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Paradoxo: o melhor futebol do mundo necessita formar seus atletas lá fora

Hugo Lovisolo

A boa metodologia das ciências sociais indica olhar com atenção para os paradoxos ou contradições. Vejamos um que parece ser importante. No Globo Esporte do dia 2 de agosto de 2011 aparece um vídeo no qual os experientes Cafu e Ronaldinho aconselham Ganso e Lucas a irem jogar na Europa. Os motivos: melhorar, adquirir experiência, enfim, se tornar melhores para depois voltar e tem melhor desempenho no Brasil. Cafu declara que a defesa brasileira melhorou em virtude de havermos tido e termos muitos atletas jogando lá fora. Os novos aceitam o conselho e declaram que irão quando seja conveniente, isto é, quando realizarem seu ciclo no Brasil.

Paulo Henrique Ganso na seleção brasileira. Foto: Sérgio Savarese.

A prática de se aperfeiçoar lá fora também vigora no campo científico e tem o nome de doutorado sandwich ou de pós-doutorado. No entanto, há uma restrição: o sandwich é realizado quando o centro receptor está bem mais adiantado que o nosso em alguma especialidade ou linha de pesquisa. Caso contrário, não terá financiamento dos organismos de ciência e técnica. Quando existe centro nacional em igualdade de desenvolvimento, recomenda-se que o doutorando passe nele um período. No caso da ciência, parte-se do princípio da desigualdade no desenvolvimento e do reconhecimento da falta de desenvolvimento que temos em muitas áreas. Portanto, podemos melhorar lá fora.

Agora, no caso do futebol afirma-se que temos o melhor futebol do mundo. Se isto é certo, quais as razões para se aperfeiçoar em times do exterior? O que nos faltaria em termos de desenvolvimento do futebol para que os atletas procurem fora sua suplência? Cafu apresenta como exemplo a melhora da defesa do Brasil pela experiência no exterior. Se este fosse nosso ponto fraco, então, em analogia com a ciência, apenas jogadores de defesa deveriam ir jogar no exterior! Sabemos que isto não é certo e, talvez, a realidade estatística poderia mostrar o contrário. Voltemos a indagar: para que jogarmos fora se temos o melhor futebol do mundo?

Existem outros argumentos. Em média lá fora se ganharia melhor e os jogadores teriam melhores qualidades de vida, neste caso, até na China, na Rússia, na Turquia e na Índia? Lá fora se obteria visibilidade, exposição midiática, valorização e reconhecimento. Com esse capital futebolístico, diria Bourdieu, poderiam ser negociadas melhores condições para voltar e até ser convocado para a Seleção Canarinho. Sonhar em jogar na seleção é o “sueño del pibe”, diriam os argentinos. O fato das seleções serem de modo crescente formadas por jogadores que atuam fora do país pareceria confirmar a validade da estratégia.

Quatro tópicos se destacam: 1) temos o melhor futebol do mundo, mas devemos melhorar, completar a formação lá fora; 2) temos o melhor futebol do mundo, porém para o atleta ser reconhecido deve se destacar lá fora; 3) pareceria que o objetivo da formação lá fora é voltar melhor do que se saiu e, portanto, ser contratado por aqui em melhores condições, valorização por acúmulo de capital futebolístico; 4) os europeus são pouco malandros, eles formam nossos melhores atletas para o Brasil ter o melhor futebol do mundo.

Mapa da Europa. Desenho de Ssolbergj (disponível na Wikipédia).

Em outros termos, temos muitos diamantes em estado bruto e os europeus são craques da lapidação e talvez lhes falte matéria prima. Por isso, importam jogadores tanto do Brasil quanto de outros países de América Latina e África. Isto nos leva na direção de um processo global: os países não desenvolvidos frequentemente são produtores e exportadores de matérias primas que, processadas, voltam com um alto valor agregado. Ganso e Lucas seriam diamantes que merecem ser lapidados ou matérias primas a serem processadas?

Parece que passou o tempo de Di Stéfano que foi contratado para melhorar e aprimorar o futebol italiano. Chegou o tempo no qual eles nos melhoram!

Os jornalistas esportivos, ao invés de repetir que temos o melhor futebol do mundo, deveriam observar os processos de formação de nossos jogadores de elite e dos que integram a seleção. O paradoxo merece reflexão e pesquisa de todos. Como a Julie do filme Julie e Julia, espero que os leitores comentem e argumentem, se possível, com novas interpretações do paradoxo.