78.12

Pasárgada F.C.

Abel Sidney Souza

Ele tinha horror às coisas fáceis. Com os livros de autoajuda, em particular, tinha muitas reservas. Principalmente com aqueles que prometiam transformar qualquer pessoa em “um autêntico vencedor”. Apesar das ácidas críticas que fazia a essa literatura barata, era criterioso e sensato com seus pareceres e sabia quando publicá-los no semanário que editava.

Uma colega de redação, no entanto, via com maus olhos a condenação do amigo. Possivelmente porque ela gostasse da seção de horóscopo e de receitas… Por conta dessa pequena desavença, disse um dia: “Você ainda vai precisar de ajuda e quem sabe não será um livro desses que irá te ajudar!?” Para não contestar e encompridar a conversa, ele costumava concordar com um breve aceno de cabeça.

No pequeno jornal e gráfica, ele acumulava diversas funções. De redator chefe a entregador, se necessário. É de se destacar as suas atividades de articulista múltiplo, assinando os diversos artigos com os pseudônimos que criava.

Ninguém sabe ao certo como ele chegara à Vila de Rondônia daqueles tempos – trinta e poucos anos atrás.

Alguns afirmavam que fora cozinheiro do 5º Batalhão de Engenharia e Construção (o nosso quinto béqui). Outros diziam que viera como topógrafo de uma empresa de colonização. Todos, no entanto, lembram que o primeiro serviço de alto-falante, no alto da castanheira, o teve como locutor e sonoplasta.

Um amigo seu, que jurava tê-lo conhecido ainda “piazinho” no Paraná, levantava a tese de que o seu notório e vasto saber era conquista própria, por tratar-se de um autêntico autodidata.

Conheci-o quando a sua galeria de ex incluía a de jornalista. O Movimento nascera quase morto, embora tivesse sobrevivido ao verão daquele ano. No inverno, fechou as portas, por falta de anunciantes. Sem o jornal e com a gráfica sem tipógrafo (o último da cidade morrera), chegou rápido à falência. Perdeu de uma só vez: mulher, negócio, entretenimento e a própria casa, vendida para liquidar muitas contas.

A única pessoa que permaneceu ao seu lado foi o filho.

Aos doze anos, Alexandre era uma das poucas testemunhas, em boa extensão do termo, daquela tragédia pessoal; o que não era fácil para ele; tampouco para mim, que partilhava com ele os problemas da família, agora reduzida ao pai.

Estudávamos juntos no Marechal Rondon e todo dia à tarde, depois de jogarmos bola, íamos tomar banho no igarapé.

Lembro-me de tê-lo visto chorar quando a mãe e o seu irmão menor foram embora para Manicoré, no Amazonas.

Como o caso era um tanto complicado, não houve remédio senão recorrer ao único preposto da divindade que inspirava respeito na cidade, o Padre Ricardo, nosso professor de religião. Depois da aula, num daqueles dias, conversei com ele. Contei o pouco que sabia do caso.

Ouviu-me, atencioso e disse que tomaria suas providências, pois sabia bem o alimento de que ele necessitava.

Nos dias seguintes, aproximei-me tanto do padre Ricardo, quanto do pai do meu amigo. Este se tornara vizinho, depois alugar uma meia-água perto de casa. O outro via na escola todos os dias.

O único fio que prendia Henrique à vida era o futebol. Botafoguense, costumava cantarolar o hino do clube e uma frase me chamava a atenção por conta da data: “campeão desde mil novecentos e dez”.

Foto: Lennart Preiss - Getty Images for Audi.

Foto: Lennart Preiss – Getty Images for Audi.

Por conta de sua paixão, tinha uma coleção de revistas sobre futebol, que recebia pelos Correios. Quando ia à sua casa, deixava-me lê-las, após fazer suas recomendações quanto aos cuidados necessários à sua conservação.

Poucos dias depois, o Padre Ricardo pediu-me um favor:

– Filho, leve este livro para o Henrique; mas não diga que fui eu quem o enviou. Invente qualquer história; você não terá qualquer dificuldade em criar uma.

