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Percepções do futebol globalizado em relatos biográficos sobre jogadores da Seleção Brasileira

Thiago Gonçalves de Souza, Elcio Loureiro Cornelsen

Introdução – o futebol e as escritas da vida

O futebol, esporte que goza de grande prestígio popular, principalmente no Brasil, é objeto de interesse em diversos campos, desde manifestações artísticas, como apontado no ensaio “Futebol centenário: escolas de samba, carnaval, futebol e memória”, de Maria José Alves da Silva Oliveira, que analisa a apropriação histórica, pelas escolas de Samba do Rio de Janeiro, dos centenários dos clubes de futebol em seus enredos de apresentação no carnaval (OLIVEIRA, 2005, p. 27), a obras que propõem discutir as dinâmicas sociais presentes na sociedade brasileira, como o famoso livro O negro no futebol brasileiro, de Mário Filho. Este aborda e situa a presença de negros durante a primeira metade do século XX no esporte.

Nesse sentido, António da Silva Costa ressalta a relação entre futebol e sociedade: “Podemos, portanto, a partir do futebol, chegar a um maior entendimento da natureza lúdica da sociedade e do próprio homem que nela se realiza enquanto jogador à procura de uma vitória final” (COSTA, 2005, p. 14). Além disso, é importante frisar que o futebol é um fenômeno social, acompanha e exprime as transformações sociais, bem como pode evidenciar um quadro do funcionamento das sociedades (COSTA, 2005, p. 15).

Diante disso, este breve artigo tem como intuito colaborar para o debate em torno do Futebol Brasileiro, por meio de estudo sobre a relação entre imagem e memória do futebol brasileiro no contexto da globalização, analisando obras biográficas de relevantes jogadores brasileiros que atuaram, ou ainda atuam, nesse período. São eles: Romário, Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho e Neymar.

O espaço biográfico e o futebol

Para fundamentação teórica, na busca por uma compreensão das características do gênero biográfico, foram adotadas as obras dos teóricos franceses François Dosse, O desafio biográfico (2015) e, respectivamente Philipe Lejeune, O pacto autobiográfico (2014). Em suma, tal linha de produção literária de cunho memorialístico tem como premissa a escrita de uma vida, seja ela desenvolvida por si, intitulada autobiografia, seja ela exprimida por um terceiro, a biografia.

A autobiografia tem como marca elementar ser, geralmente, escrita pelo próprio protagonista da vida ora narrada. Conforme apontado por Philipe Lejeune¸ professor e ensaísta francês, a autobiografia é uma “narrativa retrospectiva que uma pessoa real faz de sua própria existência, quando focaliza sua história individual, em particular a história de sua personalidade” (LEJEUNE, 2014, p. 16). Em outra passagem, o especialista enfatiza que, para que haja autobiografia, “é preciso que haja relação de identidade entre o autor, o narrador e o personagem” (LEJEUNE, 2014, p. 18). Nesse tipo de abordagem, autor, personagem e narrador se confundem, ou seja, são a mesma pessoa.

Na biografia, narrador e personagem não se confundem. Os principais elementos presentes em uma biografia são o biógrafo, sujeito responsável pela pesquisa e desenvolvimento da escrita, e o biografado, aquele que terá a história de sua vida como objeto da pesquisa do biógrafo, de acordo com François Dosse, historiador e sociólogo francês especialista em História dos Intelectuais, como pode ser observado no trecho a seguir: “o biógrafo expõe em geral seu ‘eu’, o percurso que ensejou o encontro com o sujeito biografado, a relação pessoal entre ambos” (DOSSE, 2015, p. 100).

O gênero biográfico tem um caráter híbrido, impuro, ao mesmo tempo em que lida com a necessidade da reprodução de uma experiência passada, lida também com as influências, intuições e imaginação daquele que o desenvolve, o biógrafo. Há tanto espaço para aquilo que é fato, quanto para aquilo que é ficcional. Tanto admite uma influência histórica, quanto aceita uma autonomia literária. Tal liame é muito bem problematizado por Dosse:

Discurso moral de aprendizado das virtudes, a biografia se tornou, com o passar do tempo, um discurso de autenticidade, remetendo à intenção de verdade por parte do biógrafo. Entretanto, permaneceu a tensão entre essa ânsia de verdade e uma narração que deve passar pela ficção e que situa a biografia num ponto médio entre ficção e realidade histórica (DOSSE, 2015, p. 12).

Desta introdução, acerca da biografia, cabe esclarecer que as obras objeto deste estudo, apesar de possuírem elementos do gênero, não são biografias stricto sensu, pois são relatos biográficos de personalidades ainda vivas e em plena atividade. Ora, aqui se encontra, talvez, a maior particularidade desses livros. Na biografia clássica, o hábito é biografar a vida de uma pessoa falecida.

Outro ponto importante em relação à biografia, como destaca Dosse, “fazer justiça a certas figuras que a história oficial esqueceu ou depreciou é uma razão de peso para os biógrafos” (DOSSE, 2015, p. 76). Ou seja, o incentivo dos adeptos ao gênero biográfico, em uma análise geral, está ligado a um regaste histórico no intuito de difundir outra perspectiva da trajetória do sujeito biografado. Daqui, depreende-se outra diferença da biografia clássica em relação aos textos explorados neste estudo, pois os biógrafos aderem há uma nova transformação do gênero biográfico a partir da década de 1980. Dosse pontua muito bem:

Hoje, o que se exprime com essa nova paixão biográfica não é a figura do mesmo, a da Historia magistrae vitae, do culto da vida exemplar, mas uma nova preocupação pelo estudo da singularidade e uma atenção particular aos fenômenos emergentes que são considerados como objetos próprios a pensar graças à sua complexidade e à impossibilidade de reduzi-los a mecânicos (DOSSE, 2015, p. 406).

Assim, as biografias aqui estudadas narram sobre personalidades ligadas ao contexto ora emergente, em que elas são muito mais reconhecidas por uma ideia de celebridade, entretenimento, publicidade, num plano da midiatização em massa, do que relacionadas a um papel histórico relevante. Ora, outro ponto desse novo papel do gênero biográfico é a sua adesão por parte de profissionais de outras áreas. Com relação às obras, às quais este estudo se dedica, todas foram escritas por jornalistas. Ou seja, evidencia-se uma expansão do gênero para além do âmbito da História.

