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Pede o mundo de novo

Ivo Barreto

A cena não era nova. Era mês de julho e a missão era ver o Flamengo enfrentar o Goiás em casa. Maracanã lotado, jogo de torcida única e realizado pela manhã, oportunidade perfeita para levar a molecada pra rememorar aquele espaço que me é tão caro, em momento que a arquibancada me atraía, pelo que vinha fazendo o time.

Ingresso no bolso, quando subimos o elevado junto ao estádio e nos vimos imersos na atmosfera única que, apenas quem frequenta estádio será capaz de imaginar, minha caçula, que vinha torcendo o nariz para o convite, foi finalmente cooptada pelo mar vermelho e preto que já se movimentava nossa arredores. Aquela tarde na casa do tio na Tijuca que estava planejada foi, de súbito, trocada por um sonoro “quero ir!”, ainda em tempo, rendendo boas risadas. Não se fica inerte a esta torcida, pensei, algo que o sujeito vai aprendendo com algumas horas de voo de estádio.

Maracanã lotado contra o Goiás. Foto: Ivo Barreto.

Subimos a rampa do Bellini. João e Alice animados falavam bastante, o clima tinha boa energia no ar. O jogo preparava-se para servir os pratos de entrada e a torcida se aquecia no gargarejo, de forma que no anel de circulação, ouvíamos apenas o bafo da arquibancada em rufadas pulsantes da bateria. Imbicando no acesso possível – com o estádio lotado, não se entra em qualquer rampa –, finalmente o ar se renovou e o campo dominou a paisagem, o juiz dava o apito de início, acho que nos aguardava. Por alguns segundo, o verde do campo, saturado de luz da manhã, era o protagonista, perdendo em seguida para as 60 mil vozes que me levavam a tantas lembranças quanto são possíveis guardar naquela imensidão de concreto. Memórias vividas em muitas tardes na era Romário, sobretudo, quando vi jogos nas mais variadas situações naquele mesmo caldo, embora a panela fosse mais charmosa.

As crianças entenderam logo o clima e tome jogo. O Flamengo havia trocado de técnico, recebera um português com pinta de roqueiro, mas que até ali vinha sendo questionado pelas trocas estranhas na última partida contra o Furacão na Arena da Baixada, e que nos rendeu um empate e um terceiro lugar na tabela, se bem me lembro. Eu mesmo me perguntava que diabos esta diretoria tinha na cabeça pra trocar o comando de um time que vinha na briga pelo título, embora com acertos a fazer. No botequim a dúvida era geral… Mas vamos lá, deixa o cara trabalhar.

Matutando estas coisas da mais alta importância, enquanto passava o olho na torcida (fugindo da infeliz posição escolhida para os placares eletrônicos neste novo Maracanã), a primeira explosão do caldeirão comemorou aos 5 minutos o primeiro tento, com Arrascaeta. O remorso da crítica ao patrício que me bateu nesta hora quase que me escapa, quando uma falha da zaga deixa o Goiás empatar cinco minutos depois. E daí em diante, vi, à minha frente, o que fazia tempo que não via: um time que não parava, que não pisava no freio e até o final do jogo, enfiaria mais cinco gols na caixa do Goiás, finalizando aquele domingo com um inesquecível 6 a 1 em campo. Obviamente, Jesus ganhou pontos com os fiéis depois do milagre operado e mesmo a desclassificação na Copa do Brasil, que ainda viria em seguida, não foi capaz de apagar a imagem daquele time, mas pra mim, outras questões soaram alto.

Flamengo 6 a 1 no Goiás em partida no Maracanã. Foto: Alexandre Vidal/Flamengo.

