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Perfis de torcedores cariocas, 1918-1919

Matheus Donay da Costa

Pesquisar em história tem sido (e acredito que assim é para aqueles(as) que possuem este ofício) uma conciliação entre trabalho e instigação, onde a busca por uma resposta acaba trazendo novas interrogações. A cada esforço no sentido de interpretar o passado, nova janelas se abrem. Um jardim de veredas que se bifurcam, como postulou Jorge Luís Borges.

Deste modo, investigando os efeitos da gripe espanhola de 1918 nos esportes (série publicada aqui no Ludopédio) que encontrei personagens nos periódicos, tão vivos como se fossem em uma narrativa literária: eram os torcedores de futebol no Rio de Janeiro, presentes no jornal O Paiz, em uma série chamada “Perfis de torcidas”, publicada entre 1918 e 1919.

Abrir essa porta do mundo das torcidas nesse período foi algo muito provocador, afinal, em certo momento eles também estiveram alijados do futebol em razão de uma epidemia e, segundo os cronistas, sofreram bastante com essa ausência. Perceber esses relatos, ver fotos de torcedores aglomerados em frente à redação do O Paiz para saber resultado de jogo, tudo isso me levou a perguntar como eram esses torcedores. São tão fanáticos como parecem?

O futebol nem era um esporte tão antigo assim, pensava eu. A série “Perfis de torcidas” responde um pouco dessa curiosidade e vai além: revela nuances do dia-a-dia, dos costumes e mostra como a imprensa via aos aficionados do esporte bretão.

Foto: Jornal O Paiz/Reprodução

Perfis de Torcidas

A série costuma ser padrão, com tópicos que se repetem em cada perfil, falando sobre coisas que gosta, não gosta, o que o comove, o modo como torce. Um perfil onde se escapam emoções, relacionamentos com outros torcedores, angústias e alegrias.

Escrevo “torcedor” no gênero masculino pois todos os perfis se referem a homens, no entanto, sabemos que as mulheres frequentavam a arquibancada também. Sobre este tema, ressalto o trabalho da minha colega Taiane Lima: “Torcedoras”: Representações de mulheres brancas e negras pela imprensa nos campos de futebol do Rio de Janeiro e São Paulo no início do século XX, onde ela investiga as representações dessas mulheres ausentes nas páginas do jornal O Paiz.

Por hora, encontrei 34 torcedores representados (suponho que existam mais), indivíduos que imagino terem bom trânsito e relações com redatores do jornal, pois compõem um círculo de interações e muitas vezes um entrevistado menciona outro, contando alguma situação vivida pelas arquibancadas, cafés e botequins.

Clubes e alcunhas

Desses 34, 12 se identificaram como torcedores do América, 8 do Fluminense, 5 do Vasco, 2 do São Christóvão, 1 do Botafogo, 1 do Ouvidor e outros 6 não identificaram o clube que torcem. Há torcedores que se identificaram simpatizantes de mais de um time e chama a atenção a ausência de entrevistados torcedores de Flamengo, Bangu, Andarahy, entre outros.

Vale notar que todos torcedores têm alcunha e que elas fazem referência à uma experiência aleatória, seja de onde eles vêm, de onde trabalham ou de alguma situação curiosa vivida pelo torcedor. Os nomes são diversos, por exemplo: Quebra Canellas, Pinto Careca, Vacca Brava, O Conquistador, O Alicate, entre tantos outros nomes curiosos. Toda vez que alguém menciona o outro, o faz pela alcunha, não pelo nome.

Do que os torcedores gostavam?

Olhar para esses perfis de 100 anos atrás me fez constatar que há muitos elementos que os aproximam dos torcedores atuais. Tudo que lhes apetece está relacionado a alguma vitória, algum triunfo de um jogador ou então do fracasso do adversário.

