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Papa Francisco e San Lorenzo: uma história de amor e fé

Thiago Rosa

Na sala da casa, no bairro portenho de Flores, Mario, o pai Giovanni e a mãe Rosa ouvem um choro vindo do quarto. Os três se olham, sem dizer uma só palavra, até que a parteira surge segurando um bebê recém-nascido. Era Jorge Mario, o primeiro filho de Regina e Mario Bergoglio. O pai, orgulhoso, pega o primogênito no colo, olha para Rosa e Giovanni e pergunta: “Será que é cedo demais para levar Jorge à sua primeira partida do San Lorenzo?”. Todos riram da brincadeira, sem fazer ideia do poder da frase. Nascia ali, em 17 de dezembro de 1936, em Buenos Aires, aquele que um dia seria conhecido no mundo todo como Francisco, o Papa da simplicidade e do amor ao futebol.

O então cardeal Jorge Mario Bergoglio posa para foto segurando uma flâmula do seu time. Foto: Reprodução / Twitter.com/SanLorenzo.

Neto de imigrantes que deixaram a Itália em 1927 com seis filhos a tiracolo, Jorge Mario Bergoglio recebeu desde cedo muitos ensinamentos da vida, dos amigos e da família. À avó Rosa, uma católica piemontesa que não deixou de se indignar nem mesmo sob ameaça do regime de Benito Mussolini, coube a tarefa de guiá-lo na fé. Do pai Mario, um trabalhador ferroviário e apaixonado por futebol, herdou esta que seria uma de suas grandes distrações da vida mundana.

Jorgito, como era chamado pela família, cresceu correndo atrás de uma bola. Com os amigos Oscar, Alberto, Ernesto, Nestor, Nathan e Osvaldo, formavam um bom time, talvez o melhor que seus olhos de crianças já tinham visto. No campo improvisado, os bancos eram transformados em gols. Na Praça Herminia Brumana, Jorge se divertia. Estava a poucos metros de casa e perto de seus ídolos.

No bairro vizinho a Flores, jogava o San Lorenzo, os “corvos de Boedo”, clube criado em frente ao pátio de uma igreja por um grupo de garotos incentivado pelo padre Lorenzo Massa. Era o time e o lugar onde Mario jogava basquete. Não poderia haver mais estímulos para o San Lorenzo ganhar a torcida do menino Jorge.

No lar dos Bergoglio, havia quase que um ritual semanal. Aos sábados, todos iam para a casa da avó ouvir ópera e, aos domingos, o destino era o Viejo Gasómetro ver o San Lorenzo jogar. Um lazer compartilhado na década de 40 por Mario, Regina e os cinco filhos.

O jovem Jorge Mario (quarto menino em pé, na terceira fileira) no tempo em que estudava no Colégio Salesiano de Buenos Aires, entre 1948 e 1949. Foto: Wikipedia.

Na cancha dos Corvos – como o clube é conhecido –, o ídolo do menino era o atacante René Alejandro Pontoni, líder da seleção argentina no tricampeonato sul-americano 1945/46/47.  Craque naquela que é considerada uma das maiores gerações do futebol argentino, por força da Guerra, não teve a oportunidade de colocar seu talento à prova em uma Copa do Mundo. Mas no Gasómetro ele fazia maravilhas, para admiração do jovem Bergoglio.

Em 1946, mais precisamente no dia 8 de dezembro, o menino de 10 anos foi testemunha de um momento histórico. Usando a mesma camisa de seu ídolo, ele viu de perto o San Lorenzo ser campeão nacional, ao vencer por 3×1 o Ferro Carril na casa do adversário. Após a vitória, Jorge, seu pai e irmãos invadiram o gramado para festejar.

