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Pelas barbas e pela honra de Afonsinho

Fábio Areias

Agosto de 1970. Enquanto o Brasil ainda celebrava o título mundial conquistado dois meses antes no México, um talentoso jogador do Botafogo era impedido de treinar e atuar pelo clube. O motivo? A barba.

Afonso Celso Garcia Reis, o Afonsinho, era um talentoso meia-esquerda. Chegou ao clube da Estrela Solitária com apenas 19 anos em 1966. Aos poucos o menino foi conquistando seu espaço e participou do elenco campeão dos campeonatos estaduais de 1967 e 1968 e da Taça Brasil de 1968. Os últimos títulos antes do amargo jejum botafoguense de 21 anos.

Mesmo de origem humilde, Afonsinho mostrava que sua inteligência e seus interesses iam além de um campo de futebol. Estudante de medicina da UERJ e bem-esclarecido, o atleta fugia do estereótipo de alienação boleiro. Seu universo era mais amplo que o dos dirigentes e, aos poucos, ele começou a contestar os salários e bichos atrasados dentro do clube. Um justo direito, mas malvisto entre os cartolas. Não queriam conversas entre iguais. Jogador não tinha que ter opinião e ponto final.

O castigo

O “inconveniente” Afonsinho, então, recebeu o troco da cartolagem: estava suspenso do Botafogo. Não poderia treinar, jogar e, consequentemente, não receberia. O motivo alegado foi a sua aparência. “De barba e cabelo grande ele não recebe uniforme. O clube tem que se impor. Afinal, quem paga é o clube”, ameaçou Xisto Toniato, vice-presidente de futebol do Botafogo.

“O problema da barba é um pretexto primário. Se não fosse a barba eles alegariam unha grande. Não houve grande atitudes porque cada um é o que é, dentro do seu nível intelectual e social”, atacou Afonsinho em reportagem da revista Placar (ed. 25 – 04/09/1970). O jogador ainda relatou que os dirigentes propuseram um acordo em que ele fizesse dois treinos e um amistoso com a barba e depois a retirasse. Ele recusou. Não era uma questão de barba, cabelo ou bigode, mas sim um conflito maior.

Revista Placar 25 (04/09/1970)

Reprodução da reportagem da Revista Placar 25 (04/09/1970). Foto: Reprodução.

 

Sem ambiente, Afonsinho foi emprestado ao Olaria, clube pequeno e humilde do bairro homônimo destinado a compor seu elenco com jovens ansiosos por uma oportunidade em equipes maiores ou veteranos em fim de carreira. À época com apenas 23 anos, Afonsinho foi enviado de castigo ao time da Rua Bariri. Os suburbanos da região tiveram a breve oportunidade de ver o seu talento. Com barba.

A liberdade

Afonsinho voltou ao Botafogo após o período de empréstimo. Dessa vez para uma batalha ainda mais brutal: entrou no Superior Tribunal de Justiça Esportiva para conquistar o seu próprio passe. Algo sem precedente no futebol brasileiro. O clube era dono do jogador e só negociaria seu “ativo” caso desejasse e pelo valor que quisesse. O atleta ficava à mercê de arbitrariedades ou injustiças.

Em março de 1971, Afonsinho conseguiu seu passe na Justiça e se transformou no “primeiro homem livre do futebol brasileiro”. A corajosa conquista merece um reconhecimento maior por ter sido realizada nos anos de maior repressão de um período de exceção no país.  Para piorar, esporte e Governo Militar andavam de mãos dadas. Os feitos esportivos conquistados eram muitos bem-vindos na máquina de propaganda do Brasil Grande. Obviamente, o barbudo subversivo e rebelde não seria visto com bons olhos.

Foi uma pequena vitória contra os cartolas e sua perversa estrutura do futebol brasileiro. O passe só viria a ser extinto em 1998 com a Lei Pelé. Vinte e sete anos depois de Afonsinho. Mesmo com todas as imperfeições da lei, foi uma enorme conquista para os direitos do jogador de futebol.

Afonsinho foi pelo caminho contrário em um tempo em que se calar ou se resignar era a melhor opção. Se a esperança dança na corda bamba de sombrinha, ele também sabia que o show de cada futebolista tem que continuar.

Afonsinho vestiu a camisa do Santos em 1972. Foto: Reprodução/Facebook/ASSOPHIS.

Bibliografia:

Documentário: PASSE LIVRE. Oswaldo Caldeira. Rio de Janeiro, 1974.

Revista Placar. Edição 25 (04/09/1970) – Reportagem: Onde está a culpa de Afonsinho, p. 34 e 35.