Além disso, nas obras biográficas estudadas percebem-se elementos tanto autobiográficos, quanto biográficos em suas composições. Uma característica em comum observada na capa de cada livro analisado, em todas há a presença de uma foto do protagonista da história narrada, bem como o registro de seu nome. Tal modo de representação estabelece um forte vínculo entre o sujeito biografado e o texto escrito propriamente dito, pressupondo, para o leitor, uma leitura verídica nos escritos. Desse modo, essa escolha por ligar a capa ao texto escrito tem como objetivo conferir identidade entre o personagem e o texto narrado, “a partir de um contrato de um pacto de veracidade que remete ao contrato tácito posto em evidência por Philipe Lejeune a propósito da autobiografia” (DOSSE, 2015, p. 59).

Em Romário, de Marcus de Moraes, jornalista responsável pela obra, por exemplo, há uma mescla entre biografia e autobiografia. Como elementos do primeiro tipo textual aqui citado, o autor dedica atenção ao ambiente de convívio social do biografado e colhe depoimentos de familiares, amigos, jornalistas e companheiros de profissão do atleta. Em relação ao gênero autobiográfico, o autor dedicou um espaço especial para que o próprio sujeito objeto do livro expusesse sua percepção em relação a sua trajetória, promovendo um autorretrato inserido no livro, ou seja, um relato autobiográfico dentro de uma biografia.

Já a obra Ronaldo: glória e drama no futebol globalizado, do sociólogo, jornalista e doutor em Ciências Políticas Jorge Caldeira, representa o gênero biográfico propriamente dito. No posfácio do livro, o autor expõe a relação que tinha com o sujeito biografado, a qual consiste unicamente em ser um torcedor apaixonado pelo futebol, e as motivações que o levaram ao desenvolvimento da obra. No final do livro, Jorge Caldeira o encerra manifestando o seu desejo de tornar seus escritos em algo duradouro em meio a tantas informações produzidas frente ao futebol. Além disso, percebe-se a adoção de um padrão na escrita, com alinhamento justificado e padronizado das letras, com a presença de referências bibliográficas ao final do livro, o que sugere uma obra balizada por padrões e métodos acadêmicos. Inclusive, o próprio autor deixa pistas disso ao indicar, no posfácio, o seguinte termo: “meu material de pesquisa” (CALDEIRA, 2002, p. 315).

Ronaldo em sua despedida do futebol. Foto: Rodrigo Correia/Mowa Press.

Por sua vez, o livro O sorriso do futebol: Ronaldinho, o último romântico, do prestigiado jornalista Italiano Luca Caioli, é uma obra biográfica que une elementos de história, ao apresentar a trajetória de vida do sujeito biografado, com recursos do campo jornalístico, ao registrar entrevistas com técnicos e jornalistas esportivos a respeito do protagonista da narrativa. Tal característica reforça a tese de François Dosse ao defender que a biografia possui uma natureza híbrida entre jornalismo e história, “mas também a fecundidade de um bom equilíbrio entre esses dois métodos de investigação” (DOSSE, 2015, p. 122), o que vem a beneficiar o valor simbólico dessa escrita.

No quarto livro que formou o corpus de análise do estudo, O planeta Neymar (um perfil), escrito pelo jornalista Paulo Vinícius Coelho, apesar de possuir recursos comuns à biografia, biógrafo e uma pessoa biografada, não se caracteriza como uma produção biográfica stricto sensu, inclusive isto é bem apontado na orelha da capa da obra impressa, pois “ainda seria muito cedo para tanto. Este livro é um retrato, um perfil do jogador” (COELHO, 2014). De qualquer forma, tais escritos contribuem de maneira significativa para o debate proposto, além de enriquecer o arcabouço memorialístico do futebol brasileiro.

Nessa perspectiva, a escolha por obras pertencentes ao gênero biográfico vem ao encontro do debate proposto: compreender as dinâmicas do futebol brasileiro no contexto globalizado. Pois tais obras são estudos e esforços que possibilitam realizar uma análise acerca das colocações e deslocamentos no espaço social do contexto em enfoque, uma característica do gênero biográfico, bem afirmado por Joanny Moulin:

Uma biografia, quando vale a pena, é exatamente isso: o estudo, o esforço para entender ‘as colocações e deslocamentos no espaço social’, ‘os vários estados sucessivos da estrutura da distribuição das diferentes espécies de capital que são em jogo no campo em consideração’. (MOULIN, 2015, p. 8 – tradução livre).[1]

O futebol, do amadorismo à consolidação como fenômeno de massa

A compreensão e as características do futebol, tal qual o conhecemos o hoje, tem seu ponto de partida na Inglaterra do século XIX, no ceio dos desdobramentos da Revolução Industrial (FRANCO JUNIOR, 2007, p. 20). Naquele momento histórico, o predomínio político, econômico e cultural britânico se fez presente, de modo que a corrente “cristianismo atlético” serviu de caminho para conquista e solidez dessa hegemonia (FRANCO JUNIOR, 2007, p. 26). Para seguidores desse pensamento, a prática de qualquer esporte contribuía, positivamente, para a saúde corporal, a questão espiritual e intelectual do indivíduo (FRANCO JUNIOR, 2007, p. 27). Diante dessa crença, o futebol foi usado como instrumento de dominação política. De acordo com o historiador Hilário Franco Júnior, “em 1864, o jornal londrino ‘The Field’ definia-o como preparação para futuros governantes do país. O futebol moderno nasceu como instrumento do darwinismo social” (FRANCO JUNIOR, 2007, p. 27). Percebe-se, desde os seus primórdios, a influência do esporte em questões políticas.

A partir de seu nascedouro, a literatura especializada compreende a expansão mundial do futebol dividida em três fases: “uma primeira de difusão, uma segunda de internacionalização das competições e uma terceira em que passa a estar de mãos dadas com a televisão” (BARRINHA; NUNES, 2009, p. 127).

