27.1

Os vazios no futebol, os versos compostos individualmente e as estruturas poéticas coletivas

Marcos Marques dos Santos Júnior

O jogador de futebol, enquanto artista é, sobretudo, um inventor de espaços.
CAVALCANTE

Os versos individualmente compostos do Poema-Futebol ainda estão sendo escritos, grandes versos já foram compostos por Garrincha, Messi, Marta, Ronaldo, Neymar, Maradona, Ronaldinho Gaúcho, Pelé, Zidane, Romário, Robinho etc. primeiro entendamos que esses versos individuais não são entendidos aqui somente pelo drible “insulto gestual sem violência, criativo domínio da bola, do corpo, do tempo e do espaço para iludir o adversário”1, mas também como outras ações individuais dos jogadores dentro do contexto de jogo, por exemplo, o jeito mágico que Zidane dominava a bola e chamava-a de meu amor, seu jeito de conduzi-la e a elegância de Paulo H. Ganso ao dar passes “rasgando” as defesas dos adversários. Ilustremos uma situação de jogo: “No pé de Garrincha a bola estava, entre Garrincha-bola e o adversário, estava o vazio, era ali que os versos de Garrincha e de outros citados eram e ainda são compostos.

Garrincha aplica drible. Foto: Pressens Bild (disponível na Wikipédia).

“As práticas corporais projetadas no espaço “vazio” desvelam aquilo que somente os conscientes de suas dimensões podem enxergar. Não basta ver. É preciso intuir, imaginar, transcender as limitações impostas para poder criar.” (SOUZA, 2010).

As estruturas poéticas do Poema-Futebol construídas com mais qualidade atualmente são as do FC Barcelona, a construção se dá quando o time vai garimpando os espaços vazios com rapidez, um dos diferenciais dessa equipe é que ela usa espaços do campo pouco habitados por outras, ou seja, qualquer lugar é propício para esse time iniciar uma jogada mais incisiva.

O preenchimento de espaços se dá com deslocamentos constantes o que resulta em um jogo de aproximações também constantes, o número de passes de primeira (sem domínio) é enorme, na hora da “troca de passes” todos os jogadores agem como se fossem uma referência para o outro, jogando de costas para o adversário, todos podem ser pivôs (posição do futsal em que o atleta joga quase sempre de costas para o adversário), se a evolução ao gol ficar difícil, outro jogador sai de onde está e fica como a referência para o que tem a bola, enquanto os outros se deslocam. “Ao direcionar o olhar para as estruturas, deve-se ter muito claro que existe uma dinâmica permanente que a mantém, não é algo estanque, parado, morto. E a “vida” que a equipe manifesta surge desse movimento constante.”2 .O que dá prazer nos jogadores do Barcelona é a fluência coletiva, o que por sinal é muito bonito também aos olhos de quem os assiste.

Essa vida e energia pulsantes que o Barcelona é dentro de campo podem ser comparadas à poesia concreta, na década de 50 o movimento de vanguarda buscava uma poesia mais viva, palavras em contato com as experiências da vida. Não simplesmente as letras caindo de pára-quedas no papel branco sem uma construção ou qualquer sinergia com o acontecimento poético em vigor, ali.

“Ideograma: apelo a comunicação não-verbal, o poema concreto comunica a própria estrutura conteúdo, o poema concreto é um objeto em e por si mesmo, não um intérprete de sensações mais ou menos subjetivas.”

“- o poeta concreto vê a palavra em si mesma – campo magnético de possibilidades – como um objeto dinâmico, uma célula viva, um organismo completo, com propriedades psicofisicoquímicas tacto antenas circulação coraação: viva.”
Augusto de Campos, Textos. Poesia concreta: um manifesto.

Mas, diferentemente dos versos individuais, as estruturas poéticas construídas coletivamente são mais difíceis de perceber devido ao grande dinamismo do futebol atual, a demanda de atenção ao jogo tem que ser maior, por exemplo, para visualizarmos o esquema tático do Barcelona com dois triângulos, um apontando para a sua defesa e outro com vértice apontando para o ataque. João Cabral de Melo Neto em outro excerto do poema “escritos com o corpo” compara “a frase” (novamente em sentido de completude /sintaxe) com uma pintura, ambas vistas de longe e depois vistas de perto com um olhar mais perceptivo. Observemos a figura, em seguida leiamos o poema:

Imagem do site Futebol Tático de Leandro Zago.

