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Pela ampliação do debate sobre clube-empresa no Brasil!

Anderson David Gomes dos Santos

No atual momento, o Congresso brasileiro trabalha um projeto de lei para aprovar um formato de clube-empresa, tendo como principal agente apoiador o presidente da Câmara dos Deputados Rodrigo Maia (DEM-RJ). Entre idas e vindas, transformar os clubes brasileiros de futebol em empresas é uma demanda que aparece com frequência nas últimas três décadas, normalmente como sinônimo de gestão eficiente.

Rodrigo Maia, presidente da Câmara dos Deputados no Brasil, esteve neste mês de março na Espanha para se reunir com representantes de La Liga e discutir projeto de clube-empresa. Foto: Reprodução/Twitter.

Etapas de estruturação e mercantilização em paralelo

Troféu da Premier League, liga modelo atualmente. Foto: Wikipedia.

As diferentes etapas de profissionalização do futebol demarcam bastante as ligações com a mercantilização. Pegando o caso brasileiro, o decreto de 1933 do presidente Getúlio Vargas oficializou uma mudança na estrutura do jogo: a elite socioeconômica, que restringia o acesso ao jogo pelas classes populares, passava aos cargos de direção, comandando os jogadores e controlando as mudanças nas regras do football association.

 

Essa característica oligárquica do esporte prosseguiu em modelos semelhantes em todo o mundo até mudanças conjunturais do sistema capitalista, com aberturas de diferentes mercados a partir dos anos 1980 e a maior participação da Indústria Cultural como financiadora e parte da organização dos jogos profissionais.

A formação das ligas de clubes para organizar os torneios nacionais é o passo adiante nisso, numa demonstração clara de como a estrutura do esporte precisava ser alterada para envolver mais agentes em suas decisões – ainda que as confederações nacionais tenham mantido controle maior.

Assim, foram se desenvolvendo modelos e legislações que permitiam a venda de clubes. Desde o caso do 50%+1 da Alemanha, em que só se pode negociar menos da metade do clube, mantendo mais da metade para torcedores – algo burlado por clubes como RB Leipzig e Hoffenheim neste momento – a outros em Chile, Portugal, Espanha, Itália, França e, especialmente, na Inglaterra, em que a entrada do capital estrangeiro é mais destacável numa liga nacional que se tornou modelo na divisão de receitas, mas também na remodelação do público esperado nos estádios.

Primeira tentativa no Brasil

O Brasil viveu aberturas de janela na década de 1990, marcada por governos de políticas econômicas neoliberais, de Fernando Collor de Mello a Fernando Henrique Cardoso. Nesses governos, duas leis, denominadas “Lei Zico” e “Lei Pelé” porque os ex-jogadores ocupavam o comando dos esportes no executivo, pretendiam levar os clubes a saírem do modelo de associação para o de clubes-empresa. No segundo caso, havia obrigação e prazos para isso, mas esse trecho foi barrado pelos congressistas ligados à oligarquia do futebol naquele momento.

Torcedores do Cruzeiro acompanham aflitos a derrota para o Palmeiras na derradeira rodada do Campeonato Brasileiro de 2019, que culminou com o rebaixamento do clube mineiro. Foto: Vinnicius Silva/Cruzeiro.

A passagem dos anos 1990 para 2000 foi marcada por uma série de parcerias com empresas que estavam fora do mercado de futebol (Bank of America no Vasco, Excel Econômico e MSI no Corinthians, Exxel no Vitória etc.) e agências de marketing esportivo (ISL em Flamengo e Grêmio etc.). A saída das empresas deixou todos os clubes em situações financeiras ruins, com quedas de divisão no Brasileiro, ainda que seja necessário considerar que em diversos casos houve disputa de poder entre o agente financeiro e os dirigentes mais antigos.

O que nos levou às novas propostas?

