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Os tempos do futebol

Plínio Labriola Negreiros

Sempre acompanho os jogos do Corinthians. Isso já faz mais de meio século. Seja presencialmente, nos estádios nos quais ele se apresenta, seja por qualquer outro meio possível; na TV aberta, sempre sem som. Algumas vezes, via rádio, ainda uma experiência bem interessante. Ainda pode ser via internet, sem as imagens, mas com os lances minutos a minuto; em alguns portais, o gol é realçado por meio de algum som característico. Raras vezes, em partidas muito importantes, nas quais eu sinto que as minhas condições cardíacas talvez não estejam plenamente em ordem, opto por algo mais radical: não ligo a televisão, rádio ou computador, e passo à leitura de algum livro. E como acompanho a partida? De uma forma muito simples: conforme o barulho originário dos vizinhos e do entorno, consigo identificar os caminhos do jogo. Se escuto um “chupa, gambá”, do mesmo vizinho que bateu muita panela e foi muito deselegante com a Dilma e o Lula nesses últimos tempos, sei que as coisas não estão boas para o Timão. Então, tendo a ver o que aconteceu e, quase imediatamente, vejo como está a partida. Avalio que o time necessita do meu apoio para a virada e passo a ver a disputa. Caso escute um “aqui é Corinthians, porra”, sei que algo bom ocorreu para o alvinegro e, em regra, continuo a ler o meu livro porque, certamente esse meu ato está contribuindo para sucesso provisório do time.

De qualquer forma, hoje há uma característica muito marcante: a não ser que alguém esteja num espaço de isolamento e desligado dos meios eletrônicos, as notícias sobre uma partida certamente chegarão. Mais do que isso: na internet, poucos minutos depois de um gol ou lance importante, as imagens já se apresentam e podem ser compartilhadas. Aliás, na internet as imagens podem ser capturas quase ao vivo. Mas, é óbvio, nem sempre foi assim. Já foi bem mais difícil ter notícias e, principalmente, imagens de uma partida de futebol.

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Torcida do Corinthians apoio o time em treino antes da partida contra o rival Palmeiras. Foto: Fábio Soares/Futebol de Campo.

Recorto o início dos anos 1970 como o momento em que eu passei a olhar para o futebol do Corinthians com bastante acuidade. E não era fácil ver as imagens das partidas e mesmo saber de alguns resultados. E por muitas razões. Lembro de algumas.

A minha família era constituída de nove pessoas. Pai – felizmente corinthiano -, mãe – corinthiana, depois de uma origem familiar palestrina -, minhas quatro irmãs mais velhas, meu irmão mais novo e a minha avó materna. Todos moravam juntos em uma casa na Luz, muito próxima ao Bom Retiro. Nesse lar, apesar de ser a época do “milagre econômico” da Ditadura Militar, apenas um aparelho de televisão, com imagem em preto e branco. Dessa condição, derivou um complexo processo de negociação, que envolvia todos os componentes da família. Entre inúmeras negociações, resgato uma: meu irmão e eu podíamos ver na extinta TV Tupi um programa apresentado aos domingos, ao meio-dia. Chama-se Comendo a Bola e era apresentado por Gerdi Gomes. No programa, gols de partidas passadas. Afirmo, mas não precisava: gostávamos muito. Já vasculhei o portal da Cinemateca Brasileira, que guarda o acervo jornalístico da TV Tupi, mas nunca achei imagens desse programa. Sempre que posso, faça uma cuidadosa busca na internet e nada. Provavelmente essas imagens não existam mais. A Rede Tupi de Televisão, por muitos anos a mais importante do país, não vinha bem desde o fim dos anos 1960. A sua crise econômico-financeira a obrigava a se utilizar de fitas gravadas para a gravação de novos programas. Dessa forma, sabe-se hoje que fitas com os capítulos iniciais da marcante novela Beto Rockfeller foram utilizadas para a gravações de novos capítulos. São documentos perdidos.