Na primeira onda, temos a exportação do esporte aos demais países do globo. No Brasil, isso se deu por meio de estudantes, pertencentes a classes abastadas, que realizaram intercâmbio na Europa, principalmente na Inglaterra, e trouxeram a prática para o país, nos anos finais do século XIX. Inaugurou-se um período em que a cultura amadora predominava, marcada pela simplicidade infraestrutural dos locais físicos das partidas, elementos muito prestigiados pela elite praticante. A partir dos primeiros anos do século XX, com vistas ao grande poder popularizador do futebol, a prática esportiva ganhou, progressivamente, adeptos nas camadas populares. Com os novos rumos, houve também os primeiros lampejos de profissionalização do esporte:

[…] a primeira década do século XX terminaria ainda dividida entre o amadorismo e o profissionalismo, entre o caráter elitista e popular do futebol e entre a alvura dos seus jogadores e a introdução do elemento negro, que mudaria drasticamente o cenário do esporte no Brasil (GUTERMAN, 2009, p. 40).

Tais tensões, no decorrer do período de 1910 a 1920, culminariam na popularização do esporte ao ser adotado pelas classes populares, inclusive com o surgimento de clubes influenciados por essas camadas, como Bangu, Corinthians e Vasco, compostos por operários das fábricas ou por funcionários subalternos de comércios; no protagonismo negro no esporte, sendo Arthur Friedenreich considerado o primeiro craque brasileiro, autor do gol que deu ao Brasil o primeiro título internacional em 1919, no Campeonato Sul-Americano disputado no país; além da consolidação do profissionalismo em detrimento do amadorismo.

Arthur Friedenreich.

Nessa esteira, já se podia perceber uma transição à segunda fase do esporte, com a realização da primeira Copa do Mundo em 1930, no Uruguai. Tal evento evidenciou a tendência do futebol a se profissionalizar e se modernizar, e o decorrente despertar da disputa entre identidades. É nesse período que estados autoritários nacionalistas se utilizaram do esporte como ferramenta de promoção de seus governos. Na Itália de Mussolini, “a onipresença desse esporte era a chave fascista para criar a sensação de unidade necessária para os projetos do regime e para a ideia da formação do ‘novo homem’” (GUTERMAN, 2009, p. 80). Concomitante a isso, no Brasil, com a ascensão de Getúlio Vargas à Presidência da República, o esporte era essencial para a transformação do brasileiro e também para superação das diferenças políticas. Por conta disso, as ações do Presidente aceleraram o processo de profissionalização futebolística no país, pois a recompensa financeira atraía apoio dos atletas e das classes pobres. O esporte serviu de política pública para controlar as massas, um método para alcance desse objetivo foram os comícios, entre 1934 e 1945, em São Januário, Estádio do Vasco, onde Vargas anunciou a concessão de medidas em favor dos trabalhadores: “O esporte era visto como um veículo das aspirações nacionais e do perfil do brasileiro” (GUTERMAN, 2009, p. 81). É nesse contexto que surge a força do rádio em transmissões de partidas, o que, além de ampliar o alcance do esporte, serviu muito bem aos anseios do governo.

Até 1938 foram realizadas três Copas do Mundo, duas conquistadas pela Itália e uma, pelo Uruguai. Entretanto, em função das tensões provocadas pela Segunda Guerra Mundial, houve uma pausa de 11 anos do evento, e em 1950 o Brasil teve a oportunidade de sediar o primeiro campeonato pós-guerra, vivenciando um dos seus maiores dramas no esporte ao ser vice-campeão frente à seleção do Uruguai, a Celeste Olímpica, no episódio que entraria para a história como o Maracanazo.

Essa retomada do futebol no pós-guerra inaugura a internacionalização do esporte, como apontam Barrinha & Nunes: “o primeiro Campeonato do Mundo após a II Guerra Mundial, realizado no Brasil em 1950 entre selecções qualificadas por jogos de apuramento em vários continentes, lança em definitivo o futebol para a esfera das relações internacionais” (BARRINHA; NUNES, 2004, p. 128). E é nesse período que o Brasil se consolidou como potência no cenário esportivo mundial, como bem destacou Franco Junior:

O bicampeonato em 1962 no Chile, assim como a dupla conquista da Taça Libertadores da América e do Mundial Interclubes por parte do Santos FC em 1962 e 1963, ratificou a avaliação de que o Brasil tinha o melhor futebol do mundo. O clima de euforia política e futebolística alimentava o otimismo com relação aos destinos do país (FRANCO JUNIOR, 2007, p. 135).

Entretanto, o bom momento futebolístico e político não impediu que o país mergulhasse novamente no autoritarismo. A partir de março de 1964 a ditadura militar estava instaurada no país. E não diferindo do estado ditatorial de Getúlio Vargas e das democracias populistas, o futebol também foi instrumento político de promoção e manutenção do regime. “Para o regime militar, a exposição da seleção dentro e fora do Brasil também era interessante para passar a imagem de normalidade política e para desviar o foco das oposições” (FRANCO JUNIOR, 2007, p. 140).

Em paralelo, a mentalidade liberal e mercantil iniciou o processo de tornar o futebol um negócio internacional. Nesse período, na Inglaterra, foram importadas práticas de transmissões das partidas do futebol americano que proporcionaram aos clubes ingleses aumentarem, significativamente, “o valor dos direitos que recebem pelas transmissões desportivas 139 vezes” (BARRINHA; NUNES, 2004, p. 129). Inclusive, como reflexo dessa nova tendência, nas décadas finais do século XX o futebol ingressa na 3ª fase indicada por Barrinha e Nunes.

E é nessa 3ª fase que o fenômeno da globalização impulsiona o mercado futebolístico, e é também nesse contexto que Romário, Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho e Neymar, figuras objeto de análise deste projeto, estão inseridas.

O futebol globalizado

Segundo Jayme Valente, a globalização “equivale a um conjunto de transformações – que tem ocorrido no mundo, nos últimos anos – na ordem econômica, política, social, tecnológica, cultural, religiosa e educativa” (VALENTE, 2005, p. 43), em meio ao processo de liberalização das comunicações, em especial no âmbito televisivo: “o acordo sobre liberalização das comunicações selado na Organização Mundial do Comércio em 1997 constitui um marco de uma transformação que tem tanto de técnico como de político” (BARRINHA; NUNES, 2004, p. 137). Assim, a globalização, aliada aos avanços tecnológicos, permitiu a superação das barreiras fronteiriças entre países, desembocando num processo de desterritorialização em escala global e potencializando a promoção de um mercado consumidor mundializado, conforme debatido por Gilmar Francisco Afonso e Wanderley Marchi Júnior:

A globalização promove uma desterritorialização, o que resulta em uma espécie de abstrato. Se o espaço, considerado uma categoria social no qual ocorrem as relações, está agora deslocado, perde sua referência e não pode mais existir em termos demarcatórios. Assim, esse vazio é preenchido com a presença de objetos mundializados (AFONSO; MARCHI JÚNIOR, 2007 p. 140).