Senti-me o próprio soldado chamado à frente de batalha.

O livro era uma seleta de verso e prosa do Manuel Bandeira. Entreguei o livro, dizendo que viera do Paraná, no meio de uns livros do meu tio, que era professor; que ele, talvez, gostasse de ler e se quisesse poderia ficar com o livro…

Ele aceitou o presente e me franqueou sua coleção do Homem Aranha, em preto e branco, formato grande, que eu tanto cobiçava folhear.

Pude, conforme a orientação do padre, observar-lhe os gestos, vigiar-lhe cada passo. Foi o que fiz, enquanto lia as revistas, “uma por dia”, na sombra da varanda da casa, segundo o combinado.

No terceiro dia, ele interrompeu minha imersão no mundo de Peter Parker e me exigiu atenção: “Ouça isso, por favor”. Mostrou-me o livro, indicou com o dedo um poema e leu o seu título compassadamente, Pa-sár-ga-da, acentuando o “z” que se escondia para mim no “s”. Depois recitou com voz embargada, fazendo uma pausa mais longa na última estrofe:

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.       

Tentou disfarçar algumas lágrimas que teimavam em lhe constranger… Justificou-se, dizendo que não conseguia ler poesia sem parecer por demais emotivo. Nada comentei, por não ter tido mesmo palavras à altura da ocasião. Ainda o ouvi afirmar: “Não é um desses livros facilmente digeríveis. Tem substância…”

Eu e o Alexandre assistimos às mudanças de humor do seu pai no próprio estômago, nos dias que se seguiram.

Voltou a cozinhar. Culinária mineira. Inventava também uns pés-de-moleque, que comíamos ao voltar do igarapé, no cair da tarde.

Uma noite, ele nos surpreendeu ao voltar para casa com uma bandeira verde. Anunciou que era da sua equipe de futebol, que já estava quase montada. Havia mandado buscar na capital os jogos de camisa, calções, meiões, chuteiras, bolas, apito e uma bolsa branca para o massagista. O treino começaria naquela semana, no imenso terreno baldio vizinho, que improvisou como campo.

Um investimento daqueles para um time de meninos, mirim, assombrou os cartolas dos principais times da cidade, o Vila Nova e o Vera Cruz.

Seus olhos voltaram a brilhar e o víamos falar compulsivamente. Curioso mesmo, no entanto, era o nome do time, que poucos sabiam pronunciar direito: Pasárgada Futebol Clube.

Na preleção inicial, no primeiro treino, comentou sobre o nome da equipe. Pasárgada seria um reino imaginário, onde tudo era possível. O papel do time era tornar realidade o impossível, além de proporcionar espetáculo a quem nos assistisse.

Inscreveu o time em um torneio, logo em seguida.

De manhã, mal amanhecia o dia, havia treino físico. À tarde, após as aulas, o treino com bola, no campo do BEC, com direito à torcida.

O uniforme branco com listras verdes em diagonal chamava atenção e dividia as opiniões. Achavam um desperdício haver uniforme para treino. Inveja incontida. Em razão disso, diziam que ele ficara louco de vez; que investira todo o seu dinheiro no time; que estava endividado; que poderia a qualquer momento deixar a cidade. Nós, mergulhados na atmosfera de sonho que ele criara, nos orgulhávamos de poder envergar as cores do time e isso nos bastava.

O torneio começou algumas semanas depois e envolveu as principais equipes da cidade – das poucas escolas e dos clubes.

No primeiro jogo, uma surpresa. Minutos antes de entrarmos em campo, o Henrique reuniu toda a equipe. Uniformizados, aquecidos, prontos para o confronto, a expectativa era visível. Num dos cantos do campo, fez-se um grande círculo. Uma prece, os gritos de guerra e a inovação: a volta olímpica com o estandarte desfraldado, seguindo à frente, carregado pelo próprio técnico. Um arrepio percorreu todos os torcedores e curiosos ali reunidos. Aplausos.

