vive em Ajegunle. A analogia é fundamentada. Nesta selva urbana as pessoas vivem tão juntas umas das outras como árvores numa densa floresta tropical, não há água potável nem saneamento básico e as ameaças à vida são tão perigosas como o beijo de uma serpente venenosa.  Ajegunle é o maior bairro de lata em Lagos, a mais populosa cidade africana, lar de três milhões de pessoas. Ironicamente, o bairro onde ninguém tem nada está situado entre os dois portos por onde entram 70% dos produtos importados pela Nigéria. É aqui que vêm parar todos aqueles que deixam as suas aldeias do norte ao sul do país para cheirar a sorte na metrópole. Foi aqui que veio parar a família de Ugochukwo Lewis Ogana, jogador de futebol de 15 anos. Vive com mais seis pessoas em duas divisões com pouco mais de dez metros quadrados. Vestido com o equipamento raiado de azul e negro do Inter de Milão, Lewis dá toques na bola sem a deixar cair nas traseiras de sua casa, debaixo de um labirinto de fios eléctricos e junto a latrinas insalubres e a um canal que se transformou em lixeira comunitária. “Eu gosto de viver em Ajegunle”, diz o avançado. “Aqui sou conhecido e gostam de mim por eu ser um bom futebolista. Os melhores jogadores nigerianos nasceram todos aqui”. Lewis tem razão. Ajegunle é o berço de grandes campeões nigerianos como o defesa-central Taribo West, o ex-avançado do Sporting Emmanuel Amunike e o médio fantasista Jay-Jay Okocha. Há talento à solta na cidade-selva.

Lewis. Foto: João Henriques.

A maior concentração de dons exibe-se no campo Maracana que, apesar do nome, não tem qualquer semelhança com o estádio brasileiro. O terreno pelado foi assim baptizado por ser o maior espaço livre para a prática do futebol em Lagos. Logo pela manhã, enquanto as crianças tomam banho nuas em alguidares defronte das casas e as mães cozem batatas em panelas ferrugentas, o campo enche-se de centenas de aspirantes a profissionais: “É assim desde as 6h da manhã até às 20h da noite. O Maracana nunca pára”, diz Michael Adebayo, gestor do recinto. E não é o único. Há o Adidas Park, o Navy Barracks e dezenas de outras parcelas de terreno com duas balizas onde largos milhares de adolescentes passam os dias. Tornaram-se históricos pela passagem da maioria das vedetas da selecção nacional que por aqui viveram ou jogaram a Taça das Nações Africanas de Ajegunle, o campeonato organizado pelo bairro. Olheiros nacionais e internacionais acorrem anualmente ao bairro para assistir a esta competição que simula a CAN com a intenção de recrutar os melhores jogadores para os seus clubes. Em Lagos diz-se mesmo que o nível na Taça das Nações de Ajegunle é superior ao da liga nigeriana.

Foto: João Henriques.

Foto: João Henriques.

Depois dos campos de futebol, o estúdio Jahoha é o espaço mais concorrido. Uma criança que nasça em Ajegunle só pode aspirar a duas coisas – ser músico ou futebolista. E, para tal, tem de contar com a ajuda de Deus. Futebol, música e Igreja; eis as inscrições no brasão do bairro.

Lewis. Foto: João Henriques.

Lewis é um dos jovens que transporta o sonho. Conhecemo-lo após uma partida dos quartos-de-final de um dos muitos torneios inter-academias do bairro, entre a sua equipa, Young Talents, e a equipa evangéliga, Young Stars, que se ajoelha em bloco dentro da baliza para rezar antes do início do desafio. Lewis foi o escolhido para fazer o remate decisivo no desempate por grandes penalidades e não errou. Guarda-redes para um lado, bola para o outro. “Aqui a competição é tanta que não podemos falhar. Quando arranquei para a bola sabia que para chegar a profissional tinha de marcar”, diz o avançado. Como a maioria das casas do bairro, a de Lewis é repartida por várias famílias. Um corredor estreito e escuro separa as várias divisões que têm portas de rede, como as de um galinheiro. O corredor é o espaço comunitário, onde se cozinha, se janta, se lava a roupa e se joga às cartas. Apesar da penúria em que vive, Lewis gosta de viver em Ajegunle porque se sente na capital do futebol. “Quando aqui cheguei, com cinco anos, comecei a jogar na rua e integrei-me por causa do futebol. Hoje toda a gente me conhece e me admira e tratam-me bem porque têm esperança de que eu chegue a profissional e os possa ajudar com algum dinheiro”, diz. Para não desiludir os que nele depositam esperança, treina três vezes por dia. A sua popularidade é facilmente constatável; basta começar a acariciar a bola com dois ou três toques e logo se junta uma numerosa multidão de homens, velhos e bebés a aplaudi-lo. Lewis tem talento mas o problema é que em Ajegunle há milhares como ele. Os que não conseguem atingir o sonho vagueiam pelas ruas miseráveis, procurando sobreviver à custa do pequeno comércio, do tráfico de droga e das pilhagens. “Temos aqui ex-jogadores profissionais ao abandono que depois de se retirarem foram obrigados a voltar ao bairro para pedir dinheiro”, conta Baale Akani Ojora, chefe tradicional Yoruba de uma das partes do bairro, que tem a seu cargo um milhão de pessoas. Ele tem de resolver inúmeros problemas – assaltos, agressões e violações. De vez em quando, a polícia entra a matar. Uns dias antes da nossa chegada, dispararam um bala letal sobre um rapaz de 16 anos. Quando o bairro se manifestou em frente da esquadra mais quatro pessoas foram baleadas. Assim é a rotina no maior bairro de lata da Nigéria.

