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Personagens do atletismo paralímpico: “vamos invadir a sua raia”

Fabio Zoboli, Elder Silva Correia

Markus Rhem é um paratleta amputado da perna direita do joelho para baixo. O saltador à distância solicitou em 2015 junto à Federação Internacional de Atletismo (IAAF) o direito de competir as Olimpíadas do Rio de Janeiro 2016[1]. Rehm saltou no ano de 2015 no campeonato mundial de paratletismo no Catar a surpreendente marca de 8,40 metros. Essa marca lhe daria a medalha de ouro nas Olimpíadas de Londres 2012 (vencida pelo britânico Greg Rutherford com a marca de 8,31 metros) e nas olimpíadas do Rio de Janeiro 2016 (vencida pelo norte-americano Jeff Henderson com a marca de 8,38 metros).

O paratleta alemão queria lograr a mesma façanha de Oscar Pistorius, que ficou conhecido no cenário esportivo mundial por não ter as duas pernas e utilizar próteses, feitas de fibras de carbono, para correr. Pistorius corria os 400 metros livres e foi o primeiro paratleta da história do atletismo a competir igualmente com corredores ditos “normais” em nível mundial. Esses feitos ocorreram em 2011 e 2012 respectivamente. Em 2011, Pistorius conseguiu participar do campeonato mundial de atletismo com atletas não deficientes organizado pela IAAF em Daegu, na Coreia do Sul. Em 2012, Pistorius também conseguiu o direito de correr as Olimpíadas de Londres, pois sua marca nos 400 metros rasos estava entre as melhores do mundo.

Porém, a IAAF negou o pedido de Markus Rhem alegando que a sua perna protética lhe daria vantagens frente aos demais atletas. Todas supostas vantagens alegadas pela IAAF poderiam enquadrar Markus Rhem num contexto de doping tecnológico, e é exatamente por conta disso a dificuldade de se estabelecer acordos no sentido de deixá-lo competir com atletas normais. Importante dizer que em 2015 Pistorius já não participava de provas do atletismo por estar cumprindo pena pelo covarde assassinato de sua namorada ocorrido no ano de 2013.

Outro polêmico caso que tensiona o contexto paradesportivo é o caso da corredora britânica Danielle Bradshaw que, amputada de uma das pernas, se tornou conhecida no âmbito mundial ao declarar que quer cortar a segunda perna e, em seu lugar, colocar outra prótese de fibras de carbono. Amputada aos 11 anos, em 2014, com 15 anos de idade, ela declara que quer retirar a outra perna, pois, segundo ela, a perna natural lhe impossibilita uma melhor performance atlética devido às sequentes lesões causadas pelo excesso de treinamento. Com duas pernas artificiais, Danielle acredita poder melhorar suas marcas e, assim, realizar o seu sonho de participar de uma paraolimpíada, podendo competir em alto nível.

Esses três casos de paratletas saem das pistas para contracenar com temas ambivalentes do desporto moderno na medida em que suscitam questões ontológicas e éticas que causam litígios no cenário esportivo.

O esporte, permeado por corpos cada vez mais hibridizados a aparatos tecnológicos, nos faz pensar algumas questões de cunho ontológico: o que é algo natural? O que é artificial? O que diferencia natural e artificial? O que significa alterar/produzir/destruir algo natural? O artificial descaracteriza a natureza do humano? Natural e artificial não são tensões de um mesmo e único processo do devir ontológico? Pode algo artificial se tornar autônomo e mudar seu rumo?

Markus Rehm na Rio 2016. Foto: Wikimedia

No que tange às questões éticas, podemos afirmar que uma das características mais perturbadoras entre os cientistas e profissionais que lidam com questões relacionadas à tecnologia neste início de século XXI são os esforços de formular códigos de ética capazes de orientar seus membros frente a uma grande quantidade de dilemas de cunho moral, causados pela fusão do humano com a tecnologia. No desporto, essas discussões vão calhar diretamente na regulamentação do doping e na categorização de provas esportivas.

Porém, há uma questão que expressa muito bem as dimensões ontológicas e éticas que envolvem a problemática suscitada pelos paratletas aqui exemplificados: “o que pode o corpo?”. De forte inspiração spinoziana, tal questão nos leva a definir um corpo não por sua forma, ou suas funções, mas por sua capacidade de afetar e ser afetado pelas coisas que o cercam, ou dito de outro modo, sua capacidade de entrar em relação com outros corpos. Nesse sentido, todo corpo tem um limiar mínimo e máximo de afetar e ser afetado, ao ponto de ninguém saber antecipadamente do que seu corpo é capaz, pois antes de tudo, essa é uma questão de experimentação: dado um encontro entre corpos, não sabemos antecipadamente o que podem.

