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Palmeiras-BH: Torcer fora de casa

Vinicius Garzon Tonet

De quando em quando apareço no barzinho do Palmeiras na rua Guajajaras, no centro da cidade, bem atrás do Minascentro, a dois quarteirões do Mercado Central, em  Belo Horizonte. “Bar do Palmeiras” é jeito de dizer, já que o lugar independe da nossa torcida para funcionar. Mas é difícil ver algum diálogo entre palestrinos erradicados na capital mineira não passar pelas indagações: “vai ver no bar?”, “vai no bar essa quarta?”, “bora no bar?” ou inúmeras variantes que guardam o mesmo sentido. Pois bem, o bar virou “nosso bar” por afetuoso carinho. Assim como foram “nossos” os incontáveis botecos pelos quais os palmeirenses de Beagá já passaram. Na capital mundial dos bares, não é preciso dar nome ao botequim para saber do que estamos falando.

Desde quando ainda nem era, já era torcedor alviverde. Nasci nas alterosas por contingências da vida. Sou mineiro de Belo Horizonte e vivo aqui desde sempre. “Cruzeiro ou Galo?”, “Palmeiras”, “mas e aqui?”. A ladainha é bem conhecida daqueles desterrados em sua própria terra. “Aqui? Palmeiras” e assim vou seguindo. Uma infância e início de adolescência tendo por único companheiro de jogos meu pai, palmeirense do interior de São Paulo, de uma família que, com exceção do meu saudoso avô santista, possui apenas palmeirenses e corinthianos. Volta e meia lembra meu pai: “na família da sua avó são 10 irmãos: 5 Palmeiras, 5 Corinthians”, fato que me impressiona até hoje.

Pois bem, cresci torcendo para que o América permanecesse na Série A do Brasileirão para poder ir pelo menos três vezes por ano ao estádio. Só fui entender que o Palmeiras jogava fora de casa no Mineirão depois de muito tempo. Os embates no Gigante da Pampulha sempre possuíram o fator casa do lado palmeirense, ficção criada na minha cabeça, mas com lastro bem fundamentado no real das vitórias eternas contra o Cruzeiro em Copas do Brasil e Libertadores ao longo da década de 1990. Tenho absoluta certeza que muitos por aqui sentem a mesmíssima coisa.

Torcer de longe sempre foi muito solitário – na alegria e na tristeza. Daí, talvez, a minha obsessão em não perder nem uma partida sequer do Palmeiras em Minas Gerais, seja em BH, Ipatinga ou Sete Lagoas. Eram, e são, momentos preciosos, oportunidades únicas e de uma raridade, acredito eu, “inexperienciável” por torcedores que têm o privilégio de ter o time na esquina de casa. Vejo essa solidão quando lembro da criança que se alegrava quando via passar na rua alguém com a camisa do Verdão. Alegria que se mantém e que, por vezes, não se contém e acaba virando prosa. Tudo é raro e é preciso cuidado com as coisas raras. Mas falar sobre as particularidades psicológicas daqueles condenados à mesma situação que eu é assunto para uma próxima reflexão. Voltemos à importância da comunidade de torcedores do Palmeiras na minha cidade.

A Palmeiras-BH, como é conhecida, foi fundada nos idos de 2006, portanto lá se vão 13 anos de sua existência. Surgiu na extinta rede social Orkut e perdura até hoje. Impossível não atribuir ao poder associativista das mídias virtuais do nosso século o sucesso na formação e consolidação do grupo. Milhares de membros acompanham a rotina da torcida por Instagram, Facebook e Whatsapp, trocando informações, opiniões, lamentos, alegrias e, eventualmente, porrada. Os dois anos iniciais foram anos difíceis devido a baixa quantidade de torcedores e o lendário Betânia Point o lugar onde tudo começou. Em 2008, ano em que descobri a comunidade, os encontros passaram a ser mais frequentes e, desde então, ininterruptos. Hoje, não há mais a necessidade de se confirmar previamente se o bar irá transmitir o jogo ou se alguém estará por lá.

Tinha 14 anos quando comecei a entender, graças à Palmeiras-BH, o que é viver em uma cidade com amigos que torcem para a mesma equipe que você. Pulando de bar em bar – o que definitivamente não falta nesta cidade – Assacabrasa, Abarcateiro, Nonô, Jaeh, Maria’s, É Gol!, e tantos outros, muitos companheiros apareceram e desapareceram. Apesar de infrequentes no Espeto & Brasa, bar atual, o núcleo duro da Velha Guarda ainda existe e possui grandes laços de amizade. O grupo só se firmou devido à atuação dos palestrinos e de algumas pessoas em particular que se dedicavam a procurar bares que aceitassem passar os jogos, a convencer os proprietários de que o acordo seria vantajoso, que brigas não aconteceriam, que não perderia clientes e, além disso, dedicavam-se a mobilizar os torcedores e a espalhar a boa nova para aqueles que ignoravam na paz do sofrimento privado a existência de um conjunto de pessoas que se reuniam para sofrer coletivamente.

Os esforços foram recompensados, o investimento sentimental sustentou os momentos em que o número de pessoas no bar parecia diminuir. Assim, a Palmeiras-BH cresceu. Como toda agremiação humana que perdura no tempo, tivemos rachas e disputas políticas pela liderança interna, mesmo que informal. Em alguns momentos existiram duas Palmeiras-BH, em dois diferentes bares. Houve a reunificação, uma parte do grupo conseguiu transformar a torcida em “Consulado do Palmeiras”, órgão diretamente ligado ao clube, o que durou pouco devido a resistências dentro da própria torcida local. Hoje, vários torcedores de passagem por Beagá sabem da existência do bar e vão até ele para assistir aos jogos do Palmeiras. É uma tradição que vai se formando, para não dizer que já está consolidada. A pergunta que surge na cabeça é involuntária em dias de jogo: “assisto em casa ou no bar?”.

Ao longo dos anos comemoramos vitórias e títulos, choramos derrotas, fizemos um encontro com Ademir da Guia, organizamos viagens, reclamamos bastante, criamos cânticos, bandeiras, camisas, bonés, enfim, construímos uma identidade palmeirense em Belo Horizonte. Criamos um modo de torcer fora de casa, fazendo da capital mineira um pouco mais verde e espantando a solidão de torcer no sofá da sala.

Vida longa!

Camisa da torcida Palmeiras-BH e autógrafo de Ademir da Guia. Foto: Arquivo pessoal.