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Perdedores? Seriado de TV, Mundial Interclubes e outras coisas

Leda Costa

Terminei de assistir a Losers, uma série documental da Netflix dividida em 8 histórias centradas em momentos de derrota experimentadas por atletas. Eu gosto bastante desse tema. E há um quê de motivação pessoal nesse apego. Em grande parte da minha vida, confesso que me senti uma grande perdedora. 

Quando o Vasco perdeu sua primeira final de Mundial Interclubes é como se eu tivesse me personificado na própria derrota. O mesmo ocorreu na 2ª vez. E, sim, eu sei que você pode pensar, “mas que exagero, é apenas futebol”. Movida somente pelo instinto de torcedora eu diria de primeira, “o Vasco é minha vida!”, mantendo, obviamente, o tom dramático tipicamente meu.

Mas precisei ir além desse instinto. Precisei me perguntar por que um 2º lugar incomoda tanto no futebol brasileiro? Por que a derrota tem um efeito tão avassalador que não se restringe à emoção torcedora, mas também se faz presente em grande parte do discurso do jornalismo esportivo do país?  No futebol, uma única derrota é capaz de transformar heróis em vilões. Uma única derrota consegue ter o poder de colocar em descrédito toda a trajetória de um atleta ou de um time.

E assim passei os 4 anos do meu doutorado pesquisando em jornais o discurso do jornalismo esportivo sobre as derrotas da seleção brasileira em Copa do Mundo. No percurso desse trabalho ficou evidente para mim que não se tratava só de futebol. Estava em jogo também o modo pelo qual uma sociedade hierarquizada como a nossa, facilmente se vê pautada por sentimentos de vergonha e humilhação. O 7 a 1, por exemplo, foi recebido com manchetes de jornais que reiteravam as palavra vexame e humilhação

Seria injusto e equivocado afirmar que essa perspectiva nos é exclusiva. Na verdade, ela é parte constitutiva de uma sociedade cada vez mais guiada pela lógica do mercado e da meritocracia, dois elementos que aliás são motores do esporte espetáculo.

Os heróis esportivos encarnam bem a prerrogativa da vitória, revestida da crença ilusória e quase inabalável de que toda conquista é derivada somente do mérito individual e que o sucesso pode ser alcançado por qualquer pessoa, bastando para isso vontade e dedicação.

Sendo assim, quando a derrota vem, ela é compreendida como uma falha cuja responsabilidade é vista como sendo exclusiva do indivíduo.

A série Losers consegue mostrar bem essa dinâmica e nos motiva a questioná-la.

Losers

Imagem: Divulgação

A série

Chamo a atenção para a qualidade narrativa da produção. Há ótimos depoimentos dos principais envolvidos em cada caso, assim como de testemunhas que não somente presenciaram os fatos, mas que mantinham uma forte memória afetiva com as histórias contadas.

Às imagens de arquivo soma-se o recurso à ilustração animada para recriar cenas e, por vezes, conferir certo tom humorístico aos episódios. Os capítulos duram de 20 a 30 minutos, uma boa medida de tempo que permite que nos sintamos envolvidos sem cairmos no marasmo.    

Não vou me deter em todos os capítulos para não tornar este texto exaustivo. Destaco inicialmente a história do clube de futebol Torquay United da 5ª divisão inglesa que nunca havia sido campeão desde sua fundação em 1899. E assim e continua, aliás.

Em 1985, o clube chegou numa situação extrema. O risco de rebaixamento da 5ª divisão poderia significar o fim do clube, o que fez os torcedores se perguntarem “se cairmos e o clube falir, o que faremos no sábado à tarde?”

Essa frase é incrível. Mostra que uma trajetória de títulos não necessariamente é fator fundamental para a adesão clubística. No caso do Torquay, ir ao estádio vê-lo jogar é parte significativa da vida e do lazer dos moradores da uma cidade. Em casos como esse, a vitória ganha outra perspectiva podendo ser ressignificada. Para clubes como o Torquay permanecer jogando em uma liga, já seria um feito e tanto. E será que esse feito foi conseguido?

No episódio “Julgamento” vimos a atleta de patinação artística, Suraya Bonaly, lutar contra o preconceito. Dona de uma técnica impecável que a fazia ser capaz de executar movimentos dificílimos, Suraya quase sempre esbarrava no fato de ter um padrão visto como incompatível com os ideais imaginados para o esporte em questão.

As roupas usadas em suas apresentações eram tidas como de mal gosto, ora cafonas, ora demasiadamente excêntricas. Porém, a cor da sua pele era o que mais provocava estranhamento e rejeição, a ponto de a considerarem como uma menina feia, fazendo com que seus pequenos erros pesassem mais que suas incríveis façanhas.

“Julgamento” nos faz lembrar que nem a vitória e nem a derrota são guiadas por critérios neutros.

Seguindo adiante, temos as consequências do trauma de uma derrota que marcou a trajetória do jogador de curling, Pat Ryan. Pat, em 1985, perdeu de modo surpreendente a final do Brier, o campeonato canadense da modalidade. Obcecado em vencer, o atleta conseguiu elaborar uma estratégia de jogo que durante alguns anos tornou suas equipes imbatíveis.

Essa estratégia basicamente consistia em fazer com que os adversários não conseguissem pontuar. Ao longo dos anos, essa mesma tática foi sendo adotada por outras equipes fazendo assim com que muitos jogos de curling perdessem a emoção da imprevisibilidade.

A torcida ficou incomodada acreditando que o jogo estava se tornando chato, reclamação que ecoava nas arquibancadas durante as competições. Em 1993, uma regra foi implementada no curling de modo a dificultar que a estratégia criada por Pat continuasse a ser aplicada com êxito.

