105.3

Passeando entre torcidas

Alexandre Fernandez Vaz

Frequentei estádios de futebol em muitos lugares. Perto de casa, das de amigos, em viagens de trabalho, nas situações mais fortuitas, foram diversos os impulsos que me levaram a assistir a jogos de todos os tipos. Clássicos notáveis, contendas com equipes bem-montadas, mas também, partidas decisivamente frustrantes. Estive em diferentes torcidas, em tribunas tão distintas quanto as populares do Estádio do Bosque, em La Plata (onde entrei sem que me houvessem solicitado o bilhete) e um lugar dos melhores na arena do Mainz 05, com ingresso a quinhentos reais (a convite de Detlev Claussen). Sem que me manifeste muito nas arquibancadas, sem sequer ter ido alguma vez ao campo com uma camiseta de clube (apesar de gostar de muitas delas, principalmente, mas não apenas, das do Corinthians) presenciei não poucas situações inusitadas. Elas me disseram sobre o esporte, mas também sobre a experiência de viver – algo do qual, evidentemente, o futebol é parte.

Em 2007, quando o Corinthians, meu time de devoção, participou da segunda divisão do campeonato brasileiro, fui ao Estádio da Ressacada, do Avaí, para assistir ao jogo que definiria o melhor time do primeiro turno. Naquela terça à noite, tendo chegado cedo com os amigos que se dispuseram a enfrentar o trânsito e a chuva, acomodei-me na parte destinada à torcida visitante. Aos poucos, o território foi sendo ocupado, digamos, até que não sobrou espaço vazio. Antes que isso acontecesse, no entanto, eis que surge um corintiano empolgado, com sua enorme bandeira que fora, segundo ele, confeccionada com as próprias mãos. Afastamo-nos um pouco para acomodar o estandarte e foi então que ouvi o vaticínio: “vivo há quatorze anos em Florianópolis, mas, você acha que vou torcer pra Avaí ou Figueirense?! Eu sou Corinthians!” Vindo de fora e já formado como torcedor, não é comum que se mude de filiação, tampouco que se agregue mais um amor ao conjunto dos afetos. No máximo, uma simpatia. Corintiano fanático? Talvez seja um pleonasmo dizer isso, escutei mais de uma vez.

Fanatismo mesmo, no entanto, vivenciei em La Plata, capital da província de Buenos Aires, na Argentina, dois anos depois. Com Eduardo Galak fui ao pequeno e antigo Estádio do Bosque, do Gimnasia y Esgrima, grande rival do Estudiantes, de tradição muito mais vitoriosa que o adversário. Chegamos às tribunas populares, atrás de um dos gols no momento em que a equipe local entrava em campo para enfrentar o Velez Sarsfield, então líder o campeonato. Já havia gente grudada na enorme grade que nos separava do campo e todo o resto estava nas íngremes arquibancadas de concreto. Estes saltavam sem parar. Permanecemos a partida toda em pé, com exceção do intervalo, quando tudo se acalmou. Uma moça próxima a nós passou o primeiro tempo aos gritos, insultando tudo e a todos, o segundo também. Lá pelas tantas, quando o centroavante do Gimnasia mais uma vez caía sobre o resto de grama do campo de jogo, ela não vacilou: “Levántate boludo, imbécil, hijo de p.”. Uns minutos depois, o mesmo futebolista havia pouco ultrajado, já com o time vencendo a partida de virada, foi substituído sob aplausos calorosos, inclusive da torcedora. Os locais venceram, para o júbilo de todos e todas, principalmente porque o Gimnasia sobrevivia no torneio. Sobrevivemos.

alexfvaz foto torcida turquia 2016

Jovens torcedores do Fenerbahçe. Foto: Alexandre Fernandez Vaz.

Sim, as moças, lá como aqui, insultam, muitas vezes com palavras machistas, que desabilitam as mulheres. É improvável que pensem na mãe de um jogador ou árbitro quando proferem o famoso e multilinguístico palavrão – mostra, mais uma, da força do patriarcalismo a compor o Ocidente – mas, de qualquer forma, chama a atenção a presença do ritual tribal, bélico, que demarca o imaginário também de torcedoras. Desde muito há mulheres nos estádios, mas está claro que cada vez mais elas os frequentam, seja porque há mais segurança e conforto, seja porque, obviamente, o futebol é assunto também de interesse e paixão femininas. Já presenciei muito assédio nos estádios, mas, tenho a impressão de que isso diminuiu nos últimos tempos. Não sei bem, é bom que isso seja avaliado pelas mulheres, elas serão mais precisas no diagnóstico.

Mas, talvez uma das experiências mais interessantes que tive com torcedores foi fora do estádio. Em junho de 2016 eu estava em Istambul para um congresso internacional sobre o filósofo Theodor W. Adorno. No dia que se seguiu ao encerramento do evento, caminhando pela porção asiática da cidade, encontrei jovens torcedores do Fenerbahçe. É conhecida a euforia dos turcos com o futebol, tema que ganhou espaço até mesmo na literatura de Omar Pamuk. Pois bem, acabei, para minha própria surpresa, abordando o grupo quando o encontrei em uma estação de metrô. Conversamos alegremente em inglês, convidaram-me para ir ao estádio com eles, fui bombardeado por perguntas sobre jogadores brasileiros, principalmente os que atuaram no Fener. Entre eles, soberano, o meia-atacante Alex, cuja estátua orna a entrada do estádio do clube. Tomamos o trem juntos, atravessamos o Estreito de Bósforo pelo túnel, fui perguntado se era cristão ou mulçumano. À resposta de que não era religioso, ouvi deles, imediatamente, que tinham muito respeito por mim. Chegamos ao momento de desembarcarem, um deles me disse que fariam uma dupla homenagem – haviam conversado entre si em turco. Saí do vagão para abrir passagem e os ouvi em uníssono e repetidamente, cada um saindo e me saudando com um cumprimento: “We love Alex, We love Alex!” Inesquecível.

Ilha de Santa Catarina, março de 2018.