Com isso, as dimensões ontológicas e éticas se tornam inseparáveis na questão “o que pode o corpo?”, dada que, nessa perspectiva, trata-se de um corpo que simultaneamente “experimenta e avalia”[2]. A avaliação aqui não se trata de uma moral que enquadra os corpos em um código que busca determinar antecipadamente o que eles podem e devem fazer, pelo contrário, trata-se de uma ética inspirada na longa história de experimentações dos corpos, aberta ao devir ontológico inerente a tais processos de experimentações – uma questão tecnicamente lúdica e criativa.

Ora, não é isso que os corpos de paratletas vêm continuamente nos sinalizando e reivindicando em suas performances nas arenas esportivas? Que cada corpo seja avaliado a partir de sua própria capacidade de afetar e ser afetado por outros corpos, independentemente da ordem destes, sejam eles animais, humanos ou inumanos?

Talvez tais questões escancaram as insuficiências de uma dimensão normativa de códigos de ética que atravessam os campos tanto do (para)desporto, como da biotecnologia e a engenharia genética. Como nos lembra o filósofo canadense Brian Massumi[3], a relação do ser humano com a tecnologia não se trata de profetizar uma era “pós-humana”, pois invocar esse termo, pressupõe uma cisão entre o humano e o artifício. Como sustentar tal cisão, quando a natureza, entendida aqui no sentido spinoziano, é cheia de artifícios, e que talvez não haja nada mais artificial do que a própria natureza e a vida com sua capacidade criativa?

Quem sabe, os paratletas com as performances de seus corpos expressam os limites da experiência humana, nos revelando o que há de mais inumano no humano, isto é, a tendência de expansão constitutiva na própria vida, que abarca o humano, o animal e o tecnológico. Por isso, não se trata em invocar um “pós”, mas, parafraseando mais uma vez Brian Massumi, reingressar o humano nesse movimento de expansão e autossuperação que o inclui em um continuum animal-humano-tecnológico constitutivo da própria vida. Destarte, ao invés de um “pós-humano”, tais paratletas não estão nos sinalizando um “mais-que-humano” que não exclui o humano, mas que em uma espécie de mútua inclusão diferencial, incluem o humano, o animal e o artificial nesse processo de diferenciação ininterrupto que é a vida?

Os paratletas estão saindo da arena paraolímpica para “invadir as raias” dos atletas “não deficientes” para mostrar o que há de mais inumano no próprio humano, nossa tendência criativa, uma questão puramente ética, ontológica e lúdica! Não é isso o que mais nos fascina no (para)desporto, essa tendência de autossuperação e criatividade? Um ato potente de borrar as fronteiras ontológicas e ser somente um devir corpo que salta… que corre… que lança e se lança.

 

Notas

[1] As questões trazidas no presente escrito são sínteses de contendas mais bem teorizadas em estudos acadêmicos dos autores que podem ser revisitadas a partir das seguintes referências:

ZOBOLI, F.; MEZZAROBA, C.; QUARANTA, A. M.; CORREIA, E, S. “O corpo híbrido: análise midiática da participação do atleta Oscar Pistorius no mundial de atletismo de 2011“. RBCE, v. 38, 26-33, jan., 2016. 

ZOBOLI, F.; CORREIA, E, S.; LAMAR, A. R. “Corpo, tecnologia e desporto: considerações a partir do caso da paratleta Danielle Bradshaw“. Movimento, Porto Alegre, v. 22, n. 2, 659-670, abr./jun. de 2016.

ZOBOLI, F; CORREIA, E, S.; FELDENS, D. G. “Ontología y axiología en la fusión del cuerpo con la tecnología: tensiones a partir del paratleta Markus Rhem“. Revista Citius, Altius, Fortius. Madrid: Espanha. Volumen 11 nº 1. Mayo, 2018.

[2] BARBOSA, M. T. “Um corpo que experimenta e avalia: A ética em deleuze à luz da “grande Identidade” spinoza-nietzsche“. Kriterion, Belo Horizonte, nº 141, dez./2018, p. 867-890.

[3] MASSUMI, B. O que os animais nos ensinam sobre política. São Paulo: n-1 edições, 2017.


Como citar

ZOBOLI, Fabio; CORREIA, Elder Silva. Personagens do atletismo paralímpico: “vamos invadir a sua raia”. Ludopédio, São Paulo, v. 136, n. 62, 2020.