Você gosta quando liga a televisão e o seu time está sendo elogiado nas mesas esportivas? Pois no perfil de Heitor Costa, o “Cera”, consta que o que ele gosta é ver falarem bem do Fluminense. Se quiser tomar uma cerveja com ele, é só dizer que é tricolor. Aliás, o Cera não era o único que gostava de beber e acompanhar o seu clube. Dos 34 torcedores, 9 em algum momento mencionam as bebidas. Alguns gostam de apostar, outros ficam tão felizes com seu clube que pagam a rodada de chopp/espumante para os demais.

Ah, os psicoativos não estão associados apenas aos momentos de alegria. No perfil do “Gallinha”, há registro de que após uma derrota do América teria comprado “um pifão de cocaína” se as farmácias estivessem abertas. Enfim, o fato é que os torcedores se entorpeciam e essa era uma característica muito salientada nos perfis.

Beberrões e barulhentos…

Além de movimentar os botequins, temos o caso do icônico “Pinto Careca” (Antônio Pinto Vieira, um homem calvo), que movimentava casas de pirotecnia com aparente frequência. Segundo ele, o que mais gosta é de soltar foguete antes do tempo, garantindo a vitória do seu América. É todo seu prazer ser fogueteiro. No entanto, os dias não eram os mais prósperos para nosso antigo torcedor americano, como podemos ver nessas notas onde ele aparece no jornal.

Foto: Jornal O Paiz/Reprodução

Alguma mala suerte o acompanhava, fazendo com que virasse anedota nas páginas do O Paiz. Pinto Careca estava com uma urucubaca e, quando se convenceu, queria transferi-la para o Fluminense, time que o fez desistir de soltar foguetes antes do tempo. Antônio Pinto é um dos mais citados em perfis de terceiros, provavelmente uma figura que gozava de popularidade neste círculo de torcedores.

Em geral, quando o tópico é sobre o que gostavam, as respostas giravam em torno de três elementos: vitórias/derrotas, interações com outros torcedores e flertes. Os cariocas seguidamente mencionavam “mocinhas” que neles despertava interesse, o que sugere que a arquibancada também era um espaço de paquera naqueles anos 10.

O que os comove?

Esta pergunta da coluna talvez seja a que mais extrai informações passionais desses torcedores. Novamente, aparecem muitas respostas relacionadas a relacionamentos amorosos. “O Gallinha”, trabalhador da Casa Gonçalves, sócio do América, que cogitou comprar cocaína quando de uma derrota, diz que o que mais o comove é ser pobre, miúdo e não poder casar com uma mocinha que gosta muito dele. Já “O Gaúcho”, torcedor do São Christóvão e defensor da pátria, fica comovido por ser apaixonado por uma mocinha cor branca que não lhe corresponde. Chama a atenção como a coloração aparece quando o tema são mulheres. “Vacca Brava”, sócio vascaíno, gosta de encontrar uma moça de cor que dele também goste e o chame de animal.

Recordo-me aqui do texto de Sidney Chalhoub, “Trabalho, lar e botequim”, onde expõe elementos que compõem uma ordem burguesa incidindo nos relacionamentos amorosos na Primeira República. Não tenho dúvidas de que é o caso destas aflições que tocam nossos antigos torcedores. Amar, constituir um matrimônio, exercer a virilidade, tudo converge para um status dominante naquele momento.

Estádio das Laranjeiras em 1919. Foto: Autor desconhecido/Wikipédia.

Para além do amor

Também eram representados com comoção e até mesmo frustração os homens que um dia quiseram ser players de futebol. Muitas passagens dos perfis dizem respeito a um desejo não atingido de fardar pelo clube que torce. O Tesoura, O Cera e Vacca Brava elegem este como seu ponto fraco: queriam fazer parte dos seus respectivos teams. Já Antônio Ribeiro, o Hindenburgo, traz uma das respostas mais bonitas e que nos mostra o que há de mais genuíno em uma partida de futebol, que é a própria comoção.