Baale Akani Ojora. Foto: João Henriques.

“Ajegunle tem tão má reputação que ninguém admite ser de lá”, diz Daddy Showkey, o músico mais reputado do bairro que nos recebe na sua vivenda no bairro de Ikeja. “Se dizes que és de Ajegunle pensam que és criminoso e nem te dão trabalho. Então, as pessoas preferem dizer que são dos bairros vizinhos”. O cantor de reggae nasceu nas ruas do ghetto e prefere falar das suas virtudes. “Ajegunle é a terra prometida. Um sítio onde as pessoas não têm nada mas se têm umas às outras, uma terra de múltiplas culturas, uma cidade onde cada criança tem o seu talento. Há tantas culturas diferentes que se viveres em Ajegunle podes viver em qualquer lado. É um país dentro do próprio país”, diz o cantor.

Daddy Showkey. Foto: João Henriques.

Visto de cima este país é uma enorme mancha castanha de chapa ferrugenta, uma alfurja residencial, um viveiro de indigentes. Não há água canalizada, luz eléctrica nem saneamento básico. O esgoto corre ao lado das pessoas e dos animais transportando doenças nas suas águas esverdeadas que, mesmo assim, são aproveitadas por uma mulher para lavar as sandálias. Regimentos de desempregados aglomeram-se nos cafés e nas paragens de Okadas (motos-táxi que asseguram o transporte de pessoas e mercadorias), à espera da oportunidade para fazer o seu dólar diário. Crianças correm descalças em ziguezague pelas ruas estrumadas. Quando o governo quer fazer uma rua nova manda um bulldozer passar por cima das barracas que ficam reduzidas a metade. Sem ter para onde ir, as famílias ficam a habitar em meia casa, sem tecto e paredes, à vista de toda a gente. A sobrepopulação é tanta que não se pode abandonar uma casa nem por um segundo. Se alguém vai de fim-de-semana para a aldeia corre o risco de que um burlão venda a sua casa a outra família. Contudo, há um Ajegunle que corre ligeiro e alegre sobre o lodo.

Como quase ninguém tem televisor os habitantes reúnem-se em centros de vídeo para verem juntos as novelas mexicanas, filmes e jogos de futebol. Como o calor é muito e ar condicionado é tecnologia de ficção, as pessoas passam as noites a conviver e a dançar na rua. A união é tanta que, durante os Mundiais, Ajegunle veste-se, pinta-se e celebra como se fosse o bairro a organizar a competição. É um hino à multiculturalidade. Aqui coabitam 50 etnias diferentes com os seus 50 dialectos. No entanto, Ajegunle têm uma língua comum – o broken-english – inglês embebido num molho de vocábulos africanos.

 “Ajegunle é o único bairro de Lagos com um custo de vida suportável e onde se pode arranjar uma casa. Quem deixa a sua aldeia na Nigéria vem para Ajegunle”, diz Daddy Showkey. Foi o que fez Chideber Ncharam, 15 anos, defesa-esquerdo da academia dos Young Talents. Com dez anos, deixou a sua aldeia de Awo-Mmama, no este, para ir ter com o seu irmão Kingsley à cidade-selva. Muito antes dele, centenas de milhar de membros da etnia igbo vieram do mesmo sítio para escapar à guerra civil. Encontro-o no quarto a assistir com o irmão ao filme “Mortos-Vivos 2”, uma produção de Nollywood, a poderosa indústria cinematográfica nigeriana que já é a segunda mais prolífera do Mundo. Chideber não estuda e abriu um salão de barbeiro mínimo nas traseiras da casa. Cobra um euro por cada corte que junta para comprar camisolas e chuteiras para os treinos. Tal como Lewis, ambiciona sair de Ajegunle para uma equipa nigeriana e daí para um grande clube Mundial. Mas Chideber sabe que é um entre muitos: “Há tantos jogadores aqui no bairro que posso fazer 50 jogos com academias diferentes de Ajegunle sem reconhecer a cara de um adversário”. Lewis e Chideber têm uma missão complicada mas Daddy Showkey, tal como os outros triunfadores da favela, West, Okocha, Amunike ou Siasia, pensam positivo: “Ajegunle é um bairro abençoado. Dá a bênção a cada um para poder escolher o seu futuro e lutar por ele”.

Futebol na Nigéria

A selecção nigeriana de futebol é a terceira selecção africana melhor posicionada no ranking FIFA, somente atrás de Egipto e Camarões. Na história destaca-se a geração dos anos 90 com jogadores como Rufai, Taribo West, Sunday Oliseh, Jay-Jay Okocha, Kanu, Yekini, Amunike e Finidi. Venceram os Jogos Olímpicos de 1996 a Can’94 e chegaram aos oitavos-de-final dos Mundias de 1994 e de 1998. O seu actual treinador é o sueco Lars Lagerbäck que vai disputar o Mundial no grupo da Argentina, da Grécia e da Coreia do Sul. A liga doméstica é competitiva e disputada por 16 equipas. Os Enugu Rangers, com seis títulos, são a equipa com melhor palmarés.

B.I. de Ajegunle

Habitantes: 3 milhões de pessoas (estimado)

Etnias residentes: 50 (Igbo maioritários)

Esperança média de vida – 55 anos

Orçamento diário médio de um habitante – 200 naira (1 euro)

Personalidades famosas – Taribo West, Emmanuel Amunike, Jay-Jay Okocha, Samson Siasia, Daddy Showkey e Stereo-Man.

*Tiago Carrasco, João Henriques e João Fontes foram de Portugal à Àfrica do Sul no projeto Road to World Cup,  . Foi mantida a grafia original, de português de Portugal.