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Para ler o México através de seus estádios (e uma pitada de David Harvey na conversa)

Gilmar Mascarenhas

Em que medida os estádios podem expressar ou revelar, em sua constituição material, na gestão do equipamento e em seus usos, aspectos centrais de uma cidade ou de um país?

Na primeira semana deste mês de fevereiro estive na Cidade do México, mais precisamente em atividade acadêmica na UNAM (Universidad Nacional Autônoma de México), pujante instituição que agrupa uns 350 mil alunos e dezenas de milhares de professores e pesquisadores, equivalendo assim a pelo menos umas quatro “USPs” ou dez “UERJs”, universidade à qual estou vinculado.

Interagindo com colegas do Instituto de Geografia da UNAM, apresentei publicamente resultados de minhas pesquisas sobre megaeventos esportivos. O professor Federico Fernandez, diretor geral de “Cooperación y Internacionalización” (DGECI) desta universidade, e inclusive autor de livro sobre futebol (“Todo lo que sabemos: cancha, itinerário y cultura”) ofereceu-me muito gentilmente ingresso para a partida que o PUMAS UNAM (oficialmente “Club Universidad Nacional”) jogaria em seu majestoso estádio situado, obviamente, no Campus da referida universidade. Inaugurado em 1952, o Estádio Olímpico Universitário bem expressa o período do “Milagre Mexicano”, repleto de grandes realizações arquitetônicas. O clube PUMAS é um dos “quatro grandes” do país, e pelo que pude perceber é quase unanimidade no âmbito universitário.

Nesta incursão, como em qualquer outra aventura “geográfica”, não poderia deixar de comparecer a uma partida de futebol, mas o PUMAS parecia representar uma experiência menos intensa que ir ao lendário estádio Azteca. Revisitá-lo, aliás, já que ali estive em minha primeira estadia em terras mexicanas, em 2003. E não me arrependi pela escolha. América (maior torcida nacional segundo as últimas pesquisas, ligeiramente à frente do Chivas Guadalajara) e Querétaro (17º lugar no ranking de torcidas mexicanas, trazendo menos de mil torcedores à peleja) realizaram um animado confronto. Vitória tranquila do Club América (assim chamado, para não confundir com o imenso e onipresente país vizinho) por 2 a 0 contra o clube no qual jogou o fenomenal Ronaldinho Gaúcho.

Em 2008, o América ocupava o segundo lugar no ranking de torcidas, apenas um ponto percentual atrás do Chivas. Dez anos depois, parece ter ultrapassado seu rival, ainda que se considere a margem de erro nestas pesquisas. Também o ultrapassou em quantidade de títulos nacionais. O fato é que o América (ou “los Águilas”), propriedade de uma das maiores redes de televisão do planeta, a Televisa, é o clube mais rico do país. Atual campeão, possui elenco caro, contrata os melhores jogadores dos clubes adversários e sua torcida costuma zombar os rivais com o lema “odeiem-nos cada vez mais”. Notamos aí alguma semelhança com o Flamengo e, em tempos de melhor saúde financeira, com o Corinthians.

Torcida do Club América. Autor: Gilmar Mascarenhas (2 fev. 2019).

Longe do conforto ilhado do magnífico Campus da UNAM, o estádio Azteca situa-se em zona suburbana acessível por via ferroviária: o lento e congestionado “Tren Ligero”. Cheguei com antecedência e me “enturmei” com duas torcidas organizadas do América, também conhecidas por “porras” (mais que por “barras bravas”, denominação esta que sugere postura mais “violenta”, marginal, dirigida a torcidas tradicionais como La Monumental, que fica no anel superior, enquanto as porras ficam no anel inferior). As porras seriam mais ou menos como as nossas “torcidas de alento”. Com elas adentrei o estádio.

Modernizado, o Azteca segue a tendência de hipersetorização apontada por Fernando Ferreira, já citado outras vezes nesta coluna: são doze setores. Zonas VIP se multiplicam e ocupam vastos espaços, como a do CI Banco e a da Coca-Cola, empresa particularmente poderosa no México, país que apresenta o mais alto índice de consumo de bebidas gasosas açucaradas. Sim, estádios são janelas para ler a sociedade, dos seus hábitos mais banais à sua estrutura política e econômica.

Confortável setor do CI Banco, dotado de requintes como jardinagem. Autor: Gilmar Mascarenhas (2 fev. 2019).

Trata-se também de um estádio altamente vigiado e “militarizado”, tal como presenciamos em diversas outras situações no cotidiano da capital mexicana. Câmeras diversas, efetivo policial imenso e rigorosa investigação para adentrar o recinto. Outro aspecto a ressaltar são os valores cobrados, que mais se aproximam de um Itaquerão ou Alianz Parque. Meu setor (Cabecera Norte, no anel inferior, mais próximo ao campo e atrás da baliza) cobrava 500 pesos, aproximadamente 110 reais, valor que ascende quando consideramos que o custo de vida médio para mexicanos é mais baixo que o brasileiro.

Presença ostensiva da Polícia Militar no anel inferior do Azteca. Autor: Gilmar Mascarenhas (2 fev. 2019).

