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Palmeiras e o peso da obsessão

Lucas Magioli

Os 180 minutos da semifinal histórica entre Palmeiras e River Plate, da Argentina, já haviam extrapolados quando o árbitro uruguaio Esteban Ostojich foi conferir, na telinha do VAR, o último lance importante do jogo. Era um possível pênalti a favor dos Millonarios, que, definitivamente, poderia ceifar as chances de o Palmeiras chegar à sua quinta final de Libertadores. O torcedor palmeirense, exigente como se sabe, que acompanha a escalada e a ambição do clube rumo “A glória eterna”, estava ciente das consequências negativas que esse pênalti causaria, especialmente após carregar as experiências das diversas frustrações seguidas em temporadas anteriores, dando a sensação de que, a qualquer momento, iria acontecer de novo.

Rony foi decisivo na vitória contra o River Plate na Argentina. Foto: Cesar Greco/Palmeiras.

O Palmeiras é, de fato, um dos times brasileiros com maior legado na principal competição de clubes das Américas. Estaticamente, o Verdão é o clube brasileiro que mais participou da Libertadores, ao lado Grêmio. Também possui mais vitórias, marcou mais gols e, ainda, é o segundo clube brasileiro, ao lado do próprio tricolor gaúcho e Santos, com mais participações em finais, perdendo apenas para o São Paulo com seis disputas.

Apesar de todo esse bom retrospecto geral na competição, o fechamento do time paulista na Libertadores não é positivo. Até aqui, nas finais que o clube participou, obteve mais derrotas do que vitórias.

Em 1961, os uruguaios do Penãrol saíram vitoriosos na primeira final de Libertadores com a presença de um clube brasileiro. Sete anos depois, em 1968, foi a vez dos argentinos dos Estudiantes ficarem com o título sobre o Palmeiras. Enfim, em 1999, o Palmeiras se tornou campeão diante do Deportivo Cali. Poderia ter conquista o bicampeonato no ano seguinte, em 2000, mas foi vencido em pleno Morumbi. Título para os bosteros de La Boca.

É de conhecimento geral que a Libertadores sempre provocou jogos tensos e dramáticos. E nesses quesitos, os jogos do Palmeiras na competição sempre seguiram as regras. Com disputas rodeadas de expectativas e nervosismos somado a ausência em decisões do torneio nos últimos 20 anos, aos poucos criou-se uma onda generalizada com uma potente mensagem da torcida de que, apesar de tudo, de carregar o mérito de ser o maior campeão nacional do Brasil, a conquista da América é a ambição principal.

“Daria a vida inteira pra ser campeão. A Taça Libertadores obsessão…” como diz o trecho do canto, é uma exigência que transcende as arquibancadas e chega até o campo de jogo. E o jogador sente. Sente a cobrança demasiada que foi nutrida pelo próprio passado do clube. Talvez seja uma mensagem que desponta para reafirmar que o pênalti perdido por Zapata, em 1999, não tenha sido apenas um lapso de momento em meio aos três vices campeonatos do clube. 

Desde a última final disputada pelo Palmeiras, os próximos anos da história do clube na competição devem ser divididos em períodos diferentes. O primeiro, mais longo, é demarcado de 2001 a 2013. No primeiro ano do século XXI, o Palmeiras ainda possuía vestígios da “Era Parmalat” e chegava à semifinal da Copa. Já as campanhas seguintes, sem grandes destaques. Talvez uma nota para o golaço do Cleiton Xavier, em 2009, contra o Colo-Colo, que salvou o time apenas de uma eliminação na fase de grupos. Pouco a se comemorar.  O segundo período surge a partir de 2016. Esse momento se dá, sobretudo, após o clube vivenciar um ciclo conturbado com rebaixamento no campeonato Brasileiro, vexames em confrontos contra times de menor expressão e uma dramática e desgastante salvação na última rodada do que seria o terceiro rebaixamento, de quebra, no ano do centenário.

Em 2015, o Palmeiras é campeão da Copa do Brasil, título carregado na imagem de Fernando Prass. O pênalti convertido pelo goleiro contra o Santos foi uma espécie de exorcização de todo um período crítico vivenciado pelo clube. Para o torcedor palmeirense, muitos de uma geração alimentada pelas narrativas épicas dos grandes times da Via Láctea dos anos 1990, mas também pelo peso da péssima imagem que emergiu no clube durante os primeiros anos do século XXI, ressurge nos anos seguintes o anseio pela Taça Libertadores, baseada em uma restruturação institucional do clube, que, finalmente, mais de duas décadas depois, pode ser rematado em título. 

Porém, as recentes participações do Palmeiras na competição fizeram o seu torcedor desconfiar de cada etapa em que o clube avançou nesta atual edição do torneio. Nada de comemorações precipitadas. Nas edições anteriores, algo constante acabou se caracterizando: campanhas tranquilas nas fases de grupos, lideranças gerais seguidas, goleadas e defesas bastantes consolidadas, que, efetivamente, de pouco adiantou. Apesar disso, todo esse retrospecto reposicionou o Palmeiras, novamente, entre os destaques da competição. 

Analisando friamente, é moral reconhecer que nem sempre tradição em competições são resultados exclusivamente de títulos. Mas que torcedor quer saber disso?

O Palmeiras enfrentará o Santos, no Maracanã, adversário que, por outro lado, tem bom retrospecto em decisões do torneio. São 3 títulos em 4 decisões, até aqui. O rumo que esta final irá tomar é totalmente imprevisível. O que resta saber é como o Palmeiras irá se comportar diante da sua maior fragilidade, exposta nitidamente perante aos argentinos no jogo de volta da semifinal: o peso do passado.


Como citar

MAGIOLI, Lucas. Palmeiras e o peso da obsessão. Ludopédio, São Paulo, v. 139, n. 52, 2021.