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Partidas majestosas: recordações de Corinthians x São Paulo

Alexandre Fernandez Vaz

 Para Ivan Marcelo Gomes

“A zaga do São Paulo é boa pelo alto, mas é um pouco lenta”, disse o jogador Gil, do Corinthians, durante o Torneio Rio-São Paulo de 2002, pouco antes de um clássico que seria disputado em Presidente Prudente. O atacante, que formava com o lateral Kléber e o meio-campista Ricardinho a melhor ala esquerda do mundo, segundo o treinador Carlos Alberto Parreira, foi muito criticado pelos adversários, acusado de desrespeito, de falta ética. Seu experiente colega de clube, o volante Vampeta, tampouco deixou de adverti-lo pela audácia juvenil.

Pois bem, pouco mais de um mês após o episódio, na primeira partida final do torneio, exatamente entre os dois clubes, Gil avançou em direção a área adversária, deu um sonoro drible da vaca no defensor Émerson e finalizou com força, cruzado, sem chances para o goleiro. A vitória naquele jogo e um empate no seguinte deram o título ao Timão. O garoto estava certo e nada tinha de soberba ou arrogância, era apenas a exposição objetiva de sua análise. Tornei-me muito simpático ao canhoto que tanto fez pelo Corinthians, não só em contendas contra o São Paulo. O golaço ficou na memória.

Tupãzinho dá carrinho e faz o gol do primeiro título brasileiro do Corinthians, em 1990. Foto: Twitter/Divulgação.

Não são poucos, no entanto, os jogos entre os dois times que habitam minhas recordações. O primeiro deles foi no Morumbi, numa tarde de sábado de maio de 1979, quando pude ver Sócrates jogando o fino e desconcertando a zaga são-paulina com seus passes de calcanhar. Naquele ano os leitores da revista Placar o elegeriam o melhor jogador do mundo. Um exagero, por certo, em um planeta em que despontava Maradona, mas, quem no Brasil via El Pibe em atividade? Líder da Democracia Corinthiana, porta-voz do movimento pelas eleições diretas para presidente em 1984, era irmão de Raí, que tanto brilhou no tricolor.

Vindo Paris Saint-Germain, Raí regressou ao São Paulo para ser campeão paulista no dia de sua chegada, contra o Corinthians, em 1998. O irmão corintiano foi um grande entusiasta do feito, comparecendo à festa do título, horas depois do jogo. No ano seguinte, o hoje dirigente tricolor não encontrou a costumeira sorte contra o alvinegro. Desta vez, na semifinal do campeonato brasileiro, o goleiro Dida defendeu duas cobranças de pênalti do meia-atacante, levando o Timão à final contra o Atlético Mineiro e ao segundo título do torneio.

O primeiro, aliás, foi vencido sobre o São Paulo, em dois jogos, em 1990. Por contagem mínima em cada partida, vitórias com improváveis gols de Wilson Mano e Tupãzinho. O craque do campeonato foi Neto, preterido por Sebastião Lazzaroni no selecionado que fracassara na Copa do Mundo daquele ano, na Itália. Ronaldo Giovanelli no gol, Marcelo Djian na zaga, Mano e Márcio Bittencourt, Tupãzinho e o maestro Neto no meio, Fabinho, Paulo Sérgio, Mauro – membro da atual comissão técnica do Parque São Jorge – no ataque. No comando do time estava Nelsinho Batista, que no início do ano seguinte esteve para deixar o clube, recebendo de um ilustríssimo torcedor o pedido para que não se despedisse do time do povo. Era Dom Paulo Evaristo Arns, falando em seu programa de rádio matinal, durante as negociações do treinador com os dirigentes do clube. Nelsinho, contudo, não durou muito no cargo, mesmo com contrato renovado.

Ceni cobra a falta em partida contra o Corinthians para fazer o seu centésimo gol. Foto: VipComm/Divulgação.

Nos embates do começo dos anos 1990, o banco adversário era ocupado por Telê Santana, o mestre de muitos títulos e do futebol vistoso, inclusive o do Paulistão de 1991, em dois jogos contra o alvinegro: três a zero, todos de Raí, no primeiro encontro, igualdade sem movimento do placar no segundo. Foi de Telê, já membro da bancada do programa de televisão Cartão Verde, em 1995, a bronca mais inesperada que eu vi em um jogador de futebol, destinada ao jovem Zé Elias. O começo fulgurante da carreira do volante foi marcado pelo futebol às vezes duro demais e a brabeza do ex-treinador tricolor talvez fosse maior com seu colega Mário Sérgio, quem havia lançado e orientava o garoto no Corinthians. Não foram poucos os embates entre os dois. Mesmo surpreendido, Zé respondeu sem baixar a guarda, mas de forma muito educada. A mesma educação, aliás, que mostraria dias atrás, no mesmo Cartão Verde, ao se dirigir a Roberto Rivelino com um bem colocado Senhor.

Os anos 1990 viram nascer um outro personagem que marcou os duelos entre Corinthians x São Paulo nos últimos anos. Rogério Ceni esteve nos elencos que várias vezes venceram o alvinegro. Perdeu com seu time um número ainda maior de partidas, foi goleado impiedosamente por cinco a zero em 2011, quando o Timão foi campeão brasileiro sob a direção de Tite. Mas, foi contra o Corinthians, no mesmo 2011, o centésimo gol do goleiro tricolor, recordista absoluto de tentos entre os de sua posição. Na Arena Barueri, de falta. Que os são-paulinos se orgulhem de seu grande ídolo, eu o admiro.

Longa vida a esse clássico entre campeões do mundo.

Coqueiros, Florianópolis, abril de 2019.