Essa primeira experiência e o peso dos dirigentes antigos na política interna dos clubes fizeram com que a transição para o formato de clube-empresa ficasse mais de uma década parada, com os casos de cessão dos departamentos de futebol para este modelo – já que a lei segue proibindo a transformação de todo o clube em empresa – restritos a clubes de divisões menores do futebol nacional, alguns que ascenderam (Joinville, Figueirense, Botafogo-SP e Red Bull Brasil), mas também com alguns problemas de gestão.

Nesse período, apesar da autonomia garantida pela Constituição de 1988, o Estado foi chamado para salvar financeiramente os clubes em, pelo menos, dois momentos: a criação da Timemania, loteria esportiva criada em 2008; e o Profut (Programa de Modernização da Gestão e da Reponsabilidade Fiscal do Futebol Brasileiro), criado em 2015. Em ambos os casos, está em jogo a diminuição das dívidas federais.

Dilma Rousseff, em 2015, quando assinou a Medida Provisória do Futebol que refinanciou as dívidas dos clubes de futebol com a União em troca de aderirem ao Programa de Modernização do Futebol Brasileiro (Profut). Foto: Agência Brasil.

Sem adequação dos gastos de acordo com as receitas, incluindo fases de gastos exagerados em jogadores, com inflação de salários (o fim dos anos 2010 é um caso desses, mas a situação atual de Sport e Cruzeiro também serve como exemplo), os clubes voltaram a ver crescer as suas dívidas. Mesmo que casos de reestruturação de clubes como Flamengo, Palmeiras, Grêmio, Bahia e Ceará sirvam como bons exemplos, outros tantos seguiram numa trajetória de práticas administrativas ruins, dentre os quais o Botafogo, time ao qual Rodrigo Maia torce.

Por outro direcionamento

Os problemas gerados pelos novos gestores em clubes de Portugal, Itália, Inglaterra e mesmo no Brasil (grande destaque ao caso do Figueirense do ano passado) acenderam o sinal de alerta em diversos grupos de torcedores, que tentam resistir a propostas de empresarização do futebol e, para além disso, buscam participar mais das decisões.

Na pressão por dentro, grupos de torcedores de Internacional, Bahia e Vitória conseguiram entrar como conselheiros de clubes, mas graças também a processos de democratização das estruturas internas de poder em algumas dessas associações, outro movimento visto após a primeira fase de empresarização.

Torcida antifascista do Internacional de Porto Alegre em manifestação contra o futebol moderno. Foto: Reprodução/Facebook/Interantifascista.

Hoje, podemos contar com exemplos bons e ruins nos distintos modelos acompanhados na prática do futebol mundial. Tratar esse esporte como mercadoria é uma prática necessária para quem está nas esferas de comando de clubes, federações e confederações, tendo em vista a profissionalização e o tanto de recursos financeiros que o jogo movimenta. Querer gestão adequada, seguindo os melhores modelos ideais para isso, também.

Mas não necessariamente isso virá com os clubes sendo tornados em empresas. Afinal, grandes empresas também vivem suas crises econômicas, renegociam dívidas e podem perder o controle administrativo de setores-chave da produção (o histórico deste século do Grupo Globo, para ficar na Indústria Cultural, demonstra isso).

A diferença do futebol é que ele é um bem cultural de extrema importância, elemento de identidade mesmo após os efeitos da transnacionalização de conteúdos simbólicos deste século. Esse elemento também precisa ser considerado.

Assim, é necessário acompanhar numa perspectiva crítica e voltada à melhor difusão para as classes populares o que ocorre com esse esporte, observando as relações de poder que o demarcam, incluindo aí as mudanças em sua estruturação e novas formas de mercantilização. Precisamos fugir da polaridade clube-empresa/clubes controlados por oligarcas. Há outras opções possíveis e o diálogo sobre isso nos espaços de decisão precisa ser ampliado.


(Uma boa sugestão para ter acesso a informações nessa perspectiva é o podcast SDT Na Bancada, da Central 3: http://www.central3.com.br/category/podcasts/som-das-torcidas/)

Como citar

SANTOS, Anderson David Gomes dos. Pela ampliação do debate sobre clube-empresa no Brasil! - vol. 129 no. 18.