Com tais mudanças, o futebol se vê implicado e totalmente envolvido nessa nova lógica. Aqui, se percebe a consolidação do esporte como entretenimento de massa, como um produto mundializado a ser consumido.

Verifica-se a transformação de clubes de futebol em marcas com grande impulsão mercadológica a nível mundial, um poder extraordinário de comercializar produtos e exposição midiática. Ou seja, as agremiações foram capazes de se globalizarem. Em decorrência disso, percebe-se também certo “colonialismo” dessas equipes em países periféricos, enfraquecendo as equipes locais e impondo certa padronização das torcidas. Paulo Bach, Leonardo de Melo, Ailton de Oliveira e Antonio Jorge Soares discutem muito bem tal processo:

Estamos diante de um paradoxo: se por um lado a globalização possibilitou a comunicação sem fronteiras, a hipermercantilização e a espetacularização do futebol, aumentando fluxos fronteiriços, diminuindo o espaço/tempo e construindo culturas transnacionais; por outro lado, utilizam os elementos simbólicos nacionais e de pertencimento local para vender seus produtos e fortalecer suas marcas (BACH; MELO; OLIVEIRA; SOARES, 2007, p. 79).

Em decorrência disso, é nesse período que se assiste o aprofundamento das desigualdades entre clubes ricos e pobres, a Europa se consolida como principal conglomerado econômico do esporte, concentrando os principais clubes e melhores jogadores do planeta. Em virtude disso, “os países futebolisticamente periféricos vêem partir os seus melhores jogadores e são ’invadidos‘ pelos clubes globais através da televisão” (BARRINHA; NUNES, 2004, p. 132). Inclusive, dentre os jogadores aqui analisados, todos atuaram ou ainda atuam em grandes times europeus.

Em virtude disso, outra transformação provocada pela globalização do esporte é o novo posto que os jogadores de alto rendimento passam a ocupar: tornam-se, pois, estrelas desse entretenimento global. Com o novo alcance conquistado pelos clubes, os atletas também são globalizados. Há, além dos resultados em campo, uma maior preocupação e dedicação externa às quatro linhas, a imagem do futebolista é algo tão importante quanto a conquista de títulos e troféus. Assim, se percebe cada vez mais esses corpos em campanhas publicitárias.

Nessa tendência, “as empresas de equipamento desportivo viram crescer exponencialmente os seus lucros associando-se à imagem de atletas e equipas famosos, cujos proventos económicos cresceram na proporção” (BARRINHA; NUNES, 2004, p. 136). Assim, com variações, todos os jogadores brasileiros enfocados neste estudo são impactados nessa nova lógica.

Além desse fato em comum, tais esportistas colecionaram ou ainda colecionam passagens pela Seleção Brasileira, sendo que 3 (três) deles conquistaram a Copa do Mundo. Entretanto, a história de cada um possui as suas implicações e peculiaridades frente ao contexto compartilhado, pois a globalização ainda é um processo recente e em rápidas transformações. Se, com Romário, o atleta de mais idade dentre os quatro, se percebia o início da sua influência dentro do esporte, em Neymar, o mais novo, os elementos do futebol globalizado possuem um aprofundamento muito mais sensível quando observados.

Romário e a globalização do futebol no final dos anos 1980 e início dos anos 1990

Começando pelo jogador de mais idade, Romário de Souza Faria, carioca, conhecido pela forte personalidade, polêmico, campeão do mundo em 1994, se destacou pela impressionante marca dos 1.000 gols. Iniciou sua carreira no time amador do Clube de Regatas Vasco da Gama, em 1983, aos 17 anos. Após brilhar com a camisa cruz maltina, aos 21 anos, se transferiu para o PSV da Holanda. Ou seja, percebe-se aqui uma marca registrada da globalização: a evasão de jogadores, jovens, dos espaços periféricos que se deslocam para o principal mercado futebolístico. Conforme declarado pelo próprio Romário, a sua inserção no novo país e no novo time não foi algo fácil. Nas palavras do jogador: “a língua diferente, pessoas diferentes e futebol diferente tornaram tudo muito difícil” (MORAES, 2009, p. 14). Tal dificuldade tem como causa certa incapacidade na formação brasileira desses jovens exportados ao velho continente, como bem apontado por Miguel Archanjo de Freitas Júnior:

Uma das dificuldades encontradas pelos jogadores que visualizavam a transferência para a Europa como uma oportunidade para alcançar a estabilidade financeira, era a falta de preparação do jogador de futebol brasileiro, que normalmente era deficitária do ponto de vista cultural, higiênico, psicológico (FREITAS JÚNIOR, 2007, p. 231).

Em 1993, foi contratado para atuar pelo Barcelona, um dos principais clubes da Europa. Nesse período, Romário lampeja os primeiros sinais de como seria um jogador alvo do entretenimento global, conforme afirmou Zagalo em depoimento concedido ao biógrafo do jogador, Marcus de Moraes: “Na Espanha […] era tão assediado que um dia foi preciso chamar os seguranças para protegê-lo. Os torcedores, além do autógrafo, queriam tocá-lo” (MORAES, 2009, p. 64). Em 1995, Romário volta a atuar no Brasil e encerrou sua carreira no Vasco da Gama, em 2007, após o alcance da impressionante marca do milésimo gol.

Romário na reedição da final da Copa de 1994. Foto: Lucas Figueiredo/CBF.

Cabe destacar que, em Romário, há pouca reflexão sobre o mundo globalizado e os seus impactos na carreira do atleta. Entretanto, diferente das outras obras aqui analisadas, a temática do início da carreira profissional do craque é tratada com maior profundidade. Há uma intensa valorização da trajetória do atleta, principalmente pela origem familiar tão humilde. Isso é notório nas páginas destinadas ao depoimento do amigo e jogador Ricardo Rocha, pois este declara que sua afinidade com Romário teria muita proximidade com a história de sofrimento e superação de cada um, o próprio título dessa parte deixa bem claro isso: “irmãos de luta em campo” (MORAES, 2009, p. 137).