Ainda que aquele ambiente de arquibaldo me fosse extremamente familiar, aquele dia me vi no esforço de buscar entender novas letras que soavam por ali. Não que não tivesse visto surgir novas músicas no estádio nestas décadas, longe disso, mas a ebulição da torcida não estava normal, o caldeirão fervia a borbulhas e a catarse que tanto me atrai na mágica manifestação das multidões era distinta. Fora o Big Lu, meu ex-companheiro de zaga e comandante da cozinha do épico time da arquitetura da UFF, uma boa década atrás, todo o resto que encontrei naquela arquibancada em ebulição me parecia ter cheiro de novidade, de algo desconhecido por vir. Não pude deixar de lembrar do excelente documentário “Pulmão da Arquibancada”, de Pedro Von Krüger de Freitas e Marcel Costa, no qual, em 2012, vi revelado algo que as pessoas não se dão conta: por mais natural que possa parecer, esta maneira alucinada e incessante que hoje impressiona o Mister, nem sempre foi a maneira de se torcer em um estádio de futebol, mesmo para o Flamengo. Esta pegada, cuja fornalha mastiga a brasa do calor das matrizes do samba, trazidas à época pela Raça Rubro-Negra, nasceu movida por um time que, no final dos anos 70, jogava como quem dá espetáculo, exigindo de sua torcida algo à altura. Mais que conquistas inéditas, aquele time de Zico, Junior, Leandro e cia. conseguiu o feito (e o privilégio) de inspirar uma geração a criar um dos maiores espetáculos da terra, que envolvia campo e arquibancada.

Pois bem, aquilo poderia ter sido uma impressão besta, um engano romântico talvez, mas me caiu como certeza indubitável na saída, quando ao entrar no túnel, por de trás da arquibancada, as milhares de vozes do estádio permaneciam cantando e a multidão não arredava pé, soprando o calor frenético da bateria da organizada. Daí em diante, a monótona descida da rampa, abarrotada de gente e sem vontade de terminar a festa, durou seus 40 minutos de cantoria e transe, em um pandemônio de bumbo e tarol, fazendo sacudir a imensidão de concreto, fazendo bailar levemente a mais pesada das estruturas interiores de cada sujeito ali presente, ao som dos novos cantos que me haviam chamado a atenção durante o jogo, energizando quem fosse.

Neste último sábado, quando Gabigol enfiou o derradeiro balaço no filó dos argentinos do River (ou quando vimos o mar de gente na Presidente Vargas), vi feliz e no mundo aquela revelação confiada, quase como um segredo infantil, à minha molecada rubro-negra, no animado papo de volta pra casa naquela calorosa e inesquecível manhã de domingo de inverno, meses atrás. Falávamos da letra que tínhamos mais gostado, cantarolávamos as rimas, rindo da parte do pobre do Liverpool de 81, posto na roda, delícia de jargão brasileiro do futebol, feito música. Mas te juro, celebrando a conquista, por um tempo ainda segui pensando naquela torcida, no epicentro da energia absolutamente nova que senti, em um jogo que devia ter sido apenas mais um dos tantos que já havia visto no Maracanã e o que aquilo havia tomado de proporção. Aliás, pensando bem, eu mesmo havia voltado ao Maracanã pra cantar, convocado por um time que já mostrava cancha, que já se insinuava atraente. Como naquela geração famosa de 81, não se sabe dizer quem empurra quem, é tudo uma coisa só, um todo que joga em partido alto, dialógico, o conjunto que faz entender a “monumentalidade da massa” que fala o Professor Nestor Goulart.

Gabigol beija a taça da Libertadores da América. Foto: Alexandre Vidal/Flamengo.

E, veja bem, não falamos de um fenômeno futebolístico dos mais triviais, por favor, não mesmo. Nas mais respeitadas esquinas de botequim, compara-se ao São Paulo de Telê, ao “Palmeiras Parmalat”, casos de quando em vez, pra contar nos dedos de uma mão, em que se torce pelo futebol, não pelo time. Pois é aí, meus amigos, que acredito residir um outro sentido possível àquilo que se leva ao desejo no estádio, no bonito verso em que a massa canta hoje: “e agora meu povo, pede o mundo de novo”. Desconfio – embora a certeza mesmo, nem Jesus – que não se trata necessariamente de conquistar o mundo no tão sonhado bi-mundial (que seguiremos também querendo), mas, sim, do desejo do mundo em superar a monotonia do que temos, de superar o medo da beleza do espetáculo que pode ser o futebol, de se entregar a ele e dançar junto. Olhando por aí, é bem mais o caso de crer que é o mundo que pede isso de novo. Então, vamos a ele, é ou não é?