Nesse episódio se evidencia que a derrota é elemento fundamental aos esportes, o que inclui a relação que nós espectadores mantemos com eles.

E finalmente chegamos ao episódio Black Jack que conta a história de Jack Ryan um excepcional jogador de basquete que chegou a ter algumas oportunidades de se tornar um profissional, inclusive da NBA, mas nunca obteve êxito em suas tentativas.

Nascido no Brooklyn, em uma família pobre e criado em um ambiente familiar chefiado por um pai violento, Jack passou sua infância jogando basquete de rua. Sua incrível facilidade em jogar e fazer muitas cestas fez seu nome repercutir para além do bairro. Porém, Jack nunca conseguiu se adaptar ao basquete profissional, suas intensas rotinas de treinos e muito menos à necessidade de obedecer a dirigentes e técnicos.

Chegar até a mais importante liga de basquete do mundo e nela não permanecer poderia nos fazer ver Jack como um perdedor e de fato, durante algum tempo, foi assim que ele se sentiu. Mas será que parte de ligas como a NBA é elemento fundamental a uma carreira atlética?

A história de Jack nos faz perguntar: mas afinal de contas quem e quais critérios definem o que significa ser um vencedor ou perdedor?

Em grande medida, Loser é uma produção que nos mostra a batalha contra o estigma provocado por uma derrota. Uma batalha travada contra nós mesmos e contra um conjunto de discursos que teimam em fazer de um momento, um único momento, a chave de leitura de toda uma existência.

Losers

Imagem: Divulgação

Vitória e derrota

É importante repetir a pergunta: “quem e quais critérios definem o que significa ser um vencedor ou perdedor?”

O problema é que essa pergunta costuma ser respondida de modo superficial e nociva. Cada vez mais a máquina do mundo tem sido concebida do seguinte modo: de um lado vencedores para quem se destina todo louvor e do outro os perdedores, a quem se trata com escárnio e raiva.

Esse tipo de perspectiva é gestada a partir do que Michael Sandel (2020, p.38) chama de tirania do mérito que:

“Deixa pouco espaço para a solidariedade que pode surgir quando refletimos sobre a contingência de nosso talento e destino. É isso que faz do mérito uma espécie de tirania, ou regra injusta. A noção de que seu destino está em suas mãos, de que “você consegue se tentar” é uma faca de dois gumes: por um lado é inspiradora, por outro, odiosa. Ela felicita vencedores, mas rebaixa perdedores, até mesmo do ponto de vista das próprias pessoas. Para quem não consegue encontrar emprego ou ganhar dinheiro suficiente para se sustentar, é difícil fugir do pensamento desmoralizante de que seu fracasso é resultado de suas próprias ações, de que simplesmente não tem talento nem elã para o sucesso (…)”.

 Se em grande parte da minha vida, me senti uma derrotada há de se considerar o peso desse tipo de discurso na avaliação que eu fazia de mim mesma. E os esportes são eficazes propagadores dessa visão de mundo. Por isso,  quando o meu time de coração não conseguiu o campeonato mundial de clubes, o entrecruzamento de sentimentos de derrota foi difícil de suportar. Ainda mais me deparando com as falas dos jornais e das mesas esportivas.

Em Loser, o papel do jornalismo se mostra fundamental para transformar um erro, uma derrota em um evento de forte repercussão. Derrotas narradas, muitas vezes, com tom jocoso e conferindo ares de humilhação a algo que faz parte do esporte e da vida.

O jornalismo esportivo

Agora, após tantas voltas, chego a outro ponto motivador da escrita deste texto. Em postagem no Twitter a querida colega ludopédica, Fernand Haag, lamentava o tratamento que alguns programas esportivos estavam dando à participação do Palmeiras no Mundial Interclubes.

ESPN

Fonte: Reprodução ESPN

De fato, as análises das derrotas do time paulista para o Tigres e Al Ally faziam parecer que o Palmeiras era um dos piores times do mundo e o que mais impressiona é a promoção do quase apagamento da conquista da Libertadores da América de 2020.

O quarto lugar no Mundial foi entendido como um “vexame”, configurado como a pior campanha de um time brasileiro em um Mundial interclubes desde que os novos moldes de disputa foram concebidos.

Embora alguns dos comentaristas não tenham adotado esse tom destrutivo em suas falas e até mesmo tenham reconhecido o ótimo ano do Palmeiras, o enquadramento das manchetes evidencia a escolha narrativa de interpretar as derrotas no mundial a partir de categorias como vergonha e humilhação.

Vindo da boca de torcedores e torcedoras é compreensível a emergência desse tipo de fala. Mas quando ela surge no meio do jornalismo esportivo, são vários os problemas a serem levantados, alguns esbarrando em importantes questões éticas da profissão.

O esporte e o discurso da mídia esportiva são agentes importantes na fomentação de um imaginário do sucesso bastante nocivo. Nele a vitória e a derrota são concebidas de modo superficial, como se estivéssemos assistindo a uma propaganda de refrigerante.

E voltando a Loser, a série documental não nos deixa esquecer que a grandeza do esporte está na capacidade de nos fazer entender a dimensão contingente da existência humana, feita de vitórias, derrotas sendo que ambas não são suficientes para definir uma vida.

 

Referências

Loser, Netflix, Direção de Mickey Duzyj. Lançamento, 2019

SANDEL, Michael J. A tirania do mérito. O que aconteceu com o bem comum? Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2020.


Como citar

COSTA, Leda. Perdedores? Seriado de TV, Mundial Interclubes e outras coisas. Ludopédio, São Paulo, v. 140, n. 48, 2021.