Por fim, nesse livro, composto por vários relatos memorialísticos de amigos, familiares, colegas de profissão, entre outras figuras, percebe-se uma demonstração de carinho, orgulho e muita admiração pelo sujeito objeto desses escritos. São sentimentos expressados por pontos de vistas diferentes, nos depoimentos de familiares, percebe-se a presença de adjetivos mais paternais, com um cunho mais acolhedor, diferente dos amigos, os quais atribuem a ele palavras mais descontraídas, como “peixe”.

Ronaldo e a globalização do futebol na virada do milênio

Ronaldo Luís Nazário de Lima, nascido em 18 de setembro de 1976, na cidade do Rio de Janeiro, campeão Mundial pelo Brasil em 1994 e 2002, foi eleito três vezes o melhor do mundo pela FIFA: em 1996, 1997 e 2002. Oriundo de uma família modesta, do Bairro de Bento Ribeiro, no subúrbio do Rio, foi educado à luz de valores “profundamente marcados pela ideia de que a vida era uma luta dura” (CALDEIRA, 2002, p. 288). Com desempenho escolar tímido, desde os sete anos já se destacava nas peladas de bairro, aos 13 anos decidiu que seria jogador profissional de futebol, tentou ingresso no time do Flamengo, mas o destino o quis no time do São Cristóvão: “no dia 12 de agosto de 1990 […], um menino de subúrbio jogando no juvenil de um time secundário se transformou num jogador profissional de futebol prontamente inusitado” (CALDEIRA, 2002, p. 52), era o início de uma destacada e vitoriosa carreira.

Com uma personalidade marcada pela economia nas palavras e muita efetividade dentro do campo, Ronaldo não demorou muito para atrair olhares de pessoas dispostas a investirem. Assim,

[n]o dia 7 de junho de 1992, Ronaldo atrelou seu destino ao de dois empresários. Não era um caminho comum, num país onde o futebol era organizado num imenso coronelato. Seria uma relação capitalista expressa, no lugar onde os clubes não tinham fins lucrativos. Seria um trabalho direto, num mundo dirigido por intermediários (CALDEIRA, 2002, p. 67).

Conclui-se que, antes mesmo de se tornar um jogador profissional, Ronaldo já tinha a sua imagem negociada a padrões internacionais, diferente de Romário, “que jamais pensou em negociar sua imagem” (CALDEIRA, 2002, p. 96). Ou seja, Ronaldo já caminhava numa direção de planejamento de imagem e carreira, tendência típica do contexto globalizado. E como fruto dessa nova parceria, no início de 1993, Ronaldo foi contratado pelo primeiro grande clube de sua carreira: o Cruzeiro Esporte Clube, de Belo Horizonte. Inicialmente integrado para atuar ao lado de companheiros de mesma idade, após excelente desempenho na sua modalidade, “Ronaldo estreou no futebol profissional com 16 anos e oito meses de idade, depois de 83 dias de Cruzeiro. Tudo na vida de Ronaldo iria adquirir um ritmo alucinante” (CALDEIRA, 2002, p. 78). 

Tal fato evidencia a eficiência do atleta dentro de campo. E no Cruzeiro, os sinais do contexto globalizado se fizeram presentes: “no mundo globalizado, uma promessa futebolística passava a ser analisada praticamente desde o dia em que surgia” (CALDEIRA, 2002, p. 92). Não demorou em Ronaldo se tornar o xodó da imprensa e atravessar as barreiras fronteiriças.

Após ser campeão mundial pelo Brasil em 1994, mesmo que tenha permanecido durante a competição no banco de reserva, o jovem craque promissor assinou contrato com o PSV Eindhoven, clube holandês, decisão estrategicamente analisada e escolhida, a ideia era ganhar experiência na Europa, se adaptar ao novo contexto cultural e já negociar o seu passe para um clube global, no caso, o Barcelona da Espanha.

Acompanhava uma tendência do novo cenário: “a troca de clubes ocorre em ritmo acelerado, segundo a própria lógica capitalista de circulação de mercadorias” (FRANCO JUNIOR, 2007, p. 184). Além disso, Ronaldo deixava o futebol brasileiro aos dezessete anos de idade, quatro anos mais novo em relação à primeira transferência internacional de Romário, sinalizando a tendente evasão, cada vez mais precoce, de jovens jogadores. Também, durante a Copa de 1994, Ronaldo firmou seu primeiro contrato de imagem com uma fornecedora de artigos esportivos, a Nike.

E foi nessa esteira que, em 1996, Ronaldo fechou um contrato milionário com o Barcelona. Além de atuar no campo pelo clube, ambos firmaram um acordo em que jogador e agremiação seriam parceiros em demais negócios, como a venda de camisas. Após o anúncio dessa informação pelo clube espanhol, mais de 10 mil camisas foram vendidas e 3 mil novos sócios foram integrados à base do clube catalão. Como resultado disso, 54% do faturamento na loja do Barcelona foi de produtos ligados ao centroavante. Segundo o biógrafo de Ronaldo,

[o]s analistas econômicos dos concorrentes somaram este número ao dos ingressos para toda a temporada vendidos, e chegaram rapidamente a uma conclusão: um jogador como Ronaldo não era fonte de despesas, mas antes de lucro. Ele gerava receitas suficientes não apenas para fazer entrar algum nos cofres (CALDEIRA, 2002, p. 143).

Conclui-se disso que as duas partes do negócio puderam usufruir dos lucros proporcionados pela globalização do esporte, comprovando a defesa de Barrinha e Nunes: “Nos anos 1990, com o alcance global da televisão, o futebolista passa a ser uma estrela de entretenimento global. […] Se um clube é uma marca reconhecida em todo o mundo, os jogadores são ‘activos’ fundamentais” (BARRINHA; NUNES, 2004, p. 133). Ambos são beneficiados pela nova lógica mercadológica imposta.

E Ronaldo não parou por aí; paralelo a isso, acertou com a Nike o melhor contrato de imagem de todo o ambiente do futebol, o qual garantia o rendimento mínimo de 1,5 milhões de dólares anuais, enquanto perdurasse sua carreira, acrescidos de 10 anos. À luz disso, Jorge Caldeira afirma que, “até aquele dia, o Brasil tinha produzido alguns dos melhores jogadores de futebol do planeta. Mas jamais tinha permitido que um deles se tornasse não apenas o homem a ser um modelo em campo, mas também fora dele” (CALDEIRA, 2002, p. 147). Por analogia ao basquete americano, Ronaldo se tornou o primeiro Michael Jordan Brasileiro.

