135.35

Passou da hora de difundir as pesquisas nordestinas sobre futebol!

ReNEme

A escrita deste texto tem como acontecimentos nas mídias sociais duas reclamações sobre como a mídia representa o futebol do Nordeste: vários perfis ligados à torcida do Fortaleza Esporte Clube estão em campanha contra jornalistas e programas esportivos que debatem a possibilidade de Rogério Ceni, atual técnico do clube, treinar outra equipe; enquanto uma rede de perfis sobre futebol nordestino lança a campanha “Respeita o Nordeste”, destacando características da torcida na região.

No campo comunicacional, de forma geral, o problema da representação se apresenta com distintos exemplos, seja no jornalismo ou em produtos ficcionais. Quando se fala em Nordeste, por sinal, às vezes se esquece das diferenças entre diferentes estados que compõem a região (mas isso já é assunto para outra coluna).

Na produção científica, essa realidade não se difere, considerando o desenvolvimento da pesquisa acadêmica no Brasil, com formação tardia de programas de pós-graduação stricto sensu no Nordeste, com destaque maior na Comunicação, cuja difusão de mestrados específicos se dão especialmente a partir de 2007 – antes, dos 9 estados que compõem a região, apenas Bahia e Pernambuco ofertavam este tipo de formação, hoje são 9 programas em 8 estados.

Fechando esse panorama, a pesquisa sobre futebol em programas de Comunicação também é recente, com marco estrutural a criação do grupo de pesquisa “Esporte e Lazer”, coordenado por Ronaldo Helal, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), a partir de 1997. Quatorze anos depois, Bueno (2011) identificava apenas 6 grupos no Diretório de Grupos do CNPq sobre “comunicação e esporte” ligados diretamente à Comunicação.

Outro marco relevante sobre a questão foi o fato de que em 2012 o tema do congresso da Intercom (Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação), que é o principal evento acadêmico nesse campo, foi “Esportes na Idade Mídia”. Vale destacar que desde 1996 o Intercom acolhe trabalhos de “Mídia e Esporte” e hoje conta com o grupo de pesquisa “Comunicação e Esporte”, que é o grande espaço de apresentação de trabalhos nesta perspectiva, mas que refletem mais pesquisas vindas de Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul – a título de exemplo, em observação prévia, identificamos apenas 11 apresentações de pesquisadoras e pesquisadores do Nordeste, num conjunto de 198.

Criação de uma rede

É este cenário que justifica a criação da Rede Nordestina de Estudos em Mídia e Esporte (ReNEme). A rede surgiu em agosto de 2020 a partir da iniciativa de um grupo de pesquisadoras e pesquisadores do Nordeste visando a articulação para trocar ideias e a realização de debates visando a qualificação de seus estudos e a formação de parcerias para publicações em conjunto. 

O objetivo é gerar o diálogo entre quem optou por estudar o futebol e normalmente se encontra sem muito contato ou um grupo de pesquisa específica num determinado programa de pós-graduação, de maneira a fortalecer e dar visibilidade às investigações desenvolvidas em nível de pós-graduação no Nordeste sobre questões ligadas ao esporte e sua repercussão na mídia, a partir da Comunicação e áreas afins dentro das Ciências Humanas, Sociais e Sociais Aplicadas.

Já neste primeiro momento, a ReNEme conta com representações de discentes e docentes vinculados a universidades públicas de Alagoas, Ceará, Paraíba, Pernambuco, Piauí e Sergipe; e segue aberto para a adesão de mais pesquisadoras/es. 

Eventos refletem o panorama

A ReNEme também almeja realizar eventos periódicos para intercâmbio e divulgação científica dos trabalhos que desenvolvem, além de incentivar o surgimento de novas pesquisas e pesquisadoras/es interessados em estudar temas ligados a Mídia e Esporte. 

Dentre as atividades que marcaram o lançamento público da ReNEme, esteve a edição dos “Encontros Leme” sobre “O cenário da pesquisa em Comunicação e Esporte no Nordeste”, realizado em dia 4 de setembro pelo Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte (LEME), da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), que pode ser assistido em:

Além disso, o coletivo construiu a Jornada Nordestina de Pós-Graduandas/os em Comunicação e Futebol, que ocorreu de 9 a 11 de setembro de 2020 e contou com a apresentação de 19 pesquisas, entre teses e dissertações em andamento e pesquisas de mestrado já concluídas sobre 5 grandes temáticas: apropriação política do futebol, relações de gênero no futebol, programas midiáticos sobre futebol, economia política do futebol e formas de torcer. Todas as sessões temáticas estão no canal do Ludopédio no Youtube:

Como critério para a seleção dos trabalhos que se apresentariam na Jornada, o evento realizou chamada de resumos simples (até 15 linhas) com dois recortes: pesquisas em desenvolvimento por pesquisadoras/es nordestinas/es em pós-graduações stricto sensu; e investigações sobre comunicação (não só a perspectiva midiática) e futebol (não abrindo ainda para outros esportes).

Dentre elementos quantitativos, é interessante ver, seguindo o que mostramos no panorama, que, se tivemos 16 pessoas com vínculo na graduação a cursos de Comunicação, esse número cai para 10 em mestrado e doutorado, o que reflete a necessidade de migração de área em busca de espaço para estudar este objeto. Outro dado importante é que, das 19 pessoas que apresentaram trabalhos, 6 saíram do Nordeste, incluindo duas que estudam em Portugal.

Coluna no Ludopédio

Estreamos hoje a coluna semanal da ReNEme aqui no Ludopédio, maior portal de produção e divulgação científica sobre futebol da América Latina. Além deste panorama geral, iremos revezar a cada semana entre as pessoas que fazem parte do coletivo neste momento, o que possibilitará termos divulgação e, em breve, um cenário real sobre temas e perspectivas trabalhados em nível de mestrado e doutorado a partir do Nordeste – mas não necessariamente sobre ele.

Referência

BUENO, Wilson da Costa. Os grupos de pesquisa em comunicação e esporte no Brasil: perfil, produção e focos de interesse. Organicom, n. 15, p. 46-66, 2011.