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Paradoxos

Marco Sirangelo

Sete treinadores já foram demitidos até a 9ª rodada do Brasileirão. A arbitragem atinge níveis precários e ferramentas que, a princípio serviriam para ajudar, só atrapalham. Protestos de torcedores insatisfeitos ganham destaque nas notícias, seja pelo bom humor ou pela violência inaceitável. As finanças dos clubes são motivo suficiente para insônia e enxaqueca crônica. Estamos em 2020, mas esse cenário está longe de ser inédito. É o futebol brasileiro e seu eterno dia da marmota (ou como no legalzinho Palm Springs, recém-lançado) gerencial.

Cena do filme “Feitiço do tempo”, em que o personagem interpretado por Bill Murray, o arrogante meteorologista Phil Connors, fica preso no tempo e tem de viver o mesmo dia (2 de fevereiro, Dia da Marmota) várias vezes. Foto: Reprodução.

Há uma óbvia constatação de que esses problemas precisam ser superados e, como uma solução quase mágica, a palavra “profissionalismo” sempre aparece. É a resposta padrão. “Somente a profissionalização do futebol resolve os problemas”. Certo, concordo. Mas não podemos simplesmente parar a argumentação aí. O que se pretende profissionalizar?

Premissa fundamental dos projetos de lei que procuram viabilizar o clube-empresa, a necessidade de mudança do atual modelo associativo e sem fim lucrativo adotado no Brasil existe, mas já é sabido que essa alteração pura e simples não irá necessariamente trazer melhorias ou profissionalismo imediato. É possível ser profissional no modelo associativo (Palmeiras, Grêmio e Flamengo são bons exemplos disso) e também será possível ser pouco profissional no clube-empresa (vejam o que Peter Lin está fazendo no Valência, entre muitos outros exemplos).

De fato, as burocracias internas dos clubes, seus conselhos e eleições contestáveis fogem do ideal profissional, com cargos gerenciais ocupados por dirigentes estatutários e não remunerados. Mas isso não foi impeditivo para que o São Paulo aprovasse o pagamento de salário ao seu presidente, diretores executivos e três membros do conselho de administração. Soa profissional, da mesma forma que a presença de profissionais de renome e carreiras sólidas em grandes empresas nos departamentos de marketing dos clubes, prática que já dura mais de uma década.

A meu ver existem três pontos fundamentais nessa discussão. O futebol brasileiro apresenta características que parecem ser profissionais, mas que não são, outras que aparentam não ser, mas são e, finalmente, áreas que realmente não são e que precisam ser. Começando pelo fim, um exemplo de falta de profissionalismo no futebol está na arbitragem, e isso é culpa exclusiva da CBF.

Há quase 20 anos, no meio de todo o processo de transformação comercial do seu campeonato, a Inglaterra definiu uma instituição específica para a formação de árbitros profissionais, a PGMOL, que conta com processos seletivos de alta complexidade e investimento pesado em capacitação e formação de novos juízes. Em 2016, os 18 melhores árbitros de um processo com quase 200 candidatos foram selecionados e dariam conta de jogos da primeira e segunda divisão, além das copas. A diferença de nível entre árbitros ingleses e brasileiros é escandalosa – e estamos falando de um número relativamente pequeno de profissionais que, caso bem treinados e com um salário aceitável, garantiriam que lances triviais não parassem o jogo por longos e infernais minutos, como já é padrão por aqui.

A tentativa de melhorar o que está péssimo passaria pela vontade da CBF em destinar uma parcela pequena de seu faturamento no que poderia significar um aumento considerável na qualidade do jogo apresentado no Brasil. A importância da atividade econômica ligada ao futebol e a complexidade envolvida na função de árbitro não permitem mais que os juízes tenham que dividir o tempo com outras profissões. Sandro Meira Ricci, por exemplo, trilhou uma carreira que o levou até ser representante brasileiro na última Copa do Mundo ao mesmo tempo em que atuava como funcionário público. Durante o mundial da Rússia, o agora ex-árbitro ocupava o cargo de analista de comércio exterior no então Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços. Haja tempo.

Atualmente comentarista de arbitragem pelo canal Esporte Interativo, Pericles Bassols conciliava a carreira de árbitro com a de dentista quando atuava pela FERJ, CBF e FIFA. Foto: Ag. Palmeiras/Divulgação.

Por mais que seja difícil de avaliar, o futebol brasileiro tem um alto nível de profissionalismo em seu back office. As estruturas de apoio, logísticas, cadastro e, principalmente, médicas e de preparação física (entendo que minha classificação dessas áreas como back office seja questionável, mas seguimos assim) são desempenhadas por pessoas com alto grau de especialização em suas áreas. O que talvez falte é uma melhor atenção a alguns processos, mas sem que exista qualquer necessidade de padronização, como ocorre nos principais formatos de liga na Europa e não acontece por aqui, cada clube consegue se virar bem sozinho.

Por fim, existe certa associação não muito verdadeira entre estruturas de observação e recrutamento de novos jogadores centralizada na figura de diretores ou gerentes de futebol com profissionalismo. A falta de integração dos tomadores de decisão do futebol com o restante da operação do clube ocasiona ruídos como a frustrada ida de Thiago Neves ao Atlético Mineiro. Um simples entendimento de seus torcedores e do contexto geral do clube serviria para que essa hipótese sequer fosse considerada, assim como, por exemplo, uma eventual contratação de Rogério Ceni como treinador do Corinthians.

Rogério caminha para uma promissora carreira como técnico, mas por mais paradoxal que isso seja, a decisão mais profissional possível neste caso é a de nem pensar em vê-lo comandando o maior rival de seus tempos de atleta. Se o clube abre mão de um bom treinador, mantém sua identidade preservada, e entender as dualidades e idiossincrasias que estão envolvidas no futebol é obrigação para quem toma decisões na área. Se parece óbvia a necessidade de melhorarmos a atual situação, também existe espaço para criticarmos visões um pouco distorcidas de profissionalismo que continuam chegando no mesmo lugar de sempre.


Como citar

SIRANGELO, Marco. Paradoxos. Ludopédio, São Paulo, v. 135, n. 55, 2020.