140.15

Palmeiras: um gol no coração

Vinicius Garzon Tonet

Danilo, pouco antes do meio campo, lança. Um arrepio e o pássaro alça voo e a viagem tem início. Sentados em suas poltronas e sofás, deitados em suas camas, aqueles que haviam decretado: “O futebol está morto” diante da Justiça tornada ato pelo árbitro de Palmeiras e River alguns dias antes, rangiam os dentes.

Os jornalistas da Certeza começaram a se fazer ouvir: “A pior final de todos os tempos!”. E o pássaro voava. Os atletas com os pés plantados na grama verde do Maracanã observavam a bola, de baixo para cima, os olhos levando a cabeça. O sol já desaparecera do céu, a noite dominava o maior estádio do mundo – vazio. As multidões, pela tela, acompanhavam de cima. Danilo, fora da imagem, equilibrou-se e ninguém viu – consumido. “O ritmo do chumbo (e o peso), da lesma, da câmera lenta, do homem dentro do pesadelo”. O Tempo! O Tempo passa! Eis a verdade.

E aquele jogo-mistério, feio, gelado, adormecido na opacidade das coisas transitórias assistia agora a bola chegando em seu vértice – ponto de inflexão ou 53 do segundo tempo. E desceu lenta, “líquida se infiltrando no adversário, grosso, de dentro, impondo-lhe o que ela desejava, mandando nele, apodrecendo-o”. E descia.

Atravessou o círculo central e encontrou Rony. No peito, dominada, carente, puro desejo e inexatidão. Queria jogo, estava obcecada por um lance. Peito, chão, pé esquerdo – toque, pé direito – toque, Rony se inclina, pé esquerdo firma o seu corpo – 45 graus. Pé direito – bola fatiada. Novo voo, mesmo pássaro e o Tempo embrulhava os acontecimentos. Que se passava ali?

Breno Lopes faz o gol do título do Palmeiras na Libertadores da América. Foto: Cesar Greco/Palmeiras.

Os jornalistas filhos da Razão, para os quais a partida não passa de um encadeamento lógico e sucessivo dos eventos, àquela altura já haviam finalizado suas análises: “A pior final de todos os tempos! O futebol está morto!”. Mas a bola, a bola ainda estava em campo, mas não rolava. No ar, novamente, perfazia um caminho, uma parábola, um arco, sublime e harmônico – silenciosa. À sua direita, o abismo, ouvia-se o coaxar dos sapos e o zumbido dos besouros.

À esquerda, planícies ensanguentadas, cabeças decepadas, vilões e ímpios agonizavam. “Toda linha reta é um arco de um círculo infinito”. Danilo já não existia, Rony já não existia. Havia a bola definindo o espaço e Breno que corria em direção ao espaço vazio – sinfonia. O Maracanã desesperado, escuro. As águas vindas do Atlântico arrebentavam as grades e os portões do estádio e já inundavam o gramado.

Ninguém via mais nada e Breno abriu os olhos. Viu os seus pés ensopados e então saltou – para trás. “Ritmo morno, de andar na areia, de água doente de alagados, entorpecendo e então atando o mais irrequieto adversário”. Já não havia céu, estrela, fome, morte, violência, batidas de carro. Breno já não era Breno – anjo. Subia para trás, descalço, as chuteiras molhadas se perderam e nunca mais foram achadas. E o arco encontra o ponto – flecha? O tronco contra as pernas, ele também arco. No alto, a bola encontra a sua testa. E os únicos olhos abertos eram aqueles, de Breno – faminto.

Enfim, chegava ao destino. A rede, a bochecha da rede – O que era? Gol ou o coração batendo? Ainda 53 do segundo tempo. Se o futebol está morto, é porque todo passado é defunto. Mas a Beleza triunfa – Campeão.

.* Foram citados livremente trechos do poema “Ademir da Guia”, de João Cabral de Melo Neto

** A frase “Toda linha reta é um arco de um círculo infinito”, também citada livremente, faz parte das reflexões do filósofo Nicolau de Cusa, em “A douta ignorância” (1440)


Como citar

TONET, Vinicius Garzon. Palmeiras: um gol no coração. Ludopédio, São Paulo, v. 140, n. 15, 2021.