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Os sonhos de Katumbi

Felipe Nascimento Prestes

Moises Katumbi é uma espécie de Assis Chateaubriand da província de Katanga. Governador local, Katumbi serve o estado com dinheiro do próprio bolso, para que o estado também sirva a ele. Quando assumiu o governo, em 2007, a província não possuía nenhuma ambulância. Katumbi comprou logo sessenta com seu dinheiro, ganho com a extração de minerais.

A República Democrática do Congo (eterno ZAIRE) é responsável por 30% das reservas mundiais de diamantes e por 70% das reservas de coltan, minério essencial para a produção de notebooks e telefones celulares mundo a fora. Essa riqueza faz com que o país viva uma constante disputa entre lideranças multimilionárias como Katumbi, enquanto a maior parte da população vive na miséria.

O futebol é parte importante desta disputa. O jornalista britânico Steve Bloomfield aponta que, no último trimestre de 2009, o orçamento do Ministério do Esporte foi três vezes maior que o do Ministério da Justiça. Em 2009, após uma vitória da seleção do Congo contra Gana, o presidente Kabila deu um Toyota Prado e um envelope com gorda quantia de dinheiro para cada um dos jogadores.

O comandante das Forças Armadas do país é dono do Maniema Union; o governador da província de Kinshasa (onde fica a capital do país, de mesmo nome) é dono do AS Vita Club. Moises Katumbi é dono do Tout Puissant Mazembe – em português, o Todo-Poderoso Mazembe – que acaba de vencer seu quarto título da Liga dos Campeões Africanos, o segundo consecutivo.

Steve Bloomfield visitou Lubumbashi, cidade-sede do Mazembe, com cerca de 1,5 milhão de habitantes, enquanto a equipe disputava as semifinais e finais da Liga dos Campeões Africanos de 2009. Correspondente do The Independent na África entre 2006 e 2010, Bloomfield registrou toda a excentricidade e narcisismo de Katumbi no excelente “Africa United: How Football Explains Africa”, lançado pouco antes da Copa do Mundo. Um brilhante relato sobre futebol, paixão, cultura, política e identidade nacional na África, que ainda aguarda tradução para o português.

Bloomfield visitou um líder guerrilheiro em seu esconderijo, na floresta tropical. Foi até um campo de refugiados no Sudão. Sempre guarnecido por seguranças armados até os dentes, visitou a Somália, um país sem estado. Esteve também na mansão de Moises Katumbi.

Foto: João Henriques.

Assistiu ao governador de Katanga praticar tênis, como faz todas as manhãs. Os muros em volta da quadra de tênis exibem murais que mostram passagens da vida do dono do Mazembe. Katumbi em um jet ski no lago de sua mansão rural. Katumbi lutando contra um crocodilo. Katumbi fazendo um ace.

O jornalista também conversou com Katumbi em uma sala com uma enorme televisão de plasma, sempre ligada no noticiário local. “Ele interrompe a conversa sempre que as notícias falam dele”, notou Bloomfield. “O que acontece muitas vezes, já que Katumbi é o dono da emissora”.

Personalista, Katumbi gosta de visitar as repartições da província de surpresa, às 8h da matina, para ver se os funcionários chegaram no horário. Por precaução, leva sempre consigo maços de dinheiro, caso precise ajudar algum cidadão necessitado. “Ele me contou orgulhoso que venceu a eleição com 98,8% dos votos. Durante os poucos dias em que o segui pelas ruas de Lumbumbashi ele me pareceu bastante determinado a conquistar os 1,2% restantes”, escreveu Bloomfield.

No jogo de volta das semifinais da CAF Champions do ano passado, o Mazembe perdia em casa para o Al Hilal, do Sudão, por 2 a 0. Como havia vencido o primeiro jogo por 5 a 2, precisaria levar mais dois gols para ser eliminado. Isto não foi o suficiente para acalmar Katumbi, que desceu para o vestiário no intervalo e deu, ele mesmo, orientação para os jogadores, inclusive mexendo no posicionamento do time.