Após curto e lucrativo período no Barcelona, em 1997, Ronaldo se transferiu para a Internazionale de Milão, da Itália, promovido ao posto de jogador de futebol com o melhor salário do mundo: “Além de jogar futebol, Ronaldo era uma corporação com negócios em forte expansão, que exigiam bastante de sua atenção” (CALDEIRA, 2002, p. 166). A dupla rotina em ser jogador de futebol, treinar e atuar, e as atividades sociais e comerciais lhe proporcionaram apenas cinco dias de férias em 1997.

Mas, por ocupar o posto de jogador mais assediado do planeta, grandes responsabilidades foram imputadas ao jovem brasileiro. Em se tratando de um contexto globalizado, no qual a liberalização em massa da circulação das informações é a regra, as proporções de uma pisada errada na bola são bem maiores. Desapontar a imprensa nesse cenário é a receita para exposição das suas vulnerabilidades.

Esse foi o reflexo quando Ronaldo assumiu a culpa pela perda da final da Copa do Mundo de 1998, mergulhando num longo período de contusões e más atuações: “No futebol globalizado era assim: o interesse do curto prazo muitas vezes supera o de longo prazo. Esta imensa disputa se refletia diretamente no corpo do jogador” (CALDEIRA, 2002, p. 251). Tal momento só foi superado em 2002, com a conquista da Copa do Mundo pela Seleção Brasileira e sua conquista pessoal, sendo eleito o melhor jogador do mundo.

Ronaldo destaca-se não apenas pela efetividade dentro do campo, mas também por perceber os bons e lucrativos caminhos os quais seu tempo lhe oportunizou, soube entender o jogo dentro das quatro linhas e o jogo do mercado, como bem sinaliza Jorge Caldeira:

Ronaldo tornou-se o jogador mais valorizado do mundo porque entendia não apenas a linguagem da bola, mas também esta linguagem de números. […] Colocou para si mesmo um desafio até então reservado apenas aos esportistas profissionais dos Estados Unidos: fazer coincidir a melhor avaliação técnica com os melhores resultados financeiros (CALDEIRA, 2002, p. 156).

Pintura de Antonio Guijarro Morales, representando El Clásico, com as imagens de Ronaldo Fenômeno, pelo Real Madrid e Ronaldinho Gaúcho, pelo Barcelona. Foto: Wikipédia.

Ronaldinho Gaúcho e a globalização do futebol na primeira década do novo milênio

Ronaldo de Assis Moreira, conhecido popularmente por Ronaldinho Gaúcho, é natural do estado do Rio Grande do Sul, oriundo de uma família modesta. O incentivo ao esporte veio do próprio ceio familiar, o pai adorava futebol e o irmão foi jogador profissional. Gaúcho foi um meio campista habilidoso, famoso pelo sorriso e pela magia do que era capaz de realizar com a bola. Foi eleito como melhor do jogador do mundo pela FIFA nas temporadas de 2004 e 2005.

Aos 10 anos de idade já encantava jogando nos times do bairro.

Em 1997, após brilhar na conquista do Mundial Sub-17, atuando pela Seleção Brasileira, firmou seu primeiro contrato como jogador profissional no Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense. Tal título lhe rendeu exposição suficiente para entrar na mira do principal mercado futebolístico: como aponta Luca Caioli, biógrafo do atleta, “passados poucos meses, o PSV Eindhoven, que sempre teve muito faro para as promessas do futebol brasileiro (lembrem-se de Romário e de Ronaldo), oferece 7 milhões de euros. Oferta Recusada. É a primeira de uma série” (CAIOLI, 2006, p. 69). Tal fato confirma uma tendência já visualizada em Ronaldo: uma grande aposta no futebol entra no radar dos principais atores do mercado futebolístico.

Aos 19 anos, Ronaldinho Gaúcho estreou no time principal da Seleção Brasileira, sendo responsável por um fenomenal gol contra a seleção da Venezuela, em uma partida da Copa América de 1999, o qual o notabilizou de vez no futebol globalizado:

No dia seguinte, só se fala do jovem número 21 e daquele gol. É visto e revisto. É transmitido pela ESPN, a rede de tevê americana; passa a fazer parte do Play of the week, ao lado dos momentos mais bonitos do esporte no mundo inteiro e convence a Nike a melhorar substancialmente o contrato com o jovem prodígio. Imagine perdê-lo justamente agora! Jornais, rádios, televisões, todos perseguem o novo fenômeno. Querem saber tudo sobre ele, querem contar a sua história nos mínimos detalhes. E tem mais: a Rede Globo compara o gol ao que foi marcado na Suécia, na Copa de 1958, contra o País de Gales, por outro estreante. O seu nome era Pelé (CAIOLI, 2006, p. 74).

Não demorou muito tempo para o craque ser a mais nova estrela do entretenimento nacional, após disputar a Copa das Confederações de 1999,

a prova é dada por uma rede de televisão gaúcha. Só algumas semanas depois do retorno do México o levam a um Shopping Center de Porto Alegre, querem ver em quanto tempo ele será reconhecido. Bastam 7 segundos exatos e o primeiro menino lhe pede um autógrafo. Depois chega uma avalanche, e só depois de mais de meia hora o número 21 da Seleção consegue se desvencilhar da sela de mãos e braços que o cercam. É a nova emoção num país de 161 milhões de habitantes (CAIOLI, 2006, p. 76).

Aliado a isso, como aconteceu com Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho foi atraído também pelas grandes marcas:

É um erro estratégico não investir imediatamente na estrela que está nascendo. A Pepsi Cola entende isso logo e oferece um contrato milionário que faz dele a imagem da marca no Brasil. Na televisão e nos outdoors, e até nas garrafinhas, o garoto de Porto Alegre aparece sempre festejando após mais um gol (CAIOLI, 2006, p. 77).

Concomitantes a isso, começaram as investidas dos clubes globais em busca do meio campista: “O Real Madrid 32 milhões, o Inter de Milão 47 milhões, o Barcelona 67, o Leed aposta 81, tentam (pelo menos assim se insinua) também o Milan e o Borussia Dortmund” (CAIOLI, 2006, p. 77). Todas essas propostas foram recusadas pelo presidente do Grêmio, José Guerreiro, pois, para a agremiação brasileira, naquele momento, era importante manter o jogador por conta do alto potencial de receita que ele proporcionava ao clube: “a partir de 1º de janeiro de 2000, a ISL, empresa suíça especializada em marketing esportivo, investe no Grêmio nada menos do que 35 milhões de euros” (CAIOLI, 2006, p. 77).

