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A patinação artística no mundo (machista) do esporte

Wagner Xavier de Camargo

Até pouco tempo atrás, falar de patinação artística no Brasil soava algo distante e sem sentido. Primeiro pela falta de referências relativas ao esporte na própria cultura esportiva do país – futebolista, testosteronada, machista. E segundo pela noção equivocada de senso comum da suposta incompatibilidade entre um esporte feito no gelo e um país tropical. No entanto, isso começa a mudar lentamente a partir dos últimos Jogos Olímpicos de Inverno em Sochi-2014, na Rússia, quando não só brasileiros e brasileiras tiveram a oportunidade de assistir massivamente apresentações da modalidade na televisão, como se sentiram representados/as por Isadora Williams, então única atleta competindo na patinação sob a bandeira nacional.

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Isadora Williams em 2012. Foto: David W. Carmichael (CC BY-SA 3.0).

Isadora é americana, nascida nos Estados Unidos. O vínculo com terras tupiniquins veio por meio da mãe brasileira, que contou à reportagem do Globo Esporte à época que a menina começou com “essa história de representar o Brasil aos nove anos de idade”. Foi assim que a família gravou um vídeo, enviou à Confederação Brasileira de Desportos no Gelo (CBDG) e o resto da história todos nós já conhecemos. Porém, ao contrário da realidade nacional em que o esporte quase inexiste e não há políticas de desenvolvimento, no país natal de Isadora as coisas são diferentes: há clubes, associações e federação responsáveis por uma prática disseminada e institucionalizada da patinação artística (ou figure skating).

Apesar disso, também lá há contradições de toda ordem que envolvem o esporte. Em 2016, o governador da Carolina do Norte Pat McCrory assinou uma lei que revogava aspectos significativos dos direitos de pessoas LGBT+ (lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros e outros) no Estado. Diante disso, muitos eventos esportivos de alto rendimento foram transferidos para outros lugares em nome de um boicote nacional e o Estado perdeu apoio e eventos, principalmente relacionados ao turismo. Concomitante a tal fato, um grupo de patinadores artísticos fez pressão na federação norte-americana de patinação artística (US Figure Skating) para também não realizar o campeonato adulto da modalidade na Carolina do Norte. A pressão não surtiu o efeito esperado e o campeonato aconteceu.

Mediante essa derrota parcial, e preocupados principalmente com a segurança de patinadores/as transgênero em eventos futuros, o grupo decidiu mudar de estratégia e contra-atacar. Liderados por Alan Lessik, ex-membro diretor da Federação dos Gay Games (FGG), eles começaram uma campanha para adicionar a identidade de gênero à política de não discriminação da US Figure Skating. Tal campanha se baseava tanto em petição oficial endereçada aos conselhos executivo e administrativo da federação, quanto em posts exaltados nas redes sociais sobre a necessidade de inclusão de todas as pessoas na patinação artística, independentemente de suas orientações sexuais. Isso foi bastante divulgado, inclusive pela própria FGG recentemente.

As mudanças requeridas se baseavam em três importantes pontos, resumidamente assim sistematizados: a) adicionar a identidade de gênero à política de não discriminação da US Figure Skating, uma vez que patinadores/as transgênero e variantes de gênero não têm proteção e não há regras que abordem sua participação na modalidade; b) aplicar a política de não discriminação da US Figure Skating aos staffs, patinadores/as, árbitros/as e outros funcionários e exigir que os lugares de organização futura de competições tenham proteções locais/estaduais que reflitam a política da federação de patinação; e c) garantir que todos os staffs, árbitros/as e outros/as recebam treinamento na política de não discriminação da US Figure Skating e sua aplicação em toda a área de patinação de competição. Detalhes podem ser lidos na íntegra em documento “Ações Combinadas 2016-2017 US Figure Skating”, no link http://www.usfigureskating.org/content/2016-17%20Combined%20Report%20of%20Action%20FINAL.pdf

Do ponto de vista do grupo que protestou, quando os conselhos executivo e administrativo procedem à aprovação desses três pontos no conjunto das políticas de não discriminação da federação estadunidense de patinação artística, eles demonstram aos/às atletas e outros partícipes da modalidade que a US Figure Skating estaria preocupada em garantir a máxima diversidade (sexual e de gênero) possível e em oferecer um ambiente inclusivo a todos/as nos âmbitos desse esporte. De meu ponto de vista de pesquisador em estudos de gênero e esportes acredito que tais mudanças nos alertam, por um lado, o quanto que perigosamente tendemos a generificar as modalidades esportivas, masculinizando-as ou feminilizando-as à exaustão e, por outro lado, o quanto que elas salutarmente desfocam nossa visão do fenômeno esportivo naturalizado como heteronormativo, no qual sexualidades divergentes são subsumidas, inferiorizadas e relegadas ao ostracismo.

Queen Yuna em ação no Figure Skating. Foto: Queen Yuna (CC BY-ND 2.0).

Queen Yuna em ação no Figure Skating. Foto: Queen Yuna (CC BY-ND 2.0).

O grupo de patinadores que sugeriu as mudanças encontrou grande apoio à inclusão da identidade de gênero na política de não discriminação da US Figure Skating, bem como suporte para treinamentos de pessoal e de arbitragem no tocante a tais questões. O conselho executivo da federação recomendou as mudanças e, depois de uma série de debates, elas foram aprovadas e publicadas no início de maio passado, como destaca o documento acima.

Em tempos políticos difíceis nos Estados Unidos da era Trump, uma vitória dessas diz muito mais do que apenas defender direitos de participação não discriminatória na patinação artística. Relaciona-se com o encorajamento e o restabelecimento da esperança de transformações interessantes e profundas na referida modalidade (e mesmo no esporte convencional, por que não?).

A patinação artística, que já fez parte dos Jogos Olímpicos de Verão (Londres-1908 e Antuérpia-1920), que teve suas regras flexibilizadas em 2014 de modo a permitir a participação de equipes mistas (com homens e mulheres, em categorias individuais e duplas), agora avança mais um passo: reconsiderar as distintas identidades de gênero no marco das polícias não discriminatórias institucionalizadas da modalidade. Um viva à patinação artística! Um viva à existência de uma modalidade que ousa desafiar o mundo machista do esporte!