O sonho de Katumbi era fazer do Mazembe o melhor time da África novamente – o clube fora bicampeão africano em 1967 e 1968. Ele conseguiu. Katumbi tinha outro sonho: vencer o Mundial, jogando contra o Barcelona. Em 2009, isto era possível já que o Barça também disputou o torneio. Possível apenas na teoria, dirão os céticos. Mas eu cheguei a acreditar que a vitória do Mazembe era irrevogável.

Isso porque, durante os noventa minutos dos dois jogos do Mazembe no torneio, um torcedor da equipe com a cara toda pintada e com um saiote de palha típico de feiticeiros africanos dançou sem parar. Por um momento, achei que o Mazembe poderia fazer do pequenino Messi um simples bonequinho de vodu, espetado por uma chuva de gols africanos. Mas não, o Mazembe mostrou ingenuidade contra o Pohang Steelers, da Coreia do Sul, e foi eliminado nas quartas-de-final. Depois ainda conseguiu perder a decisão de quinto lugar para o Auckland City.

Foto: João Henriques.

Agora, com o time já mais rodado, o Mazembe tem nova chance. No dia 14 de novembro, com um empate por 1 a 1, na Tunísia, o Mazembe superou o Esperance e sagrou-se campeão da CAF Champions de novo. No primeiro jogo, para 35 mil congoleses em chamas, o Mazembe havia triturado o Esperance: 5 a 0.

Sobre este jogo, Bloomfield anotou em seu Twitter: “Um gol em que a bola não entrou, um cartão vermelho que ninguém viu e um pênalti matreiro. Não, o futebol africano não tem problemas de corrupção”. Eu sinceramente achei que a bola entrou e que foi pênalti. No segundo jogo, contudo, decisões discutíveis pró-Mazembe se repetiram. Os torcedores do Esperance lotaram o estádio mesmo com a missão quase impossível. O clube tunisiano abriu o placar cedo, depois de mais de 20 minutos de abafa. Mas, antes mesmo de o Mazembe dar a saída após o gol, um jogador do Esperance foi expulso sem qualquer explicação aparente.

Não se trata aqui de criminalizar um possível adversário do Internacional. O Esperance, por exemplo, classificou-se para a final pelo saldo qualificado contra o Al Ahly, vencendo em casa por 1 a 0, com gol de BRAÇO. E sabemos bem que a corrupção no futebol não é problema exclusivo da África. A combinação “um milionário, um clube de futebol”, cantada por João Gilberto, não dá boa coisa em lugar nenhum do planeta. Além disso, o Mazembe tem muitos méritos. Faz um trabalho importante, a ser seguido pelos demais clubes africanos.

Para a temporada 2009, Katumbi investiu cerca de 3 milhões de euros. Steve Bloomfield afirma que a estrutura do clube congolês é similar a de clubes da segunda divisão do futebol inglês, o que não é pouco. O Mazembe é um dos poucos clubes africanos que consegue segurar jogadores. Estrela congolesa, o atacante Tresor Mputu foi assediado inclusive pelo Arsenal e permanece no clube. Seu salário em 2009 era de 10 mil euros. Mas o melhor de tudo são os prêmios. Por cada vitória do Mazembe na CAF Champions os jogadores chegam a receber a 8,5 mil euros.

Foto: João Henriques.

Mputu, entretanto, não deve estar no Mundial. Apenas porque ele e um colega resolveram dar uma COÇA no juiz etíope de uma partida da CECAFA Kagame Cup, em maio deste ano. Pegaram um ano de suspensão para jogos internacionais. Talvez o Mazembe não sinta a falta de seu artilheiro. O clube hoje conta com dois mil garotos nas categorias de base. Deo Kanda, 21 anos, fez o gol do título, o de empate, em Túnis. E Katumbi garantiu a Bloomfield ter na base um garoto chamado Pele Pele, que é “melhor que Messi”.

Com esta estrutura, o torcedor do Mazembe que sonhar com o título mundial não chega a ser caso para internação psiquiátrica. E ninguém mais que Katumbi vai dizer que o “o Mazembe é o Congo no Mundial”. O governador de Katanga não é fã de Galvão Bueno. É que ele tem outro sonho – este bem mais realizável. Katumbi quer ser presidente do Congo. As eleições serão em 2011. Alguém duvida que ele pode conseguir?