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Pela continuidade dos pontos corridos

Marco Antunes de Lima

No último dia 8 de janeiro o professor Sérgio Settani Giglio, nobre amigo e também editor deste site Ludopédio, sugeriu, em sua coluna[1], o fim do Campeonato Brasileiro de futebol com a fórmula de disputa dos pontos corridos. Sugestão polêmica, sem dúvida, o professor Sérgio levantou a bola para um interessante debate sobre o futebol brasileiro. Como o debate foi sugerido e, como o Ludopédio é um lugar que tem como princípio o debate democrático sobre os assuntos da bola, venho messe texto defender proposta contrária do professor Giglio. Venho aqui defender a permanência dos pontos corridos como fórmula de disputa do Campeonato Brasileiro de futebol.

Em sua argumentação, Sérgio utiliza-se de texto do antropólogo americano Marshal Sahlins, que, em estudo sobre o Beisebol nos Estados Unidos da América, compara o campeonato da Liga Americana de 1939, vencida pelos Yankees de Nova York com o campeonato da Liga Nacional de 1951, vencida pelos Giants, também de Nova York. Para o autor, o título de 1939, que garantiu o Pennant (flâmula) da Liga Americana aos Yankees teria sido evolucionário, sem nenhum ponto de inflexão, sem atos heroicos decisivos, com os Yankees construindo uma grande vantagem (de 17 jogos de diferença) sobre o segundo colocado. O professor Sérgio usa esta colocação de Sahlins para mostrar a possibilidade da falta de um ponto de inflexão e de atos heroicos decisivos no Campeonato Brasileiro de pontos corridos, o que o tornaria menos interessante e menos “revolucionário”. Mas antes de demonstrar que não concordo com esta ideia gostaria de expor o que ocorreu em 1951, no campeonato da Liga Nacional dos Giants citado por Marshal Sahlins e pelo professor Sérgio Giglio, que teria sido um tipo de “volta-face” revolucionário:

Na corrida pelo Pennant da Liga Nacional os Giants, na metade da temporada chegaram a estar 13 vitórias atrás de seu maior rival, o Brooklin Dodgers, pela luta da primeira colocação. Em uma segunda metade de campeonato surpreendente os Giants alcançaram os Dodgers e ambos acabaram o campeonato com a mesma campanha: 96 vitórias e 58 derrotas (sim, a temporada do beisebol das grandes ligas americanas tem muitos jogos). Como não há saldo de pontos no beisebol, afinal a temporada é muito extensa para se definir em quem teve o melhor ataque, o título da Liga Americana foi decidido em uma série de 3 jogos. E foi no 3º jogo da série que ocorreu o ato heroico. Com os Dodgers vencendo por 4 a 2, na última entrada, o rebatedor Bobby Thomson rebateu um Home Run de 3 corridas[2] dando a vitória e o título aos Giants. Foi o momento do ato heroico e de inflexão.

Ora, o que argumento aqui é que o ato heroico da temporada só ocorreu pois ambas as equipes terminaram o campeonato com a mesma campanha. Se um dos dois times tivessem uma vitória a mais que o outro esse momento heroico nunca teria acontecido. Isso deixa o campeonato menos interessante e emocionante em minha opinião? Não.

Sou um fã dos esportes ditos americanos em geral. Desde os primeiros anos dos anos 90 do século XX acompanho as diversas ligas esportivas. Entretanto penso que não podemos usá-los para comparar com o nosso futebol. As relações existentes entre sociedade e esporte nos Estados Unidos são completamente diferentes do resto do mundo, principalmente do Brasil e da América Latina. As fórmulas de disputa dos campeonatos nos Estados Unidos tem outras origens históricas e outras razões de serem. Nosso futebol, sem dúvida é influenciado pelo modo europeu de se relacionar com o esporte. Não vejo dúvidas nisso.

