112.24

Apertar a mão da democracia: a exemplo de Paul Breitner

Alexandre Fernandez Vaz

Em 1981 a seleção brasileira se preparava para a Copa do ano seguinte, a do Desastre do Sarriá, quando foi jogar partida amistosa contra o selecionado alemão, no então Neckarstadium (hoje chamado Mercedes-Benz Arena, outrora Campo de Esportes Adolf Hitler), em Stuttgart. O time visitante ia bem e o objetivo era completar o giro europeu com mais uma vitória, depois dos triunfos em Wembley e no Parque dos Príncipes, contra Inglaterra e França. Jogo lá e cá, Brasil na frente por dois a um, eis que o excelente zagueiro Luisinho, do Atlético Mineiro, corta com o braço, dentro da área, um cruzamento do ponta-direita Rummenigge. Pênalti marcado, apresenta-se para cobrar o meio-campista Paul Breitner.

O arco brasileiro era defendido por Waldir Peres, ótimo goleiro, mas que nunca gozou de unanimidade entre os torcedores. Assistíamos ao jogo em casa, empolgados com o desempenho do time de Telê Santana, Zico e Sócrates, e lembro-me de meu pai dizendo “O Waldir vai pegar”. O ídolo são-paulino, que se destacava nos pênaltis, preparou-se para a duelo. O alemão correu para a bola e chutou no canto direito do goleiro. Waldir se adiantou – como era mais que praxe – e defendeu a pelota. Para nosso desapontamento, o árbitro ordenou nova cobrança, e novamente o número oito dos teutônicos assumiu a tarefa. O canto escolhido mudou, mas não o resultado. Waldir espalmou para escanteio e o Brasil segurou a vitória nos dez minutos que ainda faltavam para a conclusão da peleja.

Breitner foi um tremendo jogador, campeão mundial em 1974, em Munique, autor de um dos tentos contra a fortíssima Holanda na final vencida por dois a um. Gol de pênalti, aliás, que não converteu em Waldir Peres. Por aquele tempo, jogava no Bayern como lateral-direito moderno, atacando e defendendo, armando o jogo, marcando adversários, fechando espaços. Fora campeão europeu em 1972, seria vencedor da Copa dos Campeões da Europa (precursora da Champions League) em 1976, quando ainda ajudaria seu time a derrotar o Cruzeiro, em dois jogos, na disputa do título da Copa Intercontinental. Na Copa de 1982, a Itália, depois de um começo trôpego, engrenou depois de desclassificar os brasileiros. Na final frente aos germânicos, o único gol do adversário na vitória por três a um foi de Breitner, que voltava a representar a seleção em uma Copa, depois do interregno em 1978.

Fazendo eco ao grande movimento de protesto contra a ditadura argentina, iniciada dois anos antes do Mundial, Breitner propôs aos companheiros que iam à Copa que não apertassem a mão de Jorge Rafael Videla, o ditador em exercício, na cerimônia que antecederia a partida inaugural do certame. Ele mesmo, em litígio com a Federação Alemã de Futebol (DFB), estava fora da equipe. A proposta gerou muita discussão no país, tendo sido uma das marcas dos conflitos que opuseram posições sobre a competição que seria disputada em meio ao estado de exceção na República Argentina. Havia os que defendiam o boicote ao evento, outros que apoiavam a participação da equipe nacional, como maneira de mostrar ao mundo, via imprensa, o que se passava na margem direita do Rio da Prata. Os alemães viajaram e, sem Breitner, Beckenbauer e o artilheiro de 1974, Gerd Müller, fracassaram.

Tampouco houve êxito político completo por parte de Breitner junto aos companheiros, que seguiram a orientação de Hermann Neuberger, presidente da DFB, segundo o qual não ficaria bem perpetrar tal ato em público. Neuberger, vice-presidente da FIFA, então governada por João Havelange, asseverara, meses antes da competição, que a concepção de democracia na América do Sul não era a mesma que a europeia. Havelange, por sua vez, não teve problemas em acompanhar Videla nas tribunas do Monumental de Nuñez, estádio do River Plate, onde foram disputadas as partidas mais importantes da competição. Os alemães não deixaram de cumprimentar o ditador, mas o fizeram, segundo contou o goleiro Sepp Maier, de maneira tão forte ao apertarem a mão direita dele, que o anfitrião jamais esqueceria o episódio.

A Alemanha não foi bem naquele Mundial, mas sim seu adversário na final de quatro anos antes, a Holanda, novamente finalista contra a seleção da casa, a Argentina, que, em jogo épico, venceu o confronto. Finda a partida só decidida na prorrogação, os vice-campeões desceram ao vestiário e não participaram do ato oficial de premiação, evitando saudar autoridades locais. Videla já tivera problemas no aperto de mão de um dos jogadores argentinos, quando das congratulações pela vitória contra o Peru, a que credenciou a equipe para a finalíssima. O lateral direito (marcador de punta ezquierdo, como se dizia à época, no país vizinho) Alberto Tarantini, autor do segundo gol, fizera questão de tocar a próprio corpo nu, com veemência, antes de encontrar a mão do ditador. Dois amigos do jogador haviam sido sequestrados por forças repressivas clandestinas em um bar aonde os três jovens haviam ido se divertir. Nunca mais apareceram. Diz-se que a cara do ditador não foi das mais amigáveis ao ver de onde proviera a mão que o cumprimentava.

Theodor W. Adorno foi certa vez perguntado sobre sua opinião a respeito do aperto de mão. Ele respondeu que havia algo de bárbaro no gesto que, oriundo da cultura medieval, tinha o sentido apaziguador de mostrar que não se portava uma arma. Mas que, no entanto, lhe parecia antipático o cumprimento que feito com pouca firmeza. O filósofo se referia à quebra da frieza que o contato entre os corpos pode proporcionar. Tarantini e Maier não puderam deixar de se conformar, mas mostraram, cada um a seu modo, a repulsa à ditadura; Breiter e os holandeses não estenderam a mão direita aos ditadores. Eles, como Afonsinho, Sócrates, Paulo André, Roger Machado, entre tantos, não apertaram a mão do autoritarismo.

Viva o futebol, viva a democracia!

Ilha de Santa Catarina, outubro de 2018.