De longe como Mondrians
em reproduções de revista
ela só mostra a indiferente
perfeição da geometria

porém de perto, ao olho perto,
sem intermediárias retinas,
de perto, quando o olho é tacto,
ao olho imediato em cima,

se descobre que existe nela
certa insuspeitada energia
que aparece nos Mondrians
se vistos na pintura viva.
Melo Neto (1920)

Desde o início da partida a maneira de jogar do Barcelona impõe uma verdadeira desordem no time adversário, desordem essa que perdura na maioria das vezes até o final do jogo, com índices de porcentagem de posse da bola muito superior a seu favor, o gol para o Barcelona é conseqüência, pois o time é paciente e joga em padrão, com todos os jogadores conscientes desse padrão. A equipe dificilmente dá chutões, não tem medo da bola, constrói seus gols abusando dos passes rentes a grama, quando o time quer conectar uma jogada mais longa, são usados lançamentos que tendem a ser mais conscientes e nesse caso há o processamento de toda a informação durante as situações de jogo, correspondendo a visualização do posicionamento do companheiro, a força que vai se desprender na batida da bola, a parte do corpo que o companheiro vai realizar o domínio etc. Enfim, esse time sabe aonde quer chegar em cada partida, garimpa bem as partes do campo e também de cada jogada, dá muito valor ao ato de possuir a bola e de perceber bem o jogo.

O que estamos vendo nos jogos do Barcelona é bem mais que a capacidade individual de alguns de seus jogadores, nesse time fluência coletiva vira identidade. “… julgo impossível conhecer as partes sem conhecer o todo, assim como conhecer o todo sem conhecer as partes em particular”3. O gol do Barcelona é visto aqui como conseqüência dessas partes, o todo. Vimos que o Barcelona é realmente um time e que para ganhar uma partida ou um jogo de futebol é preciso construir poemas e não somente versos. Versos individuais e estruturas poéticas: O Futebol-poema sempre em construção.

Referências
Cavalcante, Diego Frank Marques. Estéticas espaciais no futebol brasileiro: para uma semiótica do drible futebolístico. Semeiosis: semiótica e transdisciplinaridade em revista. [suporte eletrônico] Disponível em: <http://www.semeiosis.com.br/semiotica-do-drible/>. Acesso em 22/08/2011.

Manoel de Barros. Livro Sobre Nada, disponível para download em: http://www.4shared.com/get/zfmtldgR/Livro_Sobre_Nada_-_Manoel_de_B.html

Melo Neto, João Cabral de, 1920- Antologia poética 7. Ed. Rio de Janeiro, José Olympio, 1989.

Nóbrega, Terezinha Petrúcia da. Merleau-Ponty: O corpo como obra de arte. Disponível em: www.principios.cchla.ufrn.br/08P-95-108.pdf

SOUZA, Maurício Teodoro. A Paralaxe do Conhecimento: da escola que ensina à escola que aprende. Vídeo produzido para a Semana do Ciclo de Estudos da Educação, Unicid 2010.

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[1] Flávio de Campos e José Geraldo Vinci de Moraes. Como o Brasil entra em campo (Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.) disponível em: Revista de História, São Paulo, n. 163, p. 129-135, jul./dez. 2010

[2] Leandro Calixto Zago. As estruturas e as interações da linha de meio-campo e de ataque da equipe do FC Barcelona, disponível em: http://www.universidadedofutebol.com.br/ConteudoCapacitacao/Artigos/Detalhe.aspx?id=14976&p=

[3] Edgar Morin citando Pascal, disponível em: http://www.ufpa.br/npadc/gemm/documentos/docs/artigo_01.pdf. Acesso em: 23/08/2011 às 12:57

Como citar

SANTOS JúNIOR, Marcos Marques dos. Os vazios no futebol, os versos compostos individualmente e as estruturas poéticas coletivas. Ludopédio, São Paulo, v. 27, n. 1, 2011.