O Campeonato Brasileiro com a fórmula de disputa dos pontos corridos ocorreu a primeira vez apenas no ano de 2003. Solicitação há muito tempo de uma grande parcela da sociedade e da mídia esse modelo, já adotado nos países europeus há mais de 70 anos (no caso inglês há mais de 130 anos) era algo que os meios de comunicação, e a massa torcedora em geral pediam a tempos, cansados de regulamentos esdrúxulos, que se modificavam a cada temporada.

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A torcida do Cruzeiro foi a primeira a comemorar um título do Brasileirão por pontos corridos. Foto: Douglas Magno/VIPCOMM.

A CBF finalmente cedeu e transformou seu principal torneio, o Campeonato Brasileiro, em um campeonato de pontos corridos, com o Cruzeiro campeão em sua primeira temporada. Lembro-me que uma das maiores preocupações dos brasileiros, de maneira geral, com a adoção desse novo sistema, era de que pudesse haver a concentração dos títulos em um número pequeno de equipes (mais preparadas), entre duas ou três, que teriam uma hegemonia do futebol brasileiro, como acontecia e acontece nos principais campeonatos europeus. A preocupação se dava, entre clubes, mídia e torcedores, pois no “velho” campeonato brasileiro todos os times grandes já haviam o conquistado e o medo de nunca mais vencê-lo era grande. Mas, de alguma forma, não foi isso que aconteceu. Dos últimos 15 campeonatos de pontos corridos, sete foram os clubes diferentes campeões (Cruzeiro, Santos, Corinthians, São Paulo, Flamengo, Fluminense e Palmeiras), ou seja, essa hegemonia de dois ou três clubes ainda não ocorreu, por isso me surpreendo nesses pedidos para acabarem com os pontos corridos – o professor Sérgio não foi o primeiro a assim fazê-lo.

Giglio afirma que no campeonato brasileiro de pontos corridos não há pontos de inflexão, ou seja, aquele momento memorável, da vitória heroica, como haveria em um campeonato com finais. Discordo de tal afirmação, citando o próprio Campeonato Brasileiro de 2017, que definitivamente não foi o campeonato de pontos corridos mais disputado de todos. Mas nele, sim, apesar da boa vantagem construída pela  equipe do Corinthians no primeiro turno, houve ponto de inflexão na busca pelo título: a partida do segundo turno contra o maior rival, Palmeiras, foi, sem dúvida um ponto de inflexão. A equipe alviverde encostava no rival, que fazia um segundo turno desastroso (lembram-se da bronca do Neto) e aquele sim foi o jogo decisivo do campeonato: uma final sim, sem ser uma final. A vitória corinthiana possibilitou que o clube alvinegro se reencontrasse e engatasse a corrida final até o título. E vou além, se o Palmeiras vencesse o Derby e ganhasse o título, há alguma dúvida que aquele jogo seria o ponto de inflexão palmeirense no campeonato? Acredito que não.

O professor Sérgio afirma que o campeonato brasileiro em pontos corridos não permite a produção de ídolos e heróis no futebol. Discordo. Tenho em vista que o Campeonato Brasileiro em pontos corridos produziu muitos ídolos desde 2003, principalmente para as torcidas das equipes campeãs. Acredito que Alex e Aristizabal são grandes ídolos da torcida cruzeirense, assim como o jovem Ricardo Goulart.  O técnico Muricy Ramalho é idolatrado pela torcida são paulina, graças ao tricampeonato conquistado entre 2006 e 2008, também como Rogério Ceni. Adriano e Petkovic foram essenciais na conquista do título do Flamengo em 2009, com performance memoráveis em uma arrancada fantástica para o título.

E cito o ano de 2016, quando o Palmeiras saiu campeão, com um jogador com uma performance, ao longo do campeonato, que podemos chamar de heroica: a do goleiro Jaílson. Goleiro já de certa idade, o segundo reserva da equipe, totalmente desacreditado, Jaílson foi obrigado a entrar na equipe após a contusão dos dois primeiros goleiros e teve uma performance sensacional, permanecendo invicto no campeonato (19 jogos), e ajudando, com suas defesas a conquista do título pela equipe de Palestra Itália. A performance de Jaílson, em 2016, foi sim heroica, e com um não, mas diversos momentos heroicos, que a torcida palmeirense não esquece. O credenciou ainda para a categoria de ídolo entre os seus torcedores.