Foto: Jornal O Paiz/Reprodução

Curioso pensar sobre como o jornal era esse canal de expressão. Talvez hoje Antônio fizesse um tuíte para expressar a sua emoção de acompanhar uma partida de futebol, com as possibilidades de viralizar ou de permanecer no anonimato. Em 1918, imagino que seu perfil circulou por algumas mãos, desde o Café Cascata até o bar do Camello, da Rua do Ouvidor até a Baía de Guanabara, nos caracteres do O Paiz.

De que modo torciam?

Se colocarmos em perspectiva o torcedor moderno com o torcedor antigo, notaremos continuidades e rupturas. Herdamos, desde os mais remotos tempos, formas plurais e diversificadas de dedicarmos nossas energias em apoio aos times que torcemos. Pode ser em silêncio, de forma extravagante ou então provocativa, tanto faz: tudo isso já estava posto em 1918.

Os perfis torcedores, que registravam esses modos e temperamentos, nos legaram algumas pérolas. Por exemplo, o torcedor corneteiro e que não desgruda do ouvido do árbitro, um tipo não raro nos estádios interioranos, onde o alambrado vira palco para as mais variadas palavras de baixo calão. 4 torcedores, com identificações com Vasco, Fluminense e Botafogo, gostavam de torcer assim, independente da atuação da arbitragem ter sido boa ou ruim. Profissão ingrata, essa dos juízes de futebol.

Foto: Jornal O Paiz/Reprodução

Os torcedores mais calmos também se faziam presentes. Muitos eram identificados como tranquilos, que torciam em silêncio. No perfil de João Rodrigues da Motta, consta que tem uma qualidade: “nunca brigou por causa de torcida”. Chegamos aqui num ponto chave e que rompe com algumas narrativas contemporâneas.

O futebol tornou-se um ambiente de violências ou esse fenômeno sempre esteve presente?

Conforme o que foi documentado na série do jornal, ações violentas não eram raras e inclusive praticadas pelas torcidas. Dez dos 34 personagens manifestaram algum tipo de comportamento agressivo em suas respostas, que vão desde empurrões nas arquibancadas à verdadeiras surras. Em Ataliba Correa Dutra, “O Corajoso”, o jornal menciona que é um torcedor muito nervoso, e que quando o Fluminense está perdendo a primeira coisa que faz é cogitar invadir o campo. Braga da Costa, também torcedor do Fluminense, tem o costume de quebrar cadeiras.

O perfil de Asdrubal Cunha, o “Gaúcho”, registra: “quer dar pancada em todo mundo mas certa ocasião apanhou para burro! (neste dia não espalhou farofa, mas espalhou lágrimas)”. Já Antônio da Cunha Barbosa justifica sua alcunha “Pinga-Fogo”: por ser muito valente e não temer as almas de outro mundo. Assim fica evidente a presença da violência no espaço esportivo, embora careçamos de informações sobre o que os levava a cometer tais atos.

Ainda há, curiosamente, os que torcem de maneiras pouco comum. Raul Schmidt, “O Gafeira”, gosta de torcer brincando com a ponta do nariz. José Gonçalves, “O 42”, se diverte brincando com o nariz do Motta. O próprio Motta se diverte mexendo no seu “enorme nariz”, além de manter a ordem na geral do América.

Sem dúvidas, o torcedor carioca é um dos mais caricatos do mundo. Lembremos dos geraldinos, com suas formas espontâneas e autênticas de torcer. Ao decifrar estes torcedores centenários, lembro do Valderrama flamenguista, da senhora fluminense vestida de Cartola, do Mister M vascaíno, dos sósias que se multiplicaram nos últimos anos e até mesmo do torcedor atuando como VAR no hoje irreconhecível Maracanã. Torcedores que viveram em um tempo onde puderam ser registrados com mais recursos, como no rádio, na TV, no cinema, mas que também não estão imunes ao esquecimento. Cabe a nós, historiadores e historiadoras, resgatarmos e mantermos vivas essas histórias. Chegou até dar vontade de voltar no tempo e tomar umas cervejas com o Gafeira, o Tamoyo e o Pinto Careca.


Como citar

COSTA, Matheus Donay da. Perfis de torcedores cariocas, 1918-1919.