“Vejo os jogadores exaustos e chorando. Os torcedores são como um mar de gente inundando o campo. Estão comemorando de um modo que eletriza e comove a todos, inclusive aos torcedores do Ferro e a nós, os frios e cínicos cronistas esportivos, que já vimos de tudo”, relatou na época o jornalista Hector Villa, segundo o livro O Papa que ama o futebolOs Corvos eram campeões nacionais após um jejum de dez anos. A equipe, comandada pelo chamado Terceto de Oro (trio de ouro), com Pontoni, Armando Farro e Rinaldo Fioramante Martino, fazia história.

Duas semanas depois da conquista do nacional, o San Lorenzo iniciou uma excursão pela Europa. No Velho Continente, fez dez partidas e só perdeu uma única vez. Na bagagem, duas vitórias contra um selecionado espanhol, uma acachapante goleada de 9×4 diante do Porto e um 10×4 frente a Portugal, jogando em Lisboa. Para o menino Bergoglio e também para muitos especialistas, aquele era um dos melhores times do mundo.

Quis o destino que o futuro do jovem Bergoglio estivesse ligado a uma missão, e não aos gols como jogador. Após se formar técnico químico, ele entrou para a Companhia de Jesus. Já no seminário, recebeu um grande baque na vida pessoal: em dezembro de 1961, o pai morre vítima de um ataque cardíaco em pleno estádio Gasómetro. A perda fez Jorge se apegar ainda mais a fé. Ordenado padre com 33 anos e comandante dos jesuítas na Argentina aos 36, ele seguiu seu caminho. Mas a história do religioso e a do clube ainda se cruzariam muitas outras vezes.

Armando Farro, René Pontoni e Rinaldo Martino, o trio de ouro do San Lorenzo. Foto: Wikimedia.org.

San Lorenzo e Bergoglio: sombra e luz

O escritor Julio Cortázar certa vez definiu seus compatriotas: “Ser argentino é ser triste. Ser argentino é estar longe”. E os anos 70 certamente contribuíram para tamanha melancolia. Em 24 de março de 1976, militares tomaram o poder da presidente María Estela Martínez Perón. Era o início da última ditadura do país, considerada a mais sangrenta da América Latina. Então superior provincial dos jesuítas argentinos, Bergoglio não passaria incólume aos anos de chumbo. Tampouco o San Lorenzo.

O regime ditatorial deixou um rastro de mais de 30 mil mortos e contou com a vista grossa de muitos membros do clero. Uma dessas histórias envolve justamente Bergoglio, acusado por um jornalista de ter delatado aos militares dois padres que realizavam trabalhos sociais em favelas, atitude tida como subversiva. Francisco Jalics e Orlando Yorio foram sequestrados, torturados e, mais tarde, liberados. A história nunca se confirmou de fato. Pelo contrário. Com o tempo, surgiram relatos de uma atuação do padre para acolher pessoas perseguidas pela ditadura, salvando-as possivelmente da morte. “Diante dos rumores da iminência de um golpe, disse a eles (Jalics e Yorio) que tivessem muito cuidado. Lembro que lhes ofereci, caso fosse conveniente para sua segurança, que fossem morar na casa provincial da Companhia”, contou mais tarde no livro O Papa Francisco: conversas com Bergoglio. O religioso chegou a celebrar uma missa particular para o ditador Rafael Videla, na qual intercedeu pessoalmente pela vida de Jalics e Yorio.

Com o mesmo ímpeto que atacava as liberdades e a vida de civis, a ditadura golpeou o San Lorenzo. Em meados de 1977, no estádio Gasómetro, foi realizado o 1º ato público da Associação das Mães da Praça de Maio, um movimento de resistência liderado por mães cujos filhos foram assassinados ou estavam desaparecidos. O evento, somado aos ares esquerdistas de Boedo, eram um tremendo incômodo aos ditadores. Assim, pressionado pelos militares e enfrentando uma grave crise financeira, em 1979 o San Lorenzo vendeu o terreno do estádio e deixou o bairro. Para piorar, dois anos depois o clube é rebaixado para a 2ª divisão. Os Corvos sucumbem e o lugar que um dia foi a atração dominical dos Bergoglio se transformaria mais tarde na primeira unidade da rede francesa Carrefour no país.

San Lorenzo e Boca Juniors em 2 de dezembro de 1979, o último jogo no Gasómetro. Foto: Reprodução / Facebook.com/Sanlorenzo.

A ditadura terminou em 1983, com o processo de redemocratização nacional, mas muitas cicatrizes jamais se fecharam. Bergoglio viu sua imagem abalada, perdeu colegas de missão e amigos assassinados de forma atroz. Foram muitas as derrotas, mas ele seguiu acreditando, assim como o San Lorenzo.

Em 2013, três décadas após o fim dos anos de chumbo, Bergoglio ficaria mais perto do céu. O ano seria muito mais inesquecível do que os gols de Pontoni ou o título de 1946. Ele já era o Arcebispo de Buenos Aires havia mais de 10 anos, quando foi chamado para o Vaticano. Joseph Ratzinger, o Papa Bento XVI, havia renunciado e um conclave iria escolher o novo sumo pontífice.

Preocupado com os inúmeros problemas de seu país, Bergoglio imaginou que em breve estaria de volta a Buenos Aires. Não foi o que aconteceu. Ele foi eleito Papa em 13 de março, vindo a escolher o nome de Francisco, em referência a São Francisco de Assis. A Igreja abria suas portas pela 1ª vez a um Papa do continente americano, um homem austero, de apego às questões sociais e que recusava carros oficiais e luxo. De certa forma, a glória veio em vida. Faltava o San Lorenzo.

Após passar 14 anos jogando em estádios de clubes rivais (Ferro Carril, Vélez Sarsfield e River Plate), em 1993 o clube inaugurou sua casa própria, o Novo Gasômetro, no bairro de Bajo Flores, vizinho a Boedo. Com um lugar para chamar de seu, o clube renasceu. Ganhou o Clausura em 1995, 2001 e 2007 e o Inicial de 2013, que o colocou na Libertadores.

Não bastasse o título no ano em que Bergoglio chegou ao Vaticano, os deuses do futebol proporcionariam uma surpresa ainda maior em 2014. Comandado pelo técnico Edgardo Bauza, o time do zagueiro Walter Kannemann, do ala Buffarini e dos meio-campistas Ortigoza e Romagnoli deixou tudo em campo no torneio continental. O Ciclón se classificou em 2º no grupo 2, passou pelo Grêmio nas oitavas, pelo Cruzeiro nas quartas e Bolívar na semi. Na final, empate em 1×1 com o Nacional em Assunção e vitória de 1×0 no Gasômetro. Jorge Bergoglio se tornou Papa e, um ano depois, o San Lorenzo conquistou a América.

Papa Francisco segura a taça da Libertadores durante visita do elenco de 2014. Foto: Reprodução / Facebook.com/SanLorenzo.

Mesmo campeão pela 1ª vez da Libertadores e com sua imagem vinculada a um dos homens mais conhecidos no mundo, faltava algo para o San Lorenzo. A felicidade estava em Boedo. Era preciso voltar para casa. Em 2014, após anos de uma batalha judicial, foi aprovada a Lei de Restituição Histórica, na qual o Carrefour seria obrigado a vender o terreno para o clube. Dois anos depois, o San Lorenzo acertou o pagamento de US$ 19,6 milhões pelo local, valor custeado por mais de 27 mil apaixonados torcedores. O supermercado fechou a unidade em julho deste ano e, em breve, o clube esperar reerguer em sua Terra Santa o estádio Papa Francisco, uma homenagem ao torcedor mais ilustre. 

Seja na pracinha de Flores, nos domingos em família ou no Vaticano, o San Lorenzo sempre esteve no imaginário de Jorge Mario Bergoglio. Ele sabe de cor a escalação do time campeão argentino de 1946 e, desde 2008, é sócio-torcedor número 88.235. Se perguntarem sobre esse sentimento que carrega há mais de 82 anos, talvez ele diga novamente: “Muitos definem o futebol como o esporte mais bonito do mundo. Eu também acredito nisso”.