Por outro lado, saber das partidas que aconteciam também não era muito fácil. Meu pai gostava de ir aos estádios para que pudesse ver o Corinthians ou outra equipe. Mas essas idas ao estádio não eram tão frequentes. Meu pai não gostava de ir ao estádio Cícero Pompeu de Toledo, por achava que era muito longe, mesmo indo de carro, e muito ruim de ver o jogo, porque da arquibancada se via os jogadores muito distantes. Isso não impediu que fossemos assistir, em 1970, nesse estádio, um São Paulo e Ponte Preta, uma verdadeira final, mesmo num campeonato de pontos corridos. Lembro-me da dificuldade em chegar e entrar no estádio, que só foi possível aos 30 minutos do primeiro tempo, quando o mandante já ganhava por um gol. Recentemente, vi as imagens dessa partida e ressalto: o árbitro, Arnaldo Cesar Coelho, inventou o pênalti que deu origem ao primeiro gol. Meu pai também não gostava de jogos aos domingos, que para ele devia ser o dia da família, materializado com um bom almoço, que deveria ter refrigerante/suco e sobremesa, como sorvete. Assim, não era tão fácil a ida aos jogos. E na minha memória, um momento muito triste: jogo do Timão no Pacaembu contra a Portuguesa, em 1972, num sábado a tarde, e, soube apenas depois da partida, meu pai foi com a minha irmã mais velha, corinthiana, e não levou nem meu irmão, nem a mim. Vitória por 3 a 2, com gols e grande atuação de Rivellino. Sinto, até hoje, por não ter visto in loco essa conquista do alvinegro. Felizmente, as imagens ainda existem.

Em compensação, mais de uma vez, algo bem interessante acontecia e envolvia meu pai, meu irmão e eu, e, é claro, o futebol. Meu pai gostava muito de levar os filhos para passear. Isso fez com que conhecêssemos muitos parques na cidade e fora dela. Em alguns desses passeios, na volta para casa, ao passar pelo estádio municipal Paulo Machado do Carvalho, o Pacaembu, víamos os refletores acessos. O carro era parado bem próximo a uma entrada e íamos olhar quem estava jogando. Nessa época, os portões eram abertos aos 15 minutos do segundo tempo e quem não podia pagar o ingresso, entrava de graça. Não eram poucos os que faziam isso. Numa dessas paradas, entramos e visto o Santos derrotar a Portuguesa, de virada, por 3 a 2. Vimos o 3º gol, feito pelo Pelé e foi, sem dúvida, um gol de Pelé.

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Torcedora e sua fé no estádio do Pacaembu. Foto: Fábio Soares/Futebol de Campo.

Por outro lado, jogo com transmissão ao vivo era muito raro. Sem saber precisar muito o tempo, sei que a TV Record, talvez desde meados da década de 1960, fazia transmissões ao vivo, nos domingos à tarde, a partir do Pacaembu. Na avaliação da Federação Paulista de Futebol tais transmissões ao vivo diminuíam o público dessas partidas e, em 1965, no início de uma semana, proibiu a transmissão que ocorreria já no domingo subsequente. Emergencialmente, a TV Record colocou no ar o programa Jovem Guarda, comandado por Roberto Carlos – o rei da juventude. Foi um sucesso e ficou no ar, salvo engano meu, até 1968. Dessa maneira, com poucos jogos ao vivo, ver imagens do futebol, ao menos para mim, com, mais ou menos, 10 anos, era um périplo.

A TV Tupi passava a íntegra de uma partida no domingo, às 22 horas. Não eram os melhores lances ou um compacto da partida, mas os noventas minutos, com um curto intervalo entre os 1º e 2º tempos. Era sempre a partida mais importante da rodada, normalmente um clássico. Então, diante de um jogo importante, o ritual era claro. Iniciava a semana lendo a página de esportes do jornal todos os dias e comentando e apostando com os amigos e colegas da escola. No dia da partida, concentração total. Lia o jornal do domingo com as últimas informações, como escalação dos times e palpites dos cronistas esportivos. Afinal, que era o favorito? Depois, refazia os tratados familiares e assistia, um pouco antes do almoço, o citado Comendo a Bola. Era o momento de ver uma grande vitória do Corinthians contra o adversário de horas mais tarde. Depois do almoço, ligava o rádio. (E nem sempre havia um rádio disponível e era necessário arrumar algum emprestado ou escutar no rádio do carro.

A final de 1974, na qual formos derrotados pela equipe de verde, meu pai, meu irmão e eu, escutamos a narração da partida num aparelho emprestado pelo senhor Antônio Carlos, vizinho de rua e pai dos nossos amigos de infância.). Se fosse na rádio Bandeirantes, a minha preferida, começava a acompanhar a programação desde o início da tarde. Gostava muito de um programa, que não me lembro do nome, que escolhia uma partida antiga e a apresentava. Eram partidas, geralmente, dos anos 1950 e 1960. É claro, sempre grandes partidas. Vinha, finalmente, a tão esperada partida. Algumas dúvidas precisam ser sanadas com rapidez. O estádio estava cheio? A maior parte era de corinthianos? Para qual direção as equipes atacariam no 1º tempo? Com qual uniforme cada equipe jogaria? Acreditava que quando o Corinthians apresentava de camisa e meião brancos e calção preto, aumentavam as chances de vitória.