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Com Jailson em campo o Palmeiras não perdeu nenhuma partida no Brasileirão de 2016. Foto: Cesar Greco/Ag Palmeiras/Divulgação.

Jô, o artilheiro corinthiano citado pelo professor Sérgio em seu texto, em minha concepção, também foi heroico ao longo do campeonato e saiu do time como um ídolo. Atacante que retornou ao seu clube de origem desacreditado, Jô mostrou persistência e determinação e foi mais do que fundamental na conquista do título da equipe de Parque São Jorge. Lembrando ainda que Jô marcou um gol na vitória sobre o arquirrival Palmeiras e dois contra o Fluminense, na partida que garantiu o título alvinegro. Vejo como momentos esses heroicos, dentro do campeonato.

O campeonato em pontos corridos é apenas mais uma forma de disputa do futebol. No Brasil, principalmente existem outros campeonatos que suprimem a necessidade do momento heroico, visto principalmente no mata-mata. Temos a Copa do Brasil, os torneios internacionais como a Libertadores e a Copa Sul-americana e até mesmo os tão debatidos estaduais. Conforme o professor Sérgio esses sim seriam torneios que trariam a magia da imprevisibilidade do futebol, da “injustiça” da vitória do grande contra o pequeno. Mas levanto uma lebre aqui: para mim a vitória do pequeno sobre o grande, do não favorito contra o favorita ela não é injusta. Ela é justa, e sim apenas uma zebra. A única injustiça que acho que ocorre no futebol é a injustiça do erro de arbitragem. E essa ocorre tanto em torneios mata-mata quanto em pontos corridos, sendo inclusive mais fatal no primeiro.

E que nos pontos corridos não há imprevisibilidade discordo: ou quem previa que o Corinthians seria o campeão brasileiro de 2017? Quem previa que o Flamengo de 2009 daria a arrancada que deu? Ou que o Palmeiras perderia o título e até mesmo a vaga na Libertadores naquele mesmo ano de 2009. Quem previa que o São Paulo tiraria a vantagem do Grêmio no Brasileirão de 2008?

Concordo com o professor, que sim, certa injustiça e desigualdade começa na divisão da cota de TV que não é repartida de forma igualitária entre os clubes. Acho que assim deveria, ou que se reparta de forma menos desigual. Entendo que alguns clubes dão retorno de investimento de merchandising que outros, mas acho que há muito desigualdade. Desigualdade também no custo de formação dos elencos. Acho que, assim como na Liga Norte Americana de Beisebol (MLB), deveria se instituir um teto salarial entre os clubes do campeonato, e aquele que ultrapassasse o teto (seria um direito), pagaria uma multa a ser repassada aos outros clubes que disputam o campeonato. Mas acredito que isso só pode acontecer se os clubes se juntarem e criarem uma Liga própria.

Acredito que heróis, vilões e ídolos se constroem no futebol, tanto em campeonatos de mata-mata, quanto nos de pontos corridos, tendo ele um ano mais disputado ou menos disputado. Não acho que haja desinteresse maior pelo futebol brasileiro por causa da fórmula de seu campeonato; talvez por sermos meros exportadores de pé de obra, sobrando um baixo nível técnico para o campeonato e por termos clubes exageradamente mal administrados, além das federações, que são o cúmulo do clientelismo e da má administração esportiva em nosso país.

[1] GIGLIO, Sérgio Settani – Pelo fim dos Pontos Corridos in: Ludopédio. Arquibancada. Volume 103.8. https://www.ludopedio.com.br/arquibancada/pelo-fim-dos-pontos-corridos/ – visitado em 13/01/2018.

[2] Veja abaixo o lance que deu a vitória aos Giants: