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Pão e circo ou Rumo ao Hexa: ainda torcemos pela seleção?

Jéssica Montanhini de Souza

Recentemente algumas pesquisas de opinião apontaram o desinteresse dos brasileiros pela Copa do Mundo 2018. Segundo um resultado publicado pela Folha de S. Paulo no último dia 12 de junho, 53% dos entrevistados disseram que não pretendem acompanhar o evento mundial[1]. Esse é o maior índice de desinteresse registrado desde 1994, ano em que a pesquisa começou a ser feita. Acredito que para entender esse fenômeno é preciso refletir sobre alguns fatores e contextos sociais.

O primeiro aspecto a ser abordado é que vivemos em tempos líquidos. Não cabe mais pensar o futebol apenas a partir de questões relativas à identidade e ao nacionalismo, isto é, como um traço cultural exclusivamente brasileiro. Nos dias atuais, a globalização, a fluidez, a sensação de mudança e de transformação é cada vez mais presente no cotidiano das pessoas. Sendo assim, é mais difícil estabelecer laços que definam um elemento como identidade nacional – gostos, costumes, práticas são compartilhadas independente das fronteiras entre os países. Além disso, com a popularização da internet existem mais opções de lazer. O surgimento de outras formas de socialização e divertimento também devem ser levado em consideração quando pensamos no desinteresse pelo futebol.

Contudo, vale ressaltar que a pesquisa citada tem como alvo a Copa do Mundo e não o futebol. Os campeonatos nacionais continuam com bom público e audiência. O interesse pelo futebol internacional, em especial a Champions League, aumentou nos últimos anos. Portanto, o aparente desânimo do público está diretamente ligado a seleção brasileira de futebol.

O futebol da seleção sempre foi referência ao nacionalismo brasileiro, símbolo de união nacional. Com o Brasil dividido pelos problemas da conjuntura política e os últimos acontecimentos, como, por exemplo, a – carestia de combustíveis, greve dos caminhoneiros, escassez de alguns produtos – a falta de interesse pela seleção se tornou um reflexo do quadro de instabilidade do país.

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Seleção brasileira na foto oficial antes da partida contra a Sérvia pela Copa 2018. Foto: André Mourão/Mowa Press.

Pensando assim, tendemos a associar o “mal-estar” com a situação política com o desânimo em acompanhar a seleção. Por outro lado, comemorar a vitória da equipe brasileira seria de alguma forma esquecer dos problemas que enfrentamos em nosso cotidiano. Mas, será que essa é a única maneira de entendermos esse assunto? Talvez, seja preciso também considerar o que aconteceu nos últimos anos.

Durante a Copa das Confederações de 2013 e o Mundial de 2014, a instabilidade política eclodiu. O Brasil era sede da Copa e vieram à tona notícias sobre superfaturamento, desvio de verbas, a necessidade de priorizar investimento em outras áreas e, principalmente, a corrupção em torno do megaevento. Toda a discussão sobre esses escândalos, por ter tido uma Copa como epicentro, ficou intimamente atrelada ao futebol.

Posteriormente a divergência da população entre aqueles que eram favoráveis e contrários ao impeachment da presidenta Dilma também se relacionou diretamente com o futebol. Numa tentativa de trazer pertencimento, os manifestantes contrários a presidenta utilizaram as camisas da seleção de futebol e os gritos da torcida para tentar mostrar uma falsa ideia de união nacional. A imagem e os elementos da seleção foram atrelados ao impeachment. Desde então, os símbolos que remetem a seleção brasileira, sobretudo a camisa, passaram a causar aversão a uma parte da população.

Soma-se a isso o fato de a entidade responsável pela seleção, a CBF[2], ter se envolvido em polêmicas e ser investigada internacionalmente por participar de esquemas de corrupção. Além de a seleção em si parecer cada vez mais distante da realidade brasileira. A maioria dos jogadores que não atuam no Brasil, os amistosos da seleção em grande parte são realizados em outros países, marcando um afastamento entre a torcida e a seleção.

Para além do desinteresse, já existe na Copa de 2018 uma nova polarização de parte dos brasileiros. Nas redes sociais circulam uma série de memes daqueles que são contrários a torcer pela Copa devido à atual situação do país. O atual cenário conta com uma nova divisão: as pessoas que gostam de futebol e torcem pela seleção e as que veem a Copa como um momento de “pão e circo” capaz de alienar a população.

Sabemos que existiram tentativas de aliar a visão de sucesso da seleção à visão de sucesso do governo. A Copa de 1970 e o governo de Médici são um claro exemplo disso. Parte dos militantes e da esquerda brasileira se organizaram para torcer contra a vitória do Brasil no Mundial – temendo que ela representasse também uma vitória da ditadura. Se isso, de alguma maneira, foi uma realidade em momentos de Ditadura Civil-Militar, não se aplica ao período posterior a redemocratização.

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Gabriel Jesus esconde o rosto após perder gol. Foto: André Mourão/Mowa Press.

Basta analisar o resultado das últimas Copas e das últimas eleições para perceber que o sucesso ou o fracasso da seleção não implica na vitória ou derrota do governo vigente. Fortes (2015) cita diversos exemplos, como no caso de 2002, em que o Brasil foi campeão e o PSDB, do então presidente Fernando Henrique Cardoso, perdeu as eleições para o PT, representado por Lula. Também, em 2006, a seleção brasileira foi eliminada nas quartas-de-final do campeonato e, mesmo assim, o presidente Lula foi reeleito[3]. Podemos pensar também na última Copa, quando o Brasil foi eliminado de maneira vergonhosa do torneio e, mesmo assim, a presidenta Dilma Rousseff foi reeleita.

Outra questão sobre esse fator “alienação” é que as críticas reservam apenas ao futebol o aspecto de alienante, não mencionando outros esportes ou divertimentos da mesma forma. Afinal, sob essa perspectiva, todas as práticas culturais seriam então alienantes e nos tomariam o tempo de refletir sobre a situação do país. Mas, por que a crítica é pontualmente ao futebol? Por ser o esporte mais popular do país? Por ter essa relação com “ser” brasileiro? Por fazer parte do divertimento das camadas mais pobres da população?

Não deixa de residir nesse tipo de crítica um aspecto de hierarquização de cultura, uma visão elitista de que o filme, o show ou o livro são, de alguma forma, práticas melhores do que assistir a um jogo. Tendemos a julgar aquilo que é popular como inferior ao que é consumido pelas elites, práticas culturais que trazem status social. Portanto, não deixa de residir um aspecto de crítica social nas críticas direcionadas ao futebol.

Finalizando, cabe aqui ainda mais uma reflexão: se já desviaram a verba, cortaram os direitos trabalhistas, aumentaram o valor dos combustíveis e desrespeitaram o voto, é razoável que nos levem também o prazer de torcer? Se tanto já nos foi tirado e só nos sobram desilusões, crises e dificuldades, não seria justo que ainda possamos contar com a alegria das belas jogadas, o frio na barriga e o grito de gol?

Prefiro continuar acreditando, assim como Henfil escreveu em uma carta a sua mãe, que a seleção não representa governo e que o futebol ainda é do povo.


[1] Reportagem disponível: <https://www1.folha.uol.com.br/esporte/2018/06/desinteresse-com-a-copa-bate-recorde-e-atinge-53-no-pais-mostra-datafolha.shtml> acesso em 14 de junho de2018.

[2] Confederação Brasileira de Futebol.

[3] FORTES, Rafael. O mundial de 2014 no imaginário popular brasileiro. In: MARQUES, José Carlos (org). A Copa das Copas? Reflexões sobre o mundial de futebol de 2014 no Brasil. E-book. São Paulo: Edições Ludens, 2015.