Com o começo da narração, entrava no espírito do narrador e conseguia ver a partida, conseguia entender o que estava acontecendo. Via, mas não via. Portanto, caso fosse uma partida com uma vitória heroica do Corinthians ou com alguma polêmica, terminada a partida, iniciava outra difícil e longa espera, a das imagens da partida. Era necessária a espera do citado vídeo tape da TV Tupi. Mas, para assisti-lo, dois grandes problemas: negociar a televisão domingo à noite com muitos outros atores familiares e negociar com meus pais dormir bem mais tarde que o permitido. Em 1971, e a partir de 1973, estudada na parte da manhã e tinha que acordar muito cedo. Aliás, um terceiro problema: em quais momentos da partida ocorreram os lances decisivos. Isso porque, se numa partida com a vitória corinthiana por um gol a zero, tal tento foi anotado no início do 1º. tempo, a negociação familiar era clara: viu o gol, a televisão era desligada, sem tolerância.

Essa condição familiar particular me colocava diante de um cuidado especial: ao acompanhar a transmissão radiofônica, memorizar o tempo em que os principais lances ocorriam. A bola na trave? Pouco depois do gol de empate. Ou: o pênalti não marcado antes do gol impedido. Assim, o vídeo tape era quase que uma nova partida. E vale lembrar: para algumas pessoas era, de fato, uma nova partida, porque assistiam à reprise sem saber do resultado do jogo. Coisas de outros tempos. Tempos que um ingresso custava algumas moedas. (Em cálculo pouco rigoroso: com um salário-mínimo, em 1977, comprava-se por volta de 90 ingressos de arquibancada; hoje, o mesmo salário-mínimo compra, mais ou menos, 19 ingressos.).

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Bandeirões da torcida corinthiana. Foto: Fábio Soares/Futebol de Campo.

Nesse contexto, há uma partida especial. Abril de 1971, Corinthians 4 a 3, contra a equipe do Parque Antártica. Era um domingo muito frio, talvez com alguma garoa ou chuva. Acho que a família toda, menos a minha avó Maria, estava dentro do fusca azul claro do meu pai. Voltávamos do parque do Ibirapuera. Não lembro o que fomos ver no prédio da Bienal. Sei que ligamos o rádio e escutamos sobre a vitória, de virada, do Timão. Para mim, virada significava que estávamos perdendo de 3 a 0. Confesso, fiquei um pouco triste quando soube que o adversário não passou do 2 a 0 e que chegamos ao empate, sofremos o desempate, empatamos e viramos. Bom, era necessário esperar a reprise da partida, como se sabe, às 10h na Rede Tupi de Televisão. Confesso que não me lembro exatamente o que aconteceu. Não me recordo como vi os gols dessa partida. De qualquer forma, para quem quis ver a grande vitória corinthiana pela televisão, teve que assistir até o fim da partida, pois a conquista foi selada com um gol do Mirandinha muito próximo dos 45 do segundo tempo.

Nestes mesmos anos 1970, outro problema para ter notícias sobre jogos, no meu caso, do Corinthians. Com a política do ‘onde a Arena vai mal um clube no Nacional”, o Campeonato Brasileiro chegou aos 132 disputantes. Com isto, havia jogo em todos os cantos do país. Alguns, bem distantes de São Paulo, inclusive em cidades com fusos horários bem diferentes da capital paulista. Assim, houve partidas realizadas em Manaus, que começavam às 22h, pela hora de São Paulo e sem transmissão radiofônica. Ou melhor, era possível escutar a narração da partida por meio de onda curtas, o que não era fácil sintonizar nem encontrar um aparelho que fizesse essa captação. No dia seguinte, os jornais não traziam o resultado, porque fechavam as suas edições antes do término da rodada. Inclusive, por mais difícil que seja acreditar, vi a Folha de S. Paulo publicar, na primeira página, os resultados das partidas ao final do 1º. tempo. E não era comum a televisão ter as imagens de todas as partidas. Assim, era difícil e demorado saber de um resultado. Algumas imagens, eu nunca vi.

As transformações nesse meio século foram brutais. Hoje, não apenas para o futebol, as imagens são exageradamente numerosas. São imediatas e instantâneas. O prazer de ver algo sobre uma partida é atendido com extrema rapidez. E tudo passa muito rápido, inclusive esse prazer. O lapso entre o acontecimento no futebol e a massificação das imagens era mais longo. O prazer também se encontrava numa espera que, muitas vezes, parecia longa demais. O mundo e o futebol, comparando-se com os dias de hoje, eram mais lentos. Essa é apenas de uma série de outras transformações.