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Percepções do individual ao coletivo no período Copa de 2014

Marcos Marques dos Santos Júnior

Queremos no Brasil uma nova filosofia tanto para a vida cotidiana quanto para o futebol: a seleção alemã demonstrou um fortíssimo jogo coletivo, quem dera ver uma sociedade brasileira se colocando um no lugar do outro, se doando ao outro dentro do campo da vida, querendo saber mais sobre o cotidiano difícil daqueles que sofrem nas periferias, por exemplo, e saber organizar os corpos dentro de campo, assim como organizar diferentes pautas numa marcha só. A seleção alemã não veio passear à toa aqui no Brasil, eles estudaram não somente a nossa seleção, como também se dedicaram em conhecer a nossa cultura e a população brasileira como um todo.

Para alcançar sucesso em uma empresa, em uma escola, em um time de futebol ou em um hospital, por exemplo, é necessário que se organizem as diferentes individualidades em busca de um só objetivo, para saber organizar isso precisamos de líderes estudados, escaldados, ou seja, calejados e experientes em fazer isso, o problema vem quando em um time as individualidades querem aparecer mais, pessoas assim não estão preparadas para jogar em um time vencedor.

Viram como o técnico da seleção holandesa Louis Van Gaal assumiu uma grande responsabilidade ao tirar um goleiro que estava no calor do jogo para colocar um especialista em pênaltis que não estava no clima da partida contra a Costa Rica pelas quartas de final? Assumiu a responsabilidade do verdadeiro líder e mostrou que conhece muito bem a equipe que comanda, teve a visão do coletivo (macro) e especificamente teve também a visão das diferentes especialidades que cada um (micro) poderia oferecer de melhor naquele momento.

É inútil também pensar e querer impor agora que os jogadores brasileiros joguem um jogo exclusivamente coletivo, ou seja, sem drible, sem partir para cima, sem ser feliz jogando bola do modo que ele atuou por muito tempo. Legal mesmo seria que alguém estudioso nos ajudasse a unir essas duas maneiras de se jogar em uma só. Já pensou que legal seria? E por que não contratamos um técnico estrangeiro?

Neymar sofre falta durante o jogo contra a Colômbia pela Copa do Mundo de 2014. Foto: Marcello Casal Jr. – Agência Brasil.

Eu amo o futebol que vai da rua ao profissional, futebol profissional que é assolado pela corrupção assim como a maioria das instituições que detêm o poder de organizar as pautas mais urgentes em nosso país, responsabilidade toda que cai agora no colo desse governo, pelo menos é o que ouço sendo murmurado por aí. Será que a responsabilidade é toda e somente desse governo atual? Eu tenho certeza que não!

Fenômeno semelhante aconteceu em 1950 com os brasileiros culpando sem noção nenhuma o goleiro Barbosa pelo vice-campeonato, como se o vice não valesse nada, e outra, quando as responsabilidades de um time ou de qualquer organização são jogadas no colo de uma só pessoa ou de um só governo é sinal de que as coisas ali não estão bem, no caso eu digo que não estamos bem como nação, não sabemos ter olhar crítico, não sabemos pensar coletivamente, vou além, não estamos bem como mundo, viu!

Percebo que não estamos bem como mundo quando vejo a histórica fome na África, a histórica guerra entre Israel e Palestina etc., é triste mais eu penso assim embora tenha muita esperança e garra igual à seleção argentina teve em campo (como sempre teve) para mudar esse quadro.

É preciso passar o bastão de liderança com carinho e com relatórios do que é preciso melhorar e tenho certeza que isso ocorreu nessa transição de lideranças da seleção alemã, é preciso que isso ocorra nas passagens e transições de lideranças de governos no Brasil, das cidades à presidência da república, do vereador ao presidente assim como fez a seleção alemã de futebol nos últimos anos.

Vimos que Joachim Löw foi assistente na Copa de 2006 e seria técnico na Copa de 2010 e técnico campeão em 2014. Enquanto tratarmos cada governo de quatro anos como se fosse de partido x ou de partido y e não pensarmos em continuidade e planejamento a longo prazo as coisas não darão certo. A seleção alemã, por exemplo, seria praticamente a mesma jogando nessa Copa com comando de Jürgen Klinsmann (técnico em 2006) ou do próprio líder vencedor agora em 2014, Joachim Löw. Assim como a responsabilidade da derrota tem que ser dividida com todos, as felicitações da vitória têm que ser de todos também e a vitória alemã dessa Copa começou lá em 2006, aliás, começou desde quando reformularam o futebol como um todo, tendo humildade e percebendo que precisavam melhorar.

Percebi também que grande parte da mídia não é estudiosa do futebol e nos forneceu comentários muito abaixo do esperado, precisou um estrangeiro nos explicar melhor aquele ato do zagueiro Thiago Silva de ficar sentado na bola, o melhor jogador do mundo em 2006, também zagueiro, o grande capitão e campeão pela Itália naquela Copa, Fabio Cannavaro.

Fabio, que foi convidado por uma rede de TV fechada mencionou o grau de importância da linguagem corporal dos jogadores naquela hora, disse que Thiago “falou” com o corpo para seus companheiros o quanto confia neles e que tudo daria certo naquele momento. Confesso que também julguei erradamente o Thiago Silva, mas depois ouvindo o Cannavaro falar, concordei com ele.

A Alemanha priorizou o jogo coletivo. Foto: Marcello Casal Jr. – Agência Brasil.

A linguagem corporal é predominante no futebol e na maioria dos outros esportes, alguns autores da Educação Física escrevem sobre esse assunto, um deles é o professor Mauro Betti que fala sobre Educação Física e cultura corporal de movimento sobre uma perspectiva fenomenológica e semiótica.

Concluo que a população brasileira se saiu bem na receptividade aos estrangeiros e demonstramos que somos uma pátria mãe, que acolhe bem. Estádios superfaturados e elefantes brancos vão existir devido a políticos que têm uma linha de raciocínio individual, que por sinal, é uma linha de pensamento que imagino não queiramos mais por aqui. Precisamos de pessoas que pensem com inteligência coletiva assim como a maioria dos times que jogaram essa Copa do mundo. A impressão final é a de que uma arte do coletivo fluiu nos campos brasileiros e o bom é que nós percebemos isso, a arte coletiva se dá com preenchimentos de espaços vazios e gente, pessoas, humanos se colocando um no lugar do outro.

Os gols saíram bem trabalhados no coletivo com jogadores sabendo muito bem qual a sua função dentro de campo e o que fazer com a bola, percebemos a seleção holandesa muito bem entrosada e como sempre com uma bela movimentação em conjunto, podemos dizer que o coletivo abafou e neutralizou o individual mesmo com as belas atuações do colombiano James Rodriguez que para mim foi o destaque individual da copa, sei que o individual tem o seu valor mas o coletivo tem também um apelo estético, é sim mais difícil de perceber pois a demanda de atenção tem que ser maior devido a movimentação do time mas quando enfim percebermos essa arte do coletivo, assistir aos jogos de futebol vai ficar cada vez mais interessante.