A grandiloqüência daquele estandarte verde e branco, com o nome do time escrito em destaque, elevou o moral da tropa.

Com o apito dando início à partida, começaria a primeira de uma série de estrondosas vitórias. Ao final dos 8 x 3 aplicados ao Operário, o sargento Lauro veio nos cumprimentar e louvou a idéia do estandarte.

O Henrique, ainda em estado de êxtase, disse tratar-se do seu “lindo pendão da esperança”. Era, na verdade, o símbolo de sua própria ressurreição, conforme interpretaria o padre Ricardo, que assistia ao jogo.

Respiramos futebol noite e dia, durante aquele mês e meio do torneio, tantos vezes interrompidos por aguaceiros sem trégua.

A casa do Henrique tornara-se uma grande concentração. Toda noite fazia-se por lá uma grande roda de comentaristas e graças a essa atmosfera, ele voltara a escrever. Crônicas esportivas e alguns ensaios existenciais. Lia-os ali, para ouvidos atentos, que nem sempre conseguiam penetrar todas as nuances, mas adivinhava o que, nas entrelinhas, ele desejava expressar.

Divertíamo-nos com as suas tiradas. Escreveu até mesmo uma fábula sobre o grande adversário do jogo final, um treinador que explorava o bolso dos pais, falso benfeitor, dono de um time fabricado às pressas. Transformou-o num grotesco duende escocês que tinha uma secreta aversão ao futebol, por não ter conseguido jogar no time dos duendes da Floresta Negra. Por isso, seu grande prazer era furar as bolas que encontrasse pela frente. Até que um grande mago, irritado com suas perversidades, o condenou a se tornar gandula num campinho de crianças pobres, filhos de miseráveis mineiros de carvão. Na noite da fábula, dormi com aqueles meninos, sujos de carvão, chutando a bola bem longe só para vê-la voltar para o campo, como que por encanto.

No dia seguinte, o adversário foi derrotado. Um autêntico passeio em campo. Henrique, no entanto, não permitiu que humilhássemos os jogadores do outro time. Bastavam os gols. E eles não faltaram: 10 x 2. Campeões.

Na comemoração do título, na festa que o sargento Lauro mandara fazer, o Henrique conheceu aquela que se tornaria sua segunda mulher. O Alexandre, que não aguentava mais “queimar lata”, achou a idéia confortável. Deu-se tão bem com ela, que para agradá-la cumpria rigorosamente com o combinado nas lides domésticas.

Nos meses que se seguiram, ainda em pleno inverno com as chuvas inundando tudo, o time treinava quando o tempo permitia.

O administrador da Vila, na ocasião, convidou o Henrique para coordenar o recém-criado Departamento de Esportes.

Porém, outro convite o fez mudar todos os seus planos. Um amigo seu de Manaus o localizara ali, graças ao Pasárgada Futebol Clube, cuja fama chegara à capital do Amazonas, por meio de alguns oficiais do 5º BEC, que haviam sido transferidos. O convite não era para ser técnico improvisado de futebol, mas jornalista. Tornar-se-ia responsável pela seção de esportes de um grande jornal local.

Despedi-me do Alexandre, meu grande amigo e do seu pai, que me deixaria de presente o estandarte do time. Nunca mais os vi. Soube que se mudaram, anos depois, para Belém. Não faço hoje, a despeito das minhas investigações, a menor ideia por onde estarão.

O padre Ricardo, ao perceber o meu estado de ânimo após a partida dos amigos, consolou-me: “Quando estamos prontos para voos maiores, os horizontes se ampliam, nos convidando aos desafios. Um dia chegará a sua vez. Prepara-te!”

Não tenho feito outra coisa. Por isso vivo ensaiando, escrevendo histórias como estas, que estavam quase apagadas nos arquivos da minha memória, mas ainda há pouco ressuscitadas ao saber que o padre Ricardo partiu para um algum lugar acima das nuvens, aqui pelos céus azuis de Rondônia…