Fator que serviu de embasamento, pelo empresário de Ronaldinho, o seu irmão Assis, para renegociar suas cifras junto ao Grêmio, obtendo resposta negativa da diretoria tricolor, fato revelador do amadorismo ainda presente na gestão dos clubes brasileiros, como apontou José Carlos Mosko: “há conflitos entre as ideias do futebol-empresa e do modelo adotado durante quase todo o século XX no esporte nacional, que mescla ações profissionais com características amadoras” (MOSKO, 2007, p. 84).

O sorriso do Ronaldinho. Foto: Bruno Domingos/Mowa Press.

Em virtude disso, não demorou muito para a insatisfação do jovem jogador e de seu empresário tomarem conta: “No dia 22 de dezembro, em segredo, Ronaldinho assina um pré-contrato de cinco temporadas com o Paris St. German. É o início de uma guerra legal sem precedentes” (CAIOLI, 2006, p. 80). Estima-se que foi acordado um astronômico salário de 250 mil euros mensais, além de um prêmio de um milhão e meio no ato da assinatura.

Importante destacar que, assim como Ronaldo, o clube francês foi escolhido a dedo, era uma oportunidade de ingresso num novo mundo, com a possibilidade de adaptação e acúmulo de experiência para atuar em um forte clube global. Após oito meses em batalha judicial com o Grêmio, e repasse de 4,79 milhões pelo time francês, Ronaldinho Gaúcho pôde iniciar a carreira profissional no velho mundo.

Antes mesmo de obter o direito de atuar em campo pelo PSG, o jogador já gozava de grande prestígio entre os franceses. Meses antes da confirmação como atleta do PSG, “pousa no aeroporto de Roissy-Charles-de-Gaulle, em Paris. Uma multidão de jornalistas, fotógrafos e torcedores recebem o novo star” (CAIOLI, 2006, p. 86).

Havia grandes esperanças de que as suas magias dentro de campo pudessem fortalecer a agremiação francesa, tanto como equipe futebolística, quanto em termos de impacto na mídia mundial. E é nesse pensamento corporativista, assim como Ronaldo, que o direito de imagem de Ronaldinho é algo precioso e muito bem tratado pelo novo clube: “passam para uma sociedade criada de propósito: a Foot Brothers, que os cede a Sport +, filial do Canal +, sociedade que controla o PSG” (CAIOLI, 2006, p. 91). Ou seja, há aqui uma forte combinação entre mídia, clube e jogador, receita ideal para atração de cifras e consolidação de ambos os sujeitos perante o futebol globalizado. Entretanto, apesar de todo o investimento e expectativa, em campo, Ronaldinho não rendeu o esperado.

A conquista da Copa do Mundo de 2002, pela seleção, após novamente encantar o planeta, principalmente quando marcou um golaço contra a Inglaterra nas quartas de final, as esperanças dos franceses são reaquecidas. E, mais uma vez, o jovem de 22 anos se fortalece como estrela do entretenimento global:

Bernard Delanoe, prefeito de Paris, em 21 de julho de 2002, chega ao aeroporto de Roissy-Charles-de-Gaulle. Está ali, junto com uma multidão em festa, para receber o campeão do mundo. Coloca uma medalha no peito dele – a Vermeille de Ia Ville –, diz que é uma grande honra para a cidade que um seu filho adotivo tenha conquistado um título tão prestigioso e espera que ele possa enaltecer também as cores do time em que joga, etc., etc. Discursos oficiais no meio das comemorações regadas, como geralmente o são, por samba, Ronaldinho agradece e declara aos meios de comunicação que nesta temporada quer conquistar um título com o PSG, etc., etc. As clássicas declarações de início de campeonato para deixar todos felizes (CAIOLI, 2006, p. 111).

Aqui, se percebe como futebol e política continuam a caminhar intimamente de mãos dadas. Entretanto, apesar de reacender as esperanças, o jogador continuou a decepcionar os franceses dentro das quatro linhas. Mesmo assim, a estrela global, no ano de 2003, foi disputada pelo Manchester United, da Inglaterra, e pelo Barcelona, clube global espanhol bastante prestigiado no planeta, sendo este o vencedor da disputa colocando na mesa 27 milhões de euros em negociação.

Em terras catalãs, Ronaldinho passaria a receber, fora os prêmios, 4 milhões de euros por ano. E na apresentação, verifica-se o fato consumado da estrela global: “Em Barcelona, no gramado do Camp Nou, em 21 de julho de 2003, primeira apresentação de Ronaldinho, contou-se 30 mil. Algo jamais visto nessas terras. Jamais acontecera com nenhum dos grandes que vestiram a camisa azul-grená” (CAIOLI, 2006, p. 119).

Assim, é importante recapitular, Ronaldo também foi contratado como grande promessa pelo Barcelona, entretanto, não recebeu calorosa recepção, o que se pode perceber certo avanço de trabalho da imagem do jogador atrelado ao clube. E é no Barcelona que ele conquista a Bola de Ouro, registrando o seu nome para sempre na história do futebol mundial.

Neymar e a globalização do futebol na segunda década do novo milênio

Neymar da Silva Santos Júnior nasceu em 05 de fevereiro de 1992, na cidade de Mogi das Cruzes, interior de São Paulo. Habilidoso em campo, soma características individuais de Robinho e Ronaldo.

É com Neymar que os elementos do futebol globalizado estão em uma fase mais avançada. Não é por acaso que o Santos soube investir no garoto, pois, antes dos 15 (quinze) anos, o contratou como jogador, com rendimento muito maior do que os demais colegas da mesma faixa etária. Além disso, o clube paulista criou “um centro de treinamento chamado significativamente de Meninos da Vila” (COELHO, 2014, p. 16), como aponta o jornalista Paulo Vinícius Coelho, uma estrutura feita para e por Neymar.

E no mesmo ano de 2005, a nova grande aposta do futebol brasileiro foi procurada pelo Real Madrid, outro grande clube global do contexto, sendo convidado pelos espanhóis a conhecer as estruturas da agremiação em Madrid. A ideia do time europeu era ter, também, “um jogador equivalente àquele argentino supertalentoso que o Barcelona acabara de lançar. Messi havia ido para a Espanha aos treze anos. Neymar estava chegando aos treze” (COELHO, 2014, p. 19).

E desse fato, com a estrela brasileira e argentina, percebemos um fomento à evasão de jogadores antes mesmo de uma idade ideal para atuarem no profissional, pois “a supremacia económica dos grandes clubes europeus permite-lhes ir buscar em idade cada vez mais precoce os talentos que despontam nos países mais pobres” (BARRINHA; NUNES, 2004, p. 132), reflexo direto da transformação do esporte no período. Entretanto, apesar do poderoso assédio financeiro, Neymar decidiu ficar no Brasil.

Seguindo a tendência do futebol globalizado, não demorou muito para Neymar ocupar o seu espaço na mídia:

Neymar ainda não estava perto de estrear no time principal do Santos, mas sua fama se espalhava de tal forma que as informações sobre seu desempenho nas divisões de base e a comparação com transferências de adolescentes para a Europa alimentavam as colunas de esporte (COELHO, 2014, p. 29).

E por conta disso, na sua estreia, em 2009, já era a nova estrela do futebol brasileiro:

Sua estreia aconteceu num sábado à noite, véspera do dia que marcou a grande volta de Ronaldo Fenômeno aos gramados brasileiros, como se o destino anunciasse um ritual de passagem, a saída de um ídolo para a entrada de outro. Neymar saiu do campo na noite de 7 de março aclamado como grande esperança do futebol brasileiro para os anos seguintes (COELHO, 2014, p. 44).

Pouco tempo depois, cerca de um ano, com os resultados da brilhante equipe do Santos em 2010, as ofertas milionárias, do exterior, a Neymar começaram a se fazer presentes. Cabe destaque ao clube londrino Chelsea, que ofereceu 35 milhões de reais pelo atleta brasileiro. E na contramão da regra do futebol brasileiro, a diretoria santista decidiu investir para que o jogador ficasse no Brasil, “ofereceu a Neymar 600 mil reais como salário-base, além de bônus a cada conquista e mais uma porcentagem de 70% sobre os direitos de imagem vendidos para a televisão” (COELHO, 2014, p. 58). E, novamente, o protagonista optou por continuar no país. Este é o fato que diferencia Neymar dos demais jogadores aqui analisados, ele conseguiu atuar mais tempo no Brasil.

Neymar durante a partida da Seleção Brasileira contra o Uruguai no Emirates Stadium em Londres. Foto: Pedro Martins/Mowa Press.

Como resultado disso, o Santos conquistou a cobiçada Taça Libertadores da América em 2011, aumentou sua torcida, renegociou os seus contratos de publicidade em camisa e reajustou seus valores com a televisão. Ou seja, o Santos soube entender a lógica do futebol globalizado quando se pode contar com um atleta de alto rendimento, ambas as partes são beneficiadas, clube e jogador.

Em 2013, numa negociação que envolveu a astronômica cifra de 57 milhões de euros, Neymar se transferiu para o Barcelona. Assim como Ronaldinho, o ex jovem craque do Santos foi recepcionado por 56 mil torcedores espanhóis no Camp Nou, estádio do novo clube do atleta.

Quatro craques brasileiros e suas trajetórias no mundo globalizado do futebol – a guisa de conclusão

 Este estudo buscou enfocar a relação entre imagem e memória do futebol brasileiro no contexto da globalização, analisando obras biográficas de relevantes jogadores brasileiros que atuaram, e ainda atuam, nesse período. Romário, Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho e Neymar foram eleitos no intuito de colaborar para o debate acerca dos efeitos da globalização sobre suas carreiras.

É imprescindível enfatizar a relevância histórica do futebol enquanto fenômeno social. Desde a sua difusão, no final do século XIX, em franco período de industrialização, o futebol caminha de mãos dadas com as transformações culturais, políticas e econômicas. Graças a isso, quando observado, o esporte oferece um retrato do espaço e tempo social nos quais se insere. Se, no início do século XX, no Brasil, o futebol era visto como uma prática amadora por e para as elites dominantes, nos dias atuais, reflete os anseios e as expectativas da sociedade de consumo.

Ao analisar as quatro biografias, pode-se compreender como os aspectos ligados ao processo de globalização impactaram as carreiras desses atletas. A evasão, cada vez mais precoce, para clubes europeus e de outros continentes, com o fortalecimento da disputa econômica dos clubes globais pelos craques brasileiros; a inserção desses jogadores como estrelas do entretenimento por meio de um assédio cada vez mais incessante da mídia; além da transformação da imagem desses jogadores em um milionário negócio internacional são algumas dessas dinâmicas percebidas ao longo do estudo.

Na trajetória de Romário, apesar de tímida, a presença do contexto globalizado é percebida na sua jovem evasão do país, até chegar a atuar num clube global; Já no caso de Ronaldo, percebe-se a transformação da figura do jogador como precioso ativo econômico, além dessa transformação do jogador lidar com uma vida de atleta e uma vida de estrela; Já em Ronaldinho Gaúcho, esse novo estado do jogador como celebridade é cada vez mais explorado; Com Neymar, percebe-se como o assédio da mídia às jovens promessas são mais potencializadas, e como isso se reflete no cenário de disputa para contratação entre os clubes globais, as cifras são cada vez mais altas.

Por fim, é importante discutir e refletir sobre os reflexos do futebol globalizado no Brasil. Projetar e implementar políticas públicas que visem fortalecer o esporte no país são atitudes necessárias, bem como promover a profissionalização na administração dos clubes, desenvolver plano de carreira aos jovens e promissores atletas e democratizar os meios de comunicação aos clubes, jogadores e torcedores. O futebol é a paixão do brasileiro, é um dever buscar meios para protegê-lo.

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Nota

[1] Original:

A biography, when it is worth its salt, is exactly that: the study, the effort to understand ‘the placements and displacements in the social space’, ‘the various successive states of the structure of the distribution of different species of capital that are at stake in the field under consideration’


Como citar

SOUZA, Thiago Gonçalves de; CORNELSEN, Elcio Loureiro. Percepções do futebol globalizado em relatos biográficos sobre jogadores da Seleção Brasileira.