O Azteca segue a tendência global de redução da capacidade física dos estádios. Inaugurado em 1966, o então Colosso de Santa Úrsula, e ainda hoje maior estádio de futebol mexicano (e o que mais jogos de Copa do Mundo abrigou até hoje em escala planetária), acolhia 131 mil espectadores. Em 1990, sofreu redução para aproximadamente 105 mil lugares (assim o conheci) e, no início do século XXI, o completo encadeiramento reduziu desde então para 87 mil sua capacidade máxima.

Por fim, temos o contexto neoliberal que privilegia os processos de privatização. Em 1997, o estádio foi comprado pelo hegemônico grupo Televisa (também proprietário do principal usuário do estádio, o Club América). Interessante que, no ato da compra, a emissora de TV renomeou o Azteca, que passaria a se chamar Guillermo Cañedo, executivo da Televisa que acabara de falecer. A revolta popular foi imensa, e rapidamente a Televisa retomou a denominação original, que diretamente alude ao pujante passado histórico mexicano e que de fato está à altura do monumental estádio, primeiro a acolher duas finais de copas de mundo (e que finais memoráveis, 1970 e 1986, consagração definitiva de Pelé e Maradona).

E falando no poder econômico, é notável a presença ostensiva de anúncios de grandes empresas não apenas no interior, mas sobretudo no contorno do estádio. Percebemos aqui mais uma influência marcante da sociedade norte-americana:

Entrada principal do estádio. Autor: Gilmar Mascarenhas (2 fev. 2019).

Apesar do conjunto de restrições (de acesso e de conduta), os torcedores produziram uma atmosfera vibrante, colorida e ruidosa. Importante destacar a forte presença feminina nas “porras”. O ponto alto da festa se dá no intervalo: tão logo os times se retiram de campo a torcida começa a gritar em coro “Águila, águila”. Pensei em homenagem a algum dos jogadores, mas tratava-se da águia amestrada, símbolo do clube. Seu domesticador adentra a cancha, solta-a, ela sobe ultrapassando a própria altura do estádio e desce num mergulho rasante direto aos braços de seu cuidador, arrancando aplausos eufóricos, sobretudo por parte das crianças.

Águia mascote sobrevoando o Azteca. Autor: Gilmar Mascarenhas (2 fev. 2019).

O panorama geral dos estádios mexicanos expressam o nível de mercantilização extrema alcançado no país, resultado direto da forte influência norte-americana, cujo campo esportivo, sabemos, produziu um sistema original e profundamente imbricado com a lógica capitalista. Neste sentido, clubes mexicanos são comprados por grandes empresas (midiáticas, cervejeiras, de cimento etc.) e estas não raramente deslocam o clube para outra cidade. Deslocam inclusive para regiões distantes, como o caso do centenário clube Atlante, deixando seus torcedores órfãos e revoltados.

O Atlante FC, considerado historicamente “clube do povo”, por suas origens operárias e varzeanas (llaneras, como se diz no México), nos últimos vinte anos sofreu nada menos que cinco “remoções” (ou deslocamentos), sendo a última e mais marcante, ocorrida em 2007, deslocando-se para Cancun (extremo leste do país), por decisão de seu proprietário, grande empresário ligado aos grupos Pegaso e Televisa. Imaginemos, em arriscado exercício comparativo, um clube como o Vasco da Gama, que na história do futebol brasileiro ocupa um lugar semelhante ao Atlante (tradição, origem popular, alguns títulos nacionais, um título continental e decadência recente, oscilando entre a primeira e a segunda divisão, embora o Vasco com torcida muito maior), sendo deslocado para outra região do Brasil. Brasília ou Manaus, por exemplo. Os torcedores do Atlante realizaram diversos protestos com a mudança radical de localização. Creio que a grande nação vascaína produziria uma verdadeira revolução, ainda que seja o Vasco um clube realmente nacional, capaz de preencher estádios nestas duas cidades citadas e em todo o Nordeste.

Tal instabilidade espacial, própria de um sistema que despreza as raízes e identidades locais em favor de conjunturais interesses empresariais (o chamado “footloose industry”), ainda não se instalou no futebol brasileiro, ao menos no circuito privilegiado dos clubes grandes ou mais tradicionais. Mas a onda neoliberal avança velozmente em nossas terras…

O deslocamento de clubes tende a produzir o abandono de seus respectivos estádios. Um deles é o magnifico estádio Neza, na cidade de Nezahualcóyotl, que abrigou três partida ­­­­na Copa do Mundo de 1986, e encontra-se arruinado. O mesmo ocorre com o estádio Martinica, na cidade de Leon. Também há casos de projetos ambiciosos que repentinamente tornam-se fora dos planos de seus empresários, como o estádio Acapulco, nesta famosa cidade litorânea, que seria um dos mais modernos da América Latina e desde 2012 encontra-se inacabado, em completo abandono. David Harvey, talvez o mais reconhecido geógrafo da atualidade, comenta em seus livros acerca das “paisagens fantasmagóricas”, produzidas pela rapidez da circulação do capital em sua forma fictícia, deixando lugares à mercê de sua atual natureza volátil, gerando seu rastro